A HISTÓRIA DE VIDA DUM SALTIMBANCO…

por Cílio Correia | 2017.02.23 - 14:46

 

Fora um brutamontes grotesco, egoísta e cínico corretor da bolsa. Conta quem o conheceu bem. Um dia acordou e descobriu que estava sem cheta. A carteira de ações não valia um caracol. Num laivo de inspiração investira tudo num negócio. Estavam a fazer bluff… Ficou liso.

Tal gesto foi visto como um devaneio, mas deixou de ser levado a sério. Consideraram que tinha pifado. Só podia. Começou a correr que não passava dum charlatão. Nunca mais se endireitou. Tinha cometido um erro impossível para o qual arrastara clientes de quem era gestor de conta.

Deixou a mulher e dois filhos. Passou a ter uma vida errática, despreocupado e desleixado. Quis descobrir a vida dos sem-abrigo, viver com eles, sem outra preocupação a não ser cumprir um sonho. Cabelo crescido, desgrenhado e barba mal-amanhada. Discursava sozinho. Discursos incompreensíveis.

Frequentava a alta coimbrã, junto à porta férrea. Insinuava-se junto do archeiro, até descobrir uma vocação: pintura mural. Sempre tivera jeito para o desenho e pintura. Encontrou a veia artística que desprezara. As pinturas tinham tanto de exótico como de erótico. Considerava-se imune às armadilhas do mundo moderno e sua superficialidade. Conhecera a face luzidia da vida.

Era de meia-idade, com uma visão romântica da vida. Os muros eram as telas, o que lhe dava uma estranha forma de comunicar ideias e sentimentos. As pinturas murais eram um retrato da vida. Exprimia os dramas psicológicos e delirantes a que se seguiam a melancolia e a tristeza mais profundas.

Havia mesmo quem lhe fizesse encomendas a troco de dinheiro para os sprays. O estúdio era ao ar livre. As telas, as paredes. Talentoso. Brilhante nos traços. Exibia uma incomodativa simplicidade no traço. Nos períodos mais negros era reservado e antissocial.

Descobri um mural numa tarde de domingo. Acabara de pintar uma parede branca. Predominavam os vermelhos, verdes, azuis e amarelos. A figura central era uma mulher de costas, com a cabeça coberta por um chapéu amarelo de aba larga, exibindo um vestido leve, aos folhos, sentada, com as coxas à mostra e os pés a chapinar nas águas mansas da margem dum rio como o Mondego.

Um cenário que cativava os transeuntes que iam deixando a sua contribuição numa boina preta virada do avesso. A pintura estava ali, diante de nós. Cumpriu a oportunidade que lhe tinha sido dada pela tela mural, a que se dá o nome de “street art”. Era um dos seus expoentes. Levantou o boné com o dinheiro. Juntou os trapos e partiu, num piscar de olhos, para outra aventura. Era assim mesmo, um saltimbanco.