À CONVERSA COM O SR. PARDAL…

por Cílio Correia | 2017.03.13 - 12:37

 

De casaco de pijama azul claro, todo enrodilhado, de enfiar pela cabeça, sem gola. As calças eram de verde alface. Chinelos brancos. Barba desleixada. Uma cabeleira branca, desgrenhada. Era mais conhecido pela alcunha, Pardal.

Sentado num aquecedor de parede, no hall dos elevadores do hospital, dizia:

– Isto de estar vivo, ser pobre e lixado da saúde é uma merda, das grandes, sabia?!… Para lá caminha. Vai saber como elas cantam… Tretas. Passei fome e levei pontapés que nem cão vadio. Trabalhei feito burro para um mestre-de-obras que me fornicou a vida: ficou com os descontos, ando por aí às côdeas. A vida está cheia de… filhos da puta, mesmo.

Incongruências. As palavras fervilhavam, traduziam a sua revolta:

– Atiraram-me para um lar com uns tipos que passam a noite a gemer. As empregadas demoram a vir. Um velho esteve toda a noite borrado… era tal o cheiro que até dava vómitos. Embrulharam a sacada, mudaram os lençóis e foram-lhe dar banho, mas ficou o cheiro.

Quando cheguei ao Lar, davam comida a sério:

– Ao pequeno-almoço um copo de leite com café, dois pacotes de açúcar e pão com manteiga. Com as poupanças passou a vir um açucareiro… e formigas. A carcaça encolheu. Chamam-lhe agora bijú: uma dentada e já era… Leite com cevada. Tomava um comprimido em jejum que me lixava a manhã … dava para mijar e eu que mijo às pinguinhas não saía da retrete com a gaita na mão…

Sem se fazer rogado, prosseguiu:

– Havia um velho com cataratas, que não via um boi à frente – que já se foi, Deus o guarde em bom descanso! – e um outro, surdo que nem um penedo… A televisão estava sempre ligada, numas alturas do caraças, lixava-me os miolos e os ouvidos….

E lá foi andando a despejar o saco:

– No hospital o que me lixa é o velho no quarto. Passa as noites aos “ais”… Quando lhe dão o jantar fica com uma moca até às duas da manhã, mas depois…. Chego a ficar a noite sem pregar olho, foscas… Dão-nos comprimidos às carradas… À minha conta são dez … p’ra mijar, próstata, tensão, estômago, uma carteirinha para cagar fino … e umas ampolas na veia. Um gajo vem aqui à oficina e vai como novo…

Ri-se para dentro. Deu-lhe gozo falar assim. Nisto, ouve-se, «Ó sr. Pardal, vá para o seu quarto que já lá tem o jantar.» Alardeou seu mau feito e a resmungar lá foi a arrastar os pés, com receio de perder os chinelos…. Não me reconheceu.