A guerra enquanto “saúde do Estado”

por PN | 2019.01.22 - 18:18

 

 

De há décadas a esta parte, os governos descobriram na defesa nacional e consequente corrida ao armamento, o pote das libras de ouro.

Essa visão, muito nítida no pós 2ª Grande Guerra, foi-se engrandecendo nomeadamente nos EUA e, através dela, numa sociedade “com um apetite vigoroso por rendimento e riqueza” (Barrington Moore). (…) “atormentada por quimeras e estupidificada pelos meios de comunicação” (Noam Chomsky).

Mais, a apologia da guerra enquanto “saúde do Estado” (…) a qual ”desencadeia automaticamente e ao longo de toda a sociedade, as irrestíveis pulsões de uniformidade e cooperação ardente com o governo, de forma a coagir a obediência de grupos minoritários e indivíduos que careçam de espírito de manada.” (Randolph Bourne).

Os EUA, logo a seguir à 2ª Grande Guerra, tiveram vários aparentes desastres bélicos que, e não obstante, redundaram – apesar dos milhões de vítimas humanas – em períodos de florescimento económico brutal.

A saber, no século XX:

Indochina (1946-1954), Coreia (50-53), Guerra Civil do Laos (53-75), Crise do Líbano (1958), Guerra do Vietname (65-73), Invasão da Baía dos Porcos (61), 2ª Ocupação da República Dominicana (65-66), Guerra Civil do Cambodja (67-75), Conflito Hmong (75-07), Guerra Cambodjana-vietnamita (77-91), Força Multinacional no Líbano (82-84), Invasão de Granada  (83), Invasão do Panamá pelos EUA (89-90), Guerra do Golfo (90-91), Zonas de Exclusão aérea do Iraque (91-03), Guerra Civil da Somália (92-95), Operação Uphold Democracy (94-95), Guerra da Bósnia (94-95), Guerra do Kosovo, (98-99).

Século XXI:

Guerra do Afeganistão (01-14), Guerra do Iraque (03-11), Guerra no noroeste do Paquistão (04…), Rebelião da Al-Qaeda (10…), Intervenção militar na Líbia (11…), Guerra contra o Estado Islâmico (14…), Guerra Civil Iraquiana (11…), Guerra Civil Líbia (14…), Guerra Civil Síria…

Há indesmentivelmente uma omnipresença bélica dos EUA (e não só) em todos os conflitos mundiais. Estas guerras, guerrilhas e/ou intervenções militares, em nome da Defesa contra o Mal, o Terror e pela Democracia e Paz – “Deus é claramente democrático” (McNamara) – resultaram numa inusitada prosperidade económica assinalável (excepção do período do “crash”), o que nos pode levar a concluir que a guerra é excelente, nomeadamente para quantos nela não perecem, e dela não vêm estropiados, mas sim para as minorias cada vez mais alarvemente enriquecidas na sua cupidez e voracidade imparáveis. Exemplo: a indústria do armamento.

E já agora… afinal quem esteve por trás do 11 de setembro? Osama Bin Laden não foi “militarizado” e treinado pelos EUA? Responda quem souber…

Lembremos Chomsky in “Os Senhores do Mundo” (Bertrand Ed.):

“Uma economia é saudável quando o PNB crescente inclui o custo do napalm, dos mísseis, dispositivos anti-motim, das prisões e campos de detenção, de levar o homem à lua, e assim por diante.”