A crise no BES: entre a agonia e as dores de parto

por João Salgueiro | 2014.07.31 - 17:25

Durante muito tempo, acreditou-se na ideia que uma crise traduzia o fim de uma era e o princípio da outra. Hoje, não é assim. Uma crise comporta, em si mesma, diferentes sinais e manifestações múltiplas que, não poucas vezes, são, elas próprias, divergentes.

Tendo suspendido a minha permanência em Portugal durante uma semana, as notícias parecem continuar as mesmas: são as atrocidades em Gaza, cometidas pelos israelitas, pelos vistos, com uma aparente indiferença de todos, mesmos dos próprios israelitas; é a queda do avião das linhas aéreas da Malásia, mas em que o maior número de vítimas foram holandesas e australianas – num contexto de guerra civil na Ucrânia, em que, pelos vistos, os Donos do Mundo procuram atirar as culpas para a Rússia, esquecendo que, do outro lado, os EUA continuam a alimentar a matança na Palestina…

Mas, para consumo interno, a saga que continua a alimentar a comunicação social e a despertar a atenção das pessoas é a crise no BES. Curiosamente, há dois factos – aparentemente banais – que delimitam a minha ausência e que concorreram para sustentar também esta crónica. No Expresso para o Aeroporto de Lisboa, o motorista e um seu colega que connosco viajava, durante grande parte do percurso, dissertavam sobre a crise no Banco Espírito Santo, sobre a queda do valor das ações e a possibilidade de negócio traduzida na compra ou venda das mesmas. Vi-me, de repente, com a imagem da Grande Crise Capitalista de 1929, decorrente de reminiscências da leitura de um livro em que, o motorista e o banqueiro concentravam a sua atenção, simultaneamente, nas notícias que chegavam de Nova Iorque, relativas ao Crash da Quinta-feira Negra. No regresso das férias, ouço na rádio um representante dos trabalhadores do BES que, curiosamente, manifestava com fervor a sua confiança na resolução do problema do Banco, ao mesmo tempo que bramia a espada da justiça para os implicados na má gestão. O que também é curioso. Estamos habituados à velha tática marxista de dividir a barricada: de um lado os trabalhadores, do outro os patrões [ainda recentemente nos foi dado um exemplo paradigmático pelos pilotos da TAP que, perante os constantes atrasos e cancelamentos de voos, apareceram com a ideia da greve, querendo acreditar na ideia de que o pior poderá ser melhor para os seus interesses corporativos!].

Afigura-se, assim, que a crise do BES e do Grupo Espírito Santo está a produzir manifestações múltiplas que comprovam a ideia de que uma crise pode não ser o que era, pelo menos para todos: a agonia do fim. Antes, poderá abrir caminho para uma nova era de banqueiros e bancários em Portugal. Uns e outros poderão, assim, concentrar-se em objetivos comuns: a recuperação do Banco, que poderá passar apenas pelas dores de parto de um novo rebento, enquanto a marca Espírito Santo e alguns membros da família cairão em desgraça.

Por último, mas não menos importante, o deputado Nuno Melo regressará abruptamente de Bruxelas e, com a energia de antanho, esgrimirá os seus argumentos contra o Regulador de agora que, mau grado já estarmos batidos na fraude e na corrupção de banqueiros, não soube perceber a enxurrada que, já há muito, saltitava à vista de todos.