A antiga Rua Direita

por Carlos Cunha | 2016.04.13 - 08:56

 

 

Gosto de passear a pé pela Rua Direita, um hábito que adquiri nos primeiros anos da minha adolescência, quando passei a andar sozinho, ou com amigos ou colegas da escola pelas ruas da cidade. Era um tempo em que a maioria de nós ia para a escola a pé. Alguns, mais afortunados, iam de mota, impressionando as miúdas, que se juntavam em grupo para os ver chegar antes de dar o toque de entrada para as aulas.

Lembro-me de subir a R. Direita ao final do dia, quando terminavam as aulas. Erámos tantos, e havia gente nas lojas e magotes na rua. Às terças-feiras, na hora de almoço, cruzávamo-nos, muitas vezes, com vendedores ambulantes de brinquedos, guarda-chuvas, de fruta, de porcelanas, que rapidamente viam os seus produtos desaparecer, antes que chegasse a polícia. Outros tempos!

Guardo na memória as primeiras sapatilhas de marca que comprei na Casa Desporto, a seguir à Páscoa com o dinheiro que juntei e mais algum que a minha avó me tinha dado. Um luxo: eram uma John Smith azuis em bota, que usei até o pé deixar de lá caber.

Já adolescente, passei a comprar roupa na Delphius, não sei se é assim que se escreve, no Somodas e mais crescido, já andava no Secundário, no Rebelo e no Tavares, mas nestes últimos era só de vez em quando, nos dias de festa, pois, o dinheiro não abundava e os artigos, apesar de terem muita qualidade, eram carotes e tinham de ser estimados. Estes, depois de muito usados, ainda ficavam para os irmãos ou para os primos. Tempos em que quem morava nas aldeias ou nas vilas vinha a Viseu comprar roupa. Eram tempos de ouro para o comércio local, onde a oferta era muita e variada.

Lembro-me do Café Bocage, onde ia comprar pão quente, chegando, por vezes, a casa com menos dois ou três que ia comendo pelo caminho. Por vezes, na companhia da minha mãe subia a Rua da Árvore em direção ao Talho dos Sete Irmãos Unidos para comprar carne e fiambre.

Quando era pequeno, outra das paragens obrigatórias era na saudosa Gelataria Gelgo, onde apreciei, pela primeira vez, o verdadeiro sabor de um gelado de fabrico artesanal.

Por alturas do Carnaval, lembro-me de comprar estalinhos e bombinhas de mau cheiro no Bazar do Porto, onde voltava por alturas do Natal para comprar as figuras de barro para o presépio.

Quando entrei para a Escola Primária, recordo-me de ir com a minha mãe à Papelaria Dias comprar os livros, as sebentas e a pasta. Eram tempos de inocência em que não era preciso muito para se ser feliz e em que havia gente abaixo e acima na Rua Direita.

 

 

 

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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