A Debandada

por António Soares | 2015.03.16 - 19:14

 

Aos muitos, milhares de Portugueses fazem-se ao ar, à terra e ao mar. Vão à procura de melhores condições de vida, vão à conquista de esperança. Partem desolados, vencidos, anulados. Não partem por querer, mas por obrigação. Partem por pão.

Deixem que vos sussurre apenas dois nomes que agora se pronunciam com British accent: Hugo Rodrigues e Cláudia Patrício.

Há pouco mais de dois meses em terras de Sua Majestade, o Hugo e a Cláudia já estão a trabalhar. Compraram um carro a preço acessível, e a Cláudia até lançou um livro – “Mr. Prime Minister” by Sophie Quinn.

Não se tornaram prolíficos por terem aterrado em Inglaterra, mas é lá que estão a ter a oportunidade de se sentirem e serem produtivos e produtores: produtivos em labor, produtores do seu próprio futuro.

Porque em Portugal, como dizia Eça, “quem emigra são os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e um país de fracos e indolentes padece um prejuízo incalculável, perdendo raras vontades firmes e poucos braços viris”.

E são esses braços viris que noutras terras, fustigados pela saudade e nutridos pela esperança, colocarão as suas poupanças no País que lhes cerceou a esperança e o futuro. Com esse esforço ajudam a pagar os subsídios de alguns ociosos que por cá ficam, peritos em sobreviver com o esforço alheio, e outros criminosos que por cá já não deviam andar.

As letras garrafais que decoram os jornais só não envergonham os filhos das meretrizes que nos desgovernam. As manchetes colocam a nu uma pornográfica injustiça social, o desprezo dos políticos pelo povo e sua afeição pela corrupção, é toda uma realidade que enoja.

Cada vez nos convencemos mais que a nossa casa não é o País ou a Cidade onde nascemos, e que a melhor cidade para se viver não é a cidade onde só há lugar para o bem viver uma elite de burgueses.

E percebemos que a nossa casa não é a nossa língua, quando nessa língua palavras de esperança são cada vez mais parcas.