A classe docente dividida e conquistada

por Silvia Vermelho | 2013.12.05 - 15:58

Lembram-se do Sócrates? E da sua derrota eleitoral? À data, muito se falou do quão a classe docente fez cair Sócrates, tendo exercido o seu voto de protesto em massa. Independentemente da mobilização desta classe ter sido determinante na derrota ou apenas importante, a união da classe docente no Governo de Sócrates não era a única consequência dos ataques sectoriais de Sócrates. Na opinião pública, as classes profissionais afectadas ora pelas medidas legislativas ora pelas opiniões do “feroz animal político” estavam mobilizadas, em conjunto, para condenar o desrespeito de Sócrates por certas classes profissionais, do pessoal docente, às/aos farmacêuticas/os, passando pela Magistratura.

Bem se vê, Sócrates, com os seus trejeitos de herói e sensação de invencibilidade, coisas que acontecem a quem, com soberba, gosta de fazer all-in. Um all-in cria, revitaliza ou potencia qualquer consciência de classe, pois é um ataque ao todo e ao grupo, ao sentido identitário de pertença. Mas por que não têm o mesmo impacto as políticas de Crato?

Passos Coelho e o seu Ministro Crato têm muito mais astúcia nos seus ataques sectoriais. Enquanto Sócrates o fazia baseado na característica comum a todas as pessoas pertencentes àquela classe profissional – o ser professor/a – o governo de Passos Coelho fá-lo numa característica de um sub-grupo: por exemplo, o ser docente contratado/a. Na ilusão de que o ataque não se dirige à classe docente, o ataque não é percepcionado como tal, dividindo para conquistar. Se o ataque é ao pessoal docente contratado, “então elas e eles deveriam, pura e simplesmente, não comparecer em massa no exame”. Não, espera, nós não podemos não comparecer, “mas vocês, docentes do quadro, não devem avaliar colegas contratadas/os, até porque vocês não tiveram bases pedagógicas nos cursos e vocês é que deviam ser avaliadas/os!”. Sócrates fortaleceu um “nós” e por isso quebrou, Passos Coelho conseguiu que a classe inventasse um “vocês”, e por isso permanece.

É por isso que os ataques sectoriais do governo de Passos Coelho têm tido menor mobilização de classe: estes são faseados, apresentados com pseudo-justificações e a grupos específicos, em vez da classe por inteiro.

Assim se governa, em desgoverno, um povo demasiado em ferida para percepcionar as artimanhas de quem, ao destruir a coesão social, encontra uma auto-estrada livre e desimpedida para destruir o país. Sem all-ins, este governo vai conseguindo pôr milhares de pessoas out. Fora do quadro, do mercado de trabalho, do sistema, do país.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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