«A ânsia de poder não é reflexo de força…mas antes de fraqueza»

por Amélia Santos | 2015.08.13 - 13:31

 

 

Abraham Lincoln terá dito que “quase todos os homens são capazes de superar a adversidade, mas, se se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-se-lhe poder”. De facto, o «poder» reveste-se de inúmeras e complexas teias, sombras e nuances, que, por sua vez, se manifestam das mais variadas formas e assumem as mais bizarras e estranhas feições… Porque dominar e controlar são verbos de superioridade que se conjugam, frequentemente, no tempo e no modo da arrogância e da soberba. São verbos cujas irregularidades desembocam na pequenez de quem os conjuga com propriedade, na primeira pessoa do indicativo.

Desde a cabeleireira que nos submete a uma longa espera porque não somos clientes habituais e assim nos castiga, até ao funcionário público que nos complica com ausência de explicações e excesso de burocracia, passando pelos chefes que decidem esvaziar de funções o seu subordinado, colocando na prateleira o seu saber e experiência, apenas porque lhe dá prazer humilhar quem não se comporta exatamente como ele quer, até ao reverendíssimo político que manipula, pune e expulsa os que ousam pensar e ter opiniões diferentes das suas, são múltiplas as formas de exercer o poder e o poderzinho… E, daqui se voa para todos os campos, troca de favores, jeitinhos, um lugar aqui e outro emprego ali. Compram-se silêncios e fazem-se reféns. Aprisionam-se as liberdades e subjuga-se os que precisam e aqueles que, na sua ingenuidade, ignorância ou indolência, sentem não conseguir sobreviver de outra maneira…

Mas o poder corrompe todos os que o detêm? Julgo que não. Corrompe aqueles que já são deformados, os que são complexados e desprovidos de valores e caráter. Talvez a proporção seja essa, quanto menos valores, mais rápida é a escalada para a presunção e a tendência prazenteira em manipular a vida dos demais.

E assim algumas pessoas enchem os seus egos desta ilusão de poder. Sim, às vezes, este poder não passa de uma ilusão. Seja ele o dono disto tudo ou o mais intocável e impoluto dos políticos. Todos se embriagam desta vontade de chegar ao topo da cidadela social, onde podem conviver com a trupe de eleitos, os especialíssimos, a “camarilha de privilegiados” (como lhe chama brilhantemente Gabriel Magalhães no seu livro Como sobreviver a Portugal) e ficam cegos de desejo e vaidade. Esta ilusão é alimentada durante muito tempo. O cheiro a poder faz salivar como cães esgalgados. Retira racionalidade e entorpece a mente. Acredito que aqueles que frequentam estas escolas se apaixonem perdidamente pelo poder, pela ideia de exercer supremacia sobre os outros, de vir a tirar todo o tipo de dividendos, de decidir sobre a vida das pessoas… Aí está a fraqueza de quem carrega esta ânsia!

Assim, e como diz Gabriel Magalhães, “esta cidadela tem porteiros, e contínuos nos seus interiores, e mulheres-a-dias: enfim muitos géneros de criadagem que alimentam a sua grandeza” e, por isso, vamos encontrando os bajuladores dos “poderosos”, que sonham um dia vir a ser como eles. Os graxistas e os carreiristas. Eis o princípio da despersonalização, da perda de qualquer identidade. De tanto ambicionar chegar ao topo, as pessoas incham, crescem, cheios de si próprios e vazios de valores. Desta maneira se faz carreira e assim, enquanto os fortes fogem dele, os torpes agarram-se ao poder como lapas. E quando damos conta temos fantoches a mandar e a comandar os nossos destinos. Pessoas que nem sabem o que é pensamento, nem reflexão. Nem liberdade, nem espírito crítico. Estão condenados à sua miséria moral e condenam todos os que dependem das suas decisões ou caprichos.

Para terminar, reflita-se nas palavras de um sábio oriental que disse que “conhecer os outros é inteligência, conhecer-se a si próprio é verdadeira sabedoria. Controlar os outros é força, controlar-se a si próprio é verdadeiro poder.”

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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