A dimensão escatológica das lojas e das compras

por José Carreira | 2014.04.01 - 15:59

Ao ouvir o programa de rádio “O Amor é…”, na Antena 1, o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz dizia que homens e mulheres têm subterfúgios para fugir aos problemas. Exemplificou com o vício que as mulheres têm de comprar sapatos e os homens camisas. Inclusivamente, referiu que tem amigos que confessam comprar camisas que ficam meses sem serem usadas, devidamente etiquetadas e plastificadas.

É comum encontrar amigos nos centros comerciais com cara de enfado porque as suas namoradas ou esposas os obrigam a ir às compras… Quanto a mim, confesso, gosto de fazer compras, de escolher, experimentar, aguardar pelo “preço certo” e comprar, sou um consumidor algo compulsivo… Declaração de interesses feita, vamos ao que interessa. Vivemos efetivamente numa sociedade de consumo, os centros comerciais são autênticas catedrais de consumo. Na verdade, as “lojas e as compras” adquiriram uma “verdadeira e plena dimensãoo escatológica” (Zygmunt Bauman, La riqueza de unos pocos nos beneficia a todos?). As peregrinações deram lugar aos passeios no shopping, os breviários foram substituídos pelas listas de compras e os supermercados tornaram-se, como nos diz o sociólogo George Ritzer, nos nossos templos.

Bauman considera que “o caminho da felicidade passa por ir às compras” e que “as lojas são farmácias para cada problema das nossas vidas.”

Se considerarmos que o poder de compra no país mantém a tendência decrescente desde 2010 e está entre os três mais baixos da zona euro, percebemos porque andam os portugueses cada vez mais tristes e desanimados. Quando “peregrino” a uma das nossas “catedrais”, verifico que encerram lojas atrás de lojas e que os transeuntes deambulam entre os altares da “Meca do Consumo”, contemplam-nos mas não efetivam os desejos. Aproveitam a climatização do espaço – fresco no verão e quente no inverno – e usufruem da música ambiente, mas as compras são adiadas sine die…

À revolução do capitalismo de consumo corresponde uma sociedade de hiperconsumo. Foi desencadeada “uma profunda revolução dos comportamentos e do imaginário do consumo”, nascendo o “Homo consumericus”, “uma espécie de turboconsumidor” (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal).

A crise parece estar a desmoronar este edifício, esvaziando os “templos” e impossibilitando os cidadãos de serem felizes, marginalizando-os. O esforço que está a ser pedido aos portugueses é “colossal”, obrigando à redefinição dos padrões de consumo. Muitos portugueses já́ hipotecaram a casa e o carro, voltaram a casa dos pais, deixaram de comprar livros e música, não vão ao cinema, não fazem férias e milhares engrossam as fileiras da emigração.

Estará́ a “sociedade do desejo” em risco?