A CELEUMA DA GIRAFA

por Ana Cristina Mega | 2014.02.14 - 04:58

Para uma população que consome carne de mamíferos com regularidade, parece-me exagerada a celeuma levantada pelo abate da girafa do Zoo de Copenhaga.

Para quem como eu esteve em África, ver um leão a comer uma girafa é uma situação normal e garanto que para o leão também, visto as girafas constituírem presas habituais. É a natureza das coisas.

Se os leões não fossem alimentados com a carne da girafa, outro grande mamífero teria que morrer…uma vaca talvez.

Na essência, não existe qualquer diferença entre a morte duma vaca em matadouro e da girafa com um tiro.

Uma morte é uma morte e vai contra o instinto de preservação da vida que existe em todos os animais, do mais simples ao mais evoluído. A morte apenas é aceitável porque faz parte do encadeamento natural, uns são presas, outros predadores.

A girafa, apesar do espectáculo lúgubre e público da sua morte, isso sim condenável porque não serviu qualquer intenção construtiva, sofreu infinitamente menos que a maioria dos nossos animais de consumo com as técnicas de produção intensiva, com o transporte e com o abate em matadouro. Apesar da intervenção humana que lhe pôs fim à vida, esta pequena girafa seguiu o seu percurso natural na cadeia alimentar.

Quando as pessoas se indignam pela morte dum animal saudável, se calhar não seria mau pensarem que só os animais saudáveis servem para alimentação.

O fenómeno de opinião pública aqui presente denomina-se “especismo”, termo criado por Peter Singer para explicar porque defendemos uma espécie animal em detrimento de outra, nas mesmas circunstâncias. No fundo, o especismo está para as espécies, como o racismo para as raças.

O ser humano tem tendência a proteger as espécies animais mais atractivas ou as que lhe provocam maior afeição. Esta girafa está entre as espécies que povoam o imaginário afectivo da maioria das pessoas europeias que não estão habituadas a vê-las como bem alimentar. Em África, a percepção seria bem diferente.

Ou Mário, a girafa, ou a vaca anónima…!

Médica veterinária, docente na Escola Superior Agrária, ISPV

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