À esquerda nada de novo.

por João Figueiredo | 2013.12.06 - 09:42

Passados que estão alguns dias sobre o “Encontro das Esquerdas” na Aula Magna de Lisboa, queria partilhar convosco algumas breves considerações.
Assente que está a poeira sobre aquele acontecimento, reparo que a tentativa de “sobressalto cívico” levado a cabo por Mário Soares foi um ato cívico de enorme irresponsabilidade.
O apelo à violência que dali saiu é intolerável e inaceitável.
A coberto de uma alegada defesa da Constituição e do Estado Social, foram proferidas afirmações que colocam em causa essa mesma Constituição e o funcionamento desse mesmo príncipio fundamental que chamamos de Estado Social. A isso temos de somar o inconcebível pedido de demissão do Presidente da Republica e do Primeiro-ministro.
O Presidente da Republica não foi eleito democraticamente à primeira volta?
Este governo não foi constitucionalmente eleito?
Então este governo não tem lutado para garantir, com as graves limitações que herdou, a existência de uma Segurança Social para todos, de um Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito e de uma Escola Pública de qualidade?
Atitudes destas denotam um enorme sentido de arrogância e de irresponsabilidade ao promoverem iniciativas que apenas visam lançar foguetes incendiários.
Se alguma proeminente figura da direita tivesse proferido as aleivosias que Mário Soares regurgitou, o que não escreveriam os órgãos comunicação social e que adjetivação não utilizariam os comentadores socialistas peritos em defender o “estado de negação” das suas próprias responsabilidades?
É triste e até algo confrangedor assistir à figura patética do Dr. Mário Soares num período em que os portugueses estão a fazer um doloroso esforço para tirar o país de onde o “empenho e a tão apregoada sensibilidade social” socialista o tinham mergulhado.
Mário Soares afirma que (eu) “fui capaz de retirar o 13º mês, era indispensável fazer! E foi por isso que se deu o desenvolvimento, que veio a seguir…”. Fantástico, não acham?!. Quando a austeridade é aplicada pelos socialistas ela é objeto de autoelogio, é positiva e até se constitui como mola impulsionadora de crescimento económico. Quando a mesma é aplicada por Partidos de Direita, para cumprir compromissos assumidos internacionalmente, a mesma passa a ser diabólica, recessiva e pronunciadora de uma ditadura. Em resumo: se for o Partido Socialista a aplicar medidas de austeridade os portugueses têm o dever de aguentar, se Partidos de Direita tiverem de usar idênticas medidas, esses mesmos portugueses devem ter o imperativo moral de se revoltar…
Foi este paradoxo que esteve em exaltação na Aula Magna onde os já citados apelos à violência, embrulhados num papel de “fino patriotismo” (como se a exaltação de tão nobre sentimento fosse exclusivo dos intervenientes) e assim dar lições de democracia, como se propriedade sua se tratasse.
Se a Esquerda estiver no poder todas as vicissitudes governativas são legítimas, se for a Direita, as mesmas dificuldades constituem-se verdadeiros atropelos democráticos.
Este encontro de Esquerda mais pareceu um desfile de carnaval onde a maior parte das máscaras usadas tinham algumas décadas. Para além de fora de moda, essas máscaras não trouxeram nada de novo. Antes pelo contrário. Assistir àquele triste espetáculo levou-me a pensar que há pessoas que, de moral, têm só uma parte. A que lhe interessa!
Por isso, nem na Aula Magna nem à Esquerda surgiu nada de novo.