A escola como organização política

por Ana Albuquerque | 2014.02.16 - 19:38

A consideração de uma qualquer organização, incluindo a escolar, como sistema político pressupõe a mobilização de conceitos chave como interesses, conflito e poder. A diferente configuração semântica atribuída a estes termos conduz a leituras necessariamente diferentes.

Começando pelos interesses, destaquemos a sua utilização no plural: pessoais, profissionais, políticos, que se interpenetram.

A definição clara deste conceito torna-se difícil, pois varia de acordo com a sua perspetivação. Naquela que utiliza métodos não democráticos de conceber a vida política, os interesses são definidos, previamente, por alguns para serem observados por todos, numa visão monorracional das organizações, sustentada ou camuflada, frequentemente, por “princípios” de cooperação tendentes à realização harmoniosa do bem comum. Noutra, tendencialmente mais democrática, parte-se da consideração da existência de múltiplos interesses em ação, num dado momento, e da necessidade da participação dos vários interlocutores num processo negocial, plurirracional, de interação de poderes.

A análise política das organizações, incluindo as escolares, obviamente, deve considerar, antes de mais, as disputas entre “grupos de interesse”. Um grupo de interesses forma-se a partir do momento em que um conjunto de indivíduos reconhece que entre eles há interesses comuns e que, unindo-se, podem influenciar uma tomada de decisão, dependendo das estratégias que, calculadamente, utilizem: ora de coligação, ora de competição.

No que concerne o conflito, existem três tipos de conflito: o manifesto, o encoberto e o latente. O primeiro corresponde a situações em que os interesses individuais ou grupais, resultantes de coligações, se manifestam de forma explícita, no confronto formal, no seio das organizações, nos processos conflituais abertos, da negociação até à dominação por uma das partes, na relação assimétrica e flutuante de poderes. O segundo, pela sua frequência, é dominante na vida organizacional. Os atores não assumem os seus interesses abertamente nas arenas formais, fazem-no de forma velada, nas redes informais, nos bastidores, nos jogos de manipulação, pressões, ameaças, promessas, para a manutenção dos seus interesses, evitando o conflito aberto. O último existe, em potência, nas áreas de indefinição ou definição ambígua de interesses e pode, a qualquer momento, evoluir para as outras formas de conflito e, por isso, há sempre grupos a tentar controlá-lo.

O poder é indissociável da relação em que se exerce: nenhum ator armazena o poder. Cada um exerce-o, usando os recursos que um determinado contexto de ação lhe possibilita. Esta formulação realça a articulação irredutível entre poder e troca.Na generalidade, os sistemas de ação são compostos por “atores estratégicos” que procuram uma ordem, uma estabilidade, através da regulação das dependências mútuas, dos jogos de poder, uma ordem contingente, é verdade, mas indispensável à sua existência. O jogo do poder nas organizações é o seu suporte vital. As relações humanas sobrevivem na dependência mútua, embora desequilibrada entre os atores.

O poder exerce-se de forma mais formal ou de forma mais informal, o chamado poder de influência.São muitas as formas de exercício: a autoridade hierárquica, piramidal; o uso da estrutura organizacional através de regras e regulamentos; o controlo dos recursos, económicos e humanos; o controlo dos processos de decisão; o controlo do conhecimento e da informação; o controlo das tecnologias; o controlo das fronteiras organizacionais; o controlo das alianças interpessoais e das redes informais; o controlo das contraorganizações; a capacidade para lidar com a incerteza; a gestão das relações de género, etc.

O poder gera poder e quem o possui procura sempre acrescentá-lo, mobilizando, de forma velada ou explícita, algumas estratégias de controlo e de influência, ora de natureza relacional, empatia, simpatia, benevolência, etc.; ora de ordem racional, regras formalizadas em documentos, práticas mais coercivas, ameaças, punições.

Se à luz desta abordagem, perspetivarmos o Conselho Geral, o órgão de direção das escolas públicas, como um sistema político, que tem de lidar com os interesses das várias clientelas, diretor da escola, professores, poder local, alunos, pessoal não docente, membros da comunidade e pais, as tomadas de decisão que resultarem deste jogo constituir-se-ão como outputs para a escola que os toma como orientações a cumprir, de forma mais ou menos clara, na zona de incerteza que caracteriza todas as organizações.

A escola é uma organização complexa, instável, com objetivos nem sempre claramente definidos ou perseguidos, composta por indivíduos com interesses diferentes, muitas vezes contraditórios, que nem sempre cumprem as regras formalmente estabelecidas, procurando estrategicamente, habilmente, obter ganhos.

Só uma análise micropolítica da escola, como de todas as organizações, pode mostrar aquilo que está oculto e não o que todos já sabemos.