A Espada da Justiça

por Nuno Rebocho | 2015.07.23 - 10:03

 

Sempre me confundiu aquela imagem da Justiça: matrona de olhos vendados, espada na mão destra, balança na sinistra. É arrepiante! Ou farsa mágica. De olhos vendados, quem acerta onde? E expomos-nos ao risco de desacertada espadeirada porque a dona se exibe no palco da invisualidade? Ná. Nunca me convenceu a imagem da matrona que mais me fala de desatinos de juízes que da imparcialidade do julgamento. E, de experiência feita, aqui despejaria carrego de exemplos que fariam prova avondo de desastrado espadeiramento.

Fico-me por episódio de há duas dúzias de anos no Porto, quando me apertava e fartava de processos em que servia de réu. Alegados “abusos de liberdade de imprensa” por sistema queixados por determinado comendador minhoto, já falecido, que decidira processar-me quando e se o seu patronímico ou alcunha fosse por mim referido. Ia já no décimo quarto processo, obrigado a deslocar-me de Lisboa duas vezes por semana: sentava-me de réu, respondia aos quesitos que o juiz monotonamente repetia ao laborioso escrivão, que por sua vez registava palavras por mim ditadas, uma a uma, para minuciosa ata. Suplício. De fazer perder a paciência a um santo. Eu estava pelos cabelos e, se da calvície me salvei, o devo apenas à desistência do comendador. Mais se cansou ele do que eu.

Na circunstância, o cujo acusava-me de “abuso” por ter escrito que ele “enricara”. Por tal “abuso” havia julgamento já em oito sessões, oito dias, oito viagens de Lisboa ao Porto e volta, mais o que ameaçava dos demorados repositórios de testemunhas. Bem que eu repisasse que “enricar” não era pejorativo, invocasse os sagrados manes de Camilo e Aquilino, trouxesse em meu favor dicionários e étimos, o acusador teimava. Lá me condenava eu à décima quarta absolvição.

Ora, numa das viagens de comboio para o Porto com destino a sessão de tribunal na manhã seguinte, calhou-me meter conversa com um professor coimbrão com sortes de economista. Na ignorância do meu mister, falou-me de si, das suas tarefas lisboetas que contribuíram para uma reforma fiscal então em preparação – enfim, alertou-me a malandrice. Transportei-o à carruagem-bar e fui-lhe despejando uísque atrás de uísque, até que o homem dicou os pormenores do que ainda secreto estava. E, aterrado em Coimbra de pernas trôpegas, deixou-me na continuação da viagem com vapores tamanhos que me apagaram da lembrança tudo quanto o imprevidente me confidenciara e ainda me sobraram agonias que levei para o hotel onde me alojei no Porto. Agonias tantas que me desviaram do quarto para, à maneira dos rafeiros sacudirem pulgas, eu expulsar os tropeços. Nisso consumi a noite por estúrdias na companhia de Baía Reis e Sérgio Granadeiro, tertulianos das minhas indormidas noites nortenhas de então.

Para arribar à sala do tribunal, nas proximidades da Constituição, só houve tempo para despachado duche que nem aligeirou as olheiras. Em tal estado me cheguei ao magistrado e me desculpei: que para ali me plantar, trabalhara até às três da manhã no cuidado das notícias e depois me afizera afobadamente à estrada para tomar o fardo de Egas Moniz honrando palavra. E o togado incomodou-se: ao que a sanha dos homens obrigava jornalistas! Discursou, de dedo apontado ao acusador, ao patrono, ao mundo. E absolveu-me. Nunca sequer adivinhou que eu nem tinha carta de condução, nem sabia conduzir.

Nessa manhã, louvei a tal matrona, hercúlea e vendada, de espada empunhada e balança sem nada para pesar. Chamam-lhe Justiça. Está, ao vento, ao sol e à chuva, desafiadoramente à porta dos tribunais.