27 de janeiro – Dia em Memória das Vítimas do Holocausto

por Ana Beja | 2016.01.29 - 09:43

 

 

Comemorou-se na quarta-feira o dia em memória das vitimas do Holocausto. Passaram-se 71 anos. E o horror ainda continua tão presente…

Desde que tomei conhecimento sobre o que tinha sido o holocausto que fiquei profundamente indignada. Como é que alguém, julgando-se superior aos outros, comete tal atrocidade contra outras pessoas, só porque não tem a mesma cor da pele, a mesma religião ou credo, a mesma orientação sexual ou a mesma ideologia política?

Quem se pode julgar mais do que os outros, ao ponto de achar que tem o direito de tirar a vida a alguém?

Morreram milhões de pessoas, fruto do maior genocídio cometido na Europa. Estima-se que tenham morrido dois terços dos judeus dos 9 milhões que habitavam na Europa, juntamente com ciganos, comunistas, homossexuais, pessoas com deficiência física e mental, poloneses e outros…

Eram enviados para os campos de concentração, onde a única coisa que os esperava era a morte. Só porque eram diferentes. Entre 1941 e 1944, as autoridades nazis deportaram milhões de judeus da Alemanha, dos territórios ocupados e dos países aliados ao Eixo, para os campos de concentração, onde depois eram mortos nas câmaras de gás.

No meio desta insanidade cruel, sobressaíram-se alguns Homens. Homens de caráter e com um altruísmo fora do comum. Vou referir apenas um deles: Aristides de Sousa Mendes.

Aristides de Sousa Mendes, nascido em Cabanas de Viriato, distrito de Viseu, foi o diplomata português que durante a II Guerra Mundial salvou mais de 30.000 vidas da perseguição nazi.

Em defesa dos valores éticos e humanitários, Aristides é o Homem do maior ato de coragem e ação de salvamento alguma vez feita por uma só pessoa!

Mesmo indo contra uma ordem superior, emanada pelo ditador português, António de Oliveira Salazar, de não conceder vistos portugueses aos judeus (principalmente)  e sabendo que podia e viria a ser punido pelo regime, concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados de várias nacionalidades que desejavam fugir de França em 1940.

O resultado deste ato grandioso foi o regresso forçado a Lisboa e a proibição de exercer a profissão de advogado. Ficou na miséria, sem trabalho e sem dinheiro, vendo-se obrigado a vender tudo o que tinha para poder sobreviver, juntamente com a sua família. Há relatos que dão conta de que até as cortinas da sua casa queimou para se poder aquecer…

Morreu em 1954, na miséria e caído no esquecimento. A sua atitude foi fortemente punida, fruto de um regime fechado e cego, onde liberdade e desobediência não eram claramente as palavras de ordem.

Diz o Talmud que quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. E quem salva 30 mil vidas, a troco da miséria, do desrespeito, do desprezo e do esquecimento?  O que leva um Homem, advogado, diplomata, detentor de um cargo importante e com estabilidade financeira, a trocar o conforto de uma vida pela libertação de tantas outras?

Eu sei…

O seu caráter. A sua nobreza de espírito. A sua crença pela liberdade e pela diferença. Os seus valores. A sua coragem. A sua alma.

Mas o esquecimento a que foi submetido começa a dissipar-se e têm sido inúmeras as iniciativas a nível nacional e internacional.

Foi homenageado pelo Congresso dos Estados Unidos e pelo Governo de Israel. Em Washington, na Embaixada de Portugal, o Presidente da República nessa altura, Mário Soares, entrega à família de Aristides de Sousa Mendes a Ordem da Liberdade (no grau de Oficial).

A 19 de Março de 1988 a Assembleia da República aprova o projeto de Lei, da autoria do deputado Jaime Gama, reabilitando oficialmente Aristides de Sousa Mendes, e a 16 de Abril, o Diário da República publica o diploma de reintegração póstuma na carreira diplomática, com promoção a Embaixador.

A 8 de julho de 1993, na Sinagoga de Lisboa é inaugurada uma lápide em sua memória e no ano seguinte, no Jardim da Resistência, em Bordéus é erguido um busto em sua homenagem, oferecido pela comunidade portuguesa.

Em Israel, Deserto do Neguev é plantada a “Floresta Aristides de Sousa Mendes”, com dez mil árvores.

A 23 de Março de 1995, em Lisboa, a Fundação Pro Dignitate, promove uma Homenagem Nacional a Aristides de Sousa Mendes. É ainda condecorado postumamente com a Grande Cruz da Ordem de Cristo.

Em Junho de 1999, em Viseu, é promovido um Congresso em sua honra e junto ao seu jazigo, em Cabanas de Viriato, D. António Monteiro, na altura Bispo de Viseu, em nome da igreja, pede publicamente desculpa pela falta de ajuda a Aristides de Sousa Mendes e família, quando estes a solicitaram.

Em 2000 é constituída a Fundação Aristides de Sousa Mendes e mais recentemente, 45 descendentes de refugiados judeus salvos por Aristides  vieram a Portugal para homenagear a memória do diplomata. Alguns recordaram a chegada a Vilar Formoso, graças ao visto concedido pelo próprio.

Há 2 anos foi feito um “cordão humano”, à volta da sua casa em ruínas, em Cabanas