“A cidade mais ecológica do país” envenena os seus habitantes com glifosato e os trabalhadores do município com amianto?…

por Carlos Vieira | 2019.03.04 - 09:08

 

 

Com pompa e circunstância, no Rossio, em frente aos Paços do Concelho, Almeida Henriques (AH) anunciou um investimento de 7 milhões de euros para aumentar a recolha selectiva e a taxa de reciclagem no concelho, no âmbito do Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos que comparticipa em 85%  o investimento global de 18 milhões pelos 19 municipíos da Associação de Municípios da Região do Planalto Beirão.

 

Efectivamente, muitos habitantes do nosso concelho há muito que vêm protestando contra a falta de  contentores de lixo e ecopontos ou ilhas ecológicas, pelo que tal investimento só peca por tardio, mas ainda bem que foram aproveitados os fundos disponíveis para o efeito. Espero que os novos contentores para recolha selectiva sejam mais modernos do que os moloks, , como alguns que já existem no centro histórico, semi-enterrados, com pedal para abertura mais simples e higiénica.

AH afirmou que com este investimento quer transformar Viseu na “cidade mais ecológica do país”. Já estamos habituados à megalomania propagandística do nosso edil, mas ao passarmos à realidade, a “bota não dá com a perdigota”. Basta ver o que se passa com dois atentados continuados ao ambiente, à saúde pública e à saúde dos trabalhadores do município: o caso da aplicação de herbicidas com glifosato e a cobertura com amianto dos armazéns e oficinas da Câmara Municipal em Repeses.

AMIANTO, GLIFOSATO E OUTROS RISCOS CANCERÍGENOS IMPÕEM O PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO/PRECAUÇÃO!

 

O Bloco de Esquerda de Viseu,  na anterior legislatura, apresentou uma moção, que seria aprovada por unanimidade, na Assembleia Municipal de Viseu, em que se expressava ao senhor ministro da Educação de então a necessidade de remoção urgente, em várias escolas de Viseu, das placas de fibrocimento ou lusalite contendo amianto, “um produto altamente perigoso, susceptível de provocar doenças respiratórias, como a mesotelioma, asbestose, cancro do pulmão e ainda cancro gastrointestinal”.

AH conhece o perigo do amianto, tanto mais que mandou retirar a cobertura de lusalite da Escola da Ribeira, conforme também recomendado pelo BE, mas ainda não se preocupou em retirar a cobertura de amianto nas oficinas de obras e  mecânicas, bem como no refeitório, das instalações da Câmara municipal construídas há cerca de 40 anos, em Repeses, pondo assim em risco a saúde de 80 trabalhadores do município que trabalham, há 25 anos, num espaço onde estão todos os dias, onde chove através das placas de fibrocimento, e algumas destas placas até já voaram para a estrada, conforme denunciou na sua intervenção, na última sessão da Assembleia Municipal, Catarina Vieira, deputada municipal e dirigente nacional do BE. Também Filomena Pires, da CDU, apresentou uma recomendação no sentida da retirada do amianto daquelas instalações.

Disse, na sua resposta, o Presidente da Câmara que não vai fazer nada, pois o espaço é arrendado e a câmara vai comprar novas instalações. O Bloco de Esquerda de Viseu já lamentou, em comunicado, esta posição do Presidente da Câmara, pois a saúde dos trabalhadores não se compadece com intenções e promessas de mudança de instalações. Lamenta, também, a indiferença relativamente à saúde das e dos munícipes, bem como dos seus animais de estimação, por continuar a utilizar herbicidas como o glifosato.

Desde a Cimeira Mundial do Rio, de 1992, que ao “princípio da prevenção” (aplicado aos riscos comprovados) se veio somar o “princípio da precaução” (para os riscos hipotéticos ou potenciais), separando a avaliação dos riscos (do domínio da ciência), da gestão dos riscos (do domínio da política), de modo a que a saúde pública se sobreponha aos interesses económicos. Foi este princípio da precaução que levou o Tribunal Administrativa de Loulé a proibir a exploração petrolífera na costa algarvia.  No caso do amianto, tal como no do glifosato,  os riscos já estão mais que comprovados, exigindo-se, por isso, o cumprimento da lei em nome da saúde pública.

