A dívida política da discussão política da dívida

por João Fraga | 2014.04.01 - 18:53

 

“Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente”, é o título da petição (emergente de um “manifesto” subscrito por 74 personalidades portuguesas e apoiado por outros tantos destacados economistas estrangeiros) que hoje, 1/4/2014, já colheu cerca de 25.000 assinaturas. Pelo menos seis vezes mais que as necessárias (4.000) para, nos termos legais, poder / dever ser discutida na Assembleia da República.

Felizmente, os portugueses estão a aperceber-se de que, se: não discutimos a dívida e a sua “virtude; não discutimos o país e se “está melhor”; não discutimos os credores, a sua honestidade e o seu “prestígio”; não discutimos a troika e a sua “moral”; não discutimos o empobrecimento, o desemprego, a desvalorização do trabalho e o seu “dever”,…

Então, corremos o risco de, qualquer dia, acabarmos outra vez a papaguear algo parecido com: “Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.”

Por isso, contrairemos (mais) dívida política (e mais legitimada, essa sim, porque constituir-se-ia no ano em que se comemora o 40º aniversário da Revolução de Abril) se não discutirmos (e agirmos) politicamente (com a projecção humana, social e económica que a genuína essência da Política encerra) não só a (in)sustentabilidade mas, também, a (i)legitimidade de muito da “soberania” da dívida.

 

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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