A escola em debate com Sampaio da Nóvoa

por Ana Albuquerque | 2015.01.25 - 17:18

V Seminário – A escola em debate: (Re) pensar a relação escola-família-comunidade, Agrupamento de Escolas Viseu Sul, contou com uma intervenção notável de Sampaio da Nóvoa

António Sampaio da Nóvoa foi o principal orador deste seminário, organizado no dia 24 de janeiro, pelo quinto ano consecutivo no, agora, Agrupamento de Escolas de Viseu Sul, com a coordenação da professora Maria Martins, em parceria com várias instituições, designadamente, o Instituto Politécnico de Viseu, a Universidade Católica e o Município.

Este ano, mais uma vez, os principais objetivos deste projeto foram cumpridos: repensar a relação escola-família-comunidade; promover o envolvimento e implicação de todos os elementos da comunidade educativa, professores, pais, assistentes operacionais e técnicos, autarquia, instituições locais, elegendo a formação como estratégia de intervenção.

Sampaio da Nóvoa falou para uma plateia polifacetada que encheu a Aula Magna do IPV.

Este ex-reitor da Universidade de Lisboa e conceituado investigador na área educacional norteou a sua intervenção tendo como pano de fundo a defesa de um Espaço Público de Educação. Começou por apresentar uma panorâmica geral do processo histórico de construção da escola, a partir dos meados do século XIX, passando pelo modelo escolar preconizador de uma pedagogia normalizada, num edifício escolar separado, com turmas sentadas com um professor à frente, para acentuar a necessidade de repensarmos este modelo pela emergência de mudanças que não podemos ignorar. A escola vai sofrer enormes revoluções nas próximas décadas, sustentou o Professor. De uma escola com excesso de funções, uma escola transbordante, inclusiva, responsável máxima pelo desenvolvimento integral dos alunos, de uma escola capaz de salvar a humanidade temos de passar para uma escola transformada pela própria transformação das sociedades. As crianças de hoje já não pensam como nós pensámos ou pensamos. Parafraseando Olivier Reboul, na escola deve ser ensinado tudo o que une e tudo o que liberta. O que nos une através de laços patrimoniais, de valores comunitaristas; o que nos liberta, os valores universais, a abertura à multicultura. A escola tem de viver neste desafio entre localização e mundialização. A escola de amanhã tem de integrar o indivíduo numa comunidade tão vasta quanto possível.

Para além desta necessidade de abertura ao mundo, salientou, na senda do pensamento de João dos Santos, a necessidade de a educação e a escola serem muito mais do que a escola. A escola é apenas um espaço de redes. A educação exerce-se em muitos momentos e espaços. As elites detentoras de outras possibilidades e mecanismos deixam de enviar os seus filhos para a escola pública que passou a ser um espaço menorizado. Daí a importância de repensar a escola, partindo do reforço de todas as presenças, fazendo mudanças pedagógicas profundas, revalorizando o papel do professor, nada substituiu um bom professor, promovendo a autonomia da escola como instituição, estabelecendo redes de convivialidade entre as famílias, as associações, as entidades, em espaços comuns de trabalho, desmaterializando a escola como edifício separado da sociedade.

Ninguém sabe o que vai acontecer na escola do futuro, mas é importante que falemos sobre isso, acrescentou o orador. O espaço público de educação não pode ser um “jogo de soma zero”, numa feliz expressão de Michel Serres. A escola e a educação não são mercadorias, bens transacionáveis.

Para finalizar, em jeito de ligação com a palestrante seguinte, a professora brasileira Cybele Amado de Oliveira, que apresentou uma experiência de um território educativo na região do nordeste brasileiro, como exemplo da possibilidade de estabelecimento de um projeto comum de educação, citou Manoel de Barros: “Precisamos do feitiço das palavras e não da casca das palavras”.

A Autarquia fez-se representar na sessão de abertura. Pena é que este debate sobre a escola não conte, ainda, com a efetiva participação de todos, em igualdade de circunstâncias, em que todos se sintam atores e não meros espetadores ou encenadores.

Parabéns ao Agrupamento de Escolas Viseu Sul. Precisamos mesmo de debater o futuro da escola pública em Portugal e precisamos, sobretudo, que os “decisores” nos ouçam para que estes debates não passem apenas por “ajuntamentos” de especialistas ou momentos de terapia dos participantes, nomeadamente dos docentes!