Infelizmente, Viseu tem um ecossistema de veneno graças ao uso do glifosato – um herbicida cancerígeno que a Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro, da Organização Mundial de Saúde, declarou, em 2015, como “carcinogéneo provável para o ser humano” e cuja utilização em espaços públicos (escolas, hospitais e unidades de saúde, jardins, parques infantis e lares de idosos) é proibida em Portugal, desde Março de 2017.

A Câmara Municipal de Viseu (CMV) em 2016, em resposta a um inquérito dos deputados do BE, declarou ter aplicado um total de 223 litros de herbicida com glifosato em 2015, nos sectores de Parques, Jardins e Arborização e Higiene e Salubridade. E admitiu não ter qualquer plano nem intenção de abandonar esse uso e implementar outros métodos, argumentando que cumpre a lei.

Mas  em Março de 2018,  a CMV anunciou a compra de veículos eléctricos com equipamento de monda térmica, a vapor de água, para limpeza das ervas dos passeios sem recurso a químicos.  Acontece que continua a usar os herbicídas com glifosato, e  nem cumpre a lei, pois usa-os perto de escolas, (como já houve cidadãos que denunciaram perto das escolas da Ribeira e a do Bairro Municipal),  nem liga nada ao princípio da precaução, não se inibindo de colocar em risco a saúde dos munícipes e dos seus animais de estimação (já alguns munícipes se queixaram de os seus cães ficarem doentes após a aplicação do herbicida, conforme já foi denunciado, neste jornal, pela Associação Olho Vivo).

Em 2016, Catarina Vieira,  apresentou na Assembleia de Freguesia de Viseu uma moção que foi aprovada, recomendando à Câmara Municipal de Viseu para que deixe de usar glifosato e adira ao manifesto “Autarquias sem glifosato”, uma iniciativa da Quercus. Também eu, enquanto eleito do BE na Assembleia Municipal de Viseu, apresentei uma Recomendação ao executivo municipal naquele sentido. Como se vê, o executivo do PSD não só não ligou à recomendação apresentada na Assembleia Municipal de Viseu, como não teve qualquer respeito pela deliberação da Assembleia de Freguesia de Viseu.

Também o Movimento O Bairro, já apelou ao Município e à Junta de Freguesia de Viseu para parar com a utilização de herbicidas nos espaços públicos e que tornasse Viseu na “primeira cidade biológica do país”. Uma cidade com espaços públicos livres de pesticidas, incluindo os herbicidas.

Eis um bom desígnio para Viseu: mais do que ser “a primeira cidade ecológica do país” em intenções, vir a ser de facto uma cidade ecológica, ou biológica, sem ruído prejudicial à saúde e onde se possa respirar ar puro, livre de partículas e contaminantes perigosos para a saúde das pessoas e dos animais.

FONTELO: O RESULTADO DO DESMAZELO.

A propósito, seria necessário aguardar tanto tempo para a reabilitação da Mata do Fontelo, a pretexto de estudos protocolados com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, quando temos técnicos qualificados no Instituto Politécnico de Viseu (que já estudaram a mata e ali promoveram visitas guiadas) e a CMV até já editou o livro “Património Histórico e Botânico do Fontelo”, da autoria das biólogas da Universidade de Aveiro, Rosa Pinho, Lísia Lopes e Ruth Pereira (com  prefácio de Jorge Paiva), que fizeram um trabalho de campo ao longo de oito anos?

Mais do que a classificação do Fontelo como Monumento Nacional (que segundo AH até obrigaria a retirar o parque infantil por ter elementos de plástico, – como se não houvesse parques infantis com equipamentos lúdicos em madeira e corda  –  ponto de atracção à mata de crianças e adultos.  E porque não o estádio?…), o que os viseenses desejam é usufruir da sua mata e jardim renascentista, em condições de segurança e com sinaléctica pedagógica a indicar as espécies deste singular espaço de diversidade botânica. Uma das “jóias da coroa” de Viseu, expressão utilizada pelo BE desde há quase uma década, para designar o conjunto do Centro Histórico, a Cava de Viriato e o Fontelo.  Pelo menos, AH já adoptou esta designação. Só falta dar lustro às jóias. Em vez do verde, temos verdete.

 

Carlos Vieira e Castro