A cultura da MENTIRA

por Norberto Pires | 2014.01.12 - 14:35

Paulo Portas foi ao congresso do CDS-PP MENTIR. E MENTIU muito e incentivou à MENTIRA, o que foi largamente acedido pela sua Guarda Pretoriana.

No final, 82% dos delegados do congresso afirmaram que para eles a justificação de um caprichoso do tipo “sim fiz porque me deu na real gana”, que é o que quer dizer “o que tem de ser tem muita força” na boca de Paulo Portas, é mais do que suficiente. Tudo bem, cada um toma o que quer, mas o que me preocupa é que esta gente alucinada e manietada está no Governo, tem a Economia, Segurança Social, Agricultura, a coordenação com a troika, etc., e não consegue ver para além de Maio, nem se distingue do plano individual de Paulo Portas.

Estava a escrever isto e a lembrar-me de duas ou três coisas que ouvi ontem numa sessão sobre a revisão constitucional, a reforma do sistema político, etc., onde ficou claro que estamos numa enorme encruzilhada, pois, na verdade, os atuais atores políticos não sabem o que fazer e o discurso alternativo, organizado ou não em plataformas, vive sempre dos mesmos, e portanto, da ausência de resposta, numa cultura de encruzilhada que favorece a ideia de que “tem de ser assim e não há alternativa”.

Falava-se de mudança no sistema eleitoral, e aquilo era tudo só impossibilidades. O melhor, como experiência adiantam, é o voto preferencial. Tudo o resto é muito complexo. Pois, convém que seja. Mas aparecem justificações muito interessantes, pois os partidos percebem o que aí vem, nomeadamente nas Europeias onde se arriscam a eleger um número recorde de euro-cépticos, por ausência de alternativas. Dizia um dos palestrantes que foi cabeça-de-lista do PSD às Europeias, deputado, líder parlamentar, etc., que os partidos fazem “escolhas clubísticas” e que, por isso, urge mudar o sistema eleitoral dando mais poder de decisão aos cidadãos. Não deixa de ser engraçado, apesar de verdadeiro, vindo de uma pessoa que foi, e aparentemente vai continuar a ser, uma “escolha clubística”.

O sistema eleitoral tem de mudar de forma radical, permitindo listas independentes, voto preferencial e obrigatoriedade de voto, ou penalização para quem não o fizer (por exemplo, vendo agravado o acesso a serviços públicos). Isso permitiria uma maior identificação dos eleitores com os eleitos, uma maior responsabilização, e o desarmar das máquinas partidárias que são, infelizmente, verdadeiros mecanismos de poder pelo poder sem nenhuma correlação com o interesse comum. As dificuldades que antevejo com essas mudanças do sistema eleitoral são todas relativamente simples de resolver, com mais ou menos trabalho. E acima de tudo valem a pena.

O essencial é resolver este circulo vicioso de mentira que, aparentemente, é o mecanismo certo para ganhar eleições. Basta mentir, arranjar alguns que mintam também, fazê-lo bem com cara séria e sem rir, convencer com isso alguns eleitores e deixar as estatísticas funcionar. Nem que se abstenham 50% das pessoas, e uma outra grande percentagem vote em branco ou nulo. Não interessa. Dos que votaram, uma maioria fez a diferença, a mentira resultou e o objetivo era o poder. Pelo que: bandeirinhas no ar, sucesso! Se verificamos que mentiram, isso de nada importa. Já está feito e não há mecanismos de perda de legitimidade. Tem piada que, neste caso, um dos princípios fundamentais do direito não funciona, não é aplicado: o famoso princípio da confiança, usado pelo Tribunal Constitucional, e bem, para chumbar a convergência de pensões.

E isso não inquieta os espíritos cívicos dos partidos, embrenhados que estão no status quo, nesta máquina avassaladora que martela conceitos, que assemelha “Mudar” e “Influenciar”, que limita horizontes apontando toneladas de impossibilidades, que fecha portas e janelas, que coloca “não és capaz” na cabeça de todos, que tudo torna inatingível, incapazes de levantar a cabeça, olhar em volta e perceber que tudo isto nos conduzirá a inaceitáveis recuos civilizacionais. E que contra isso, só funciona o espírito humano e uma profunda e irrevogável defesa da liberdade e da democracia.

O que falta? São vozes que gritem isso mesmo com total desassombro, e sem medo. É a única defesa contra a “Cultura da Mentira”.

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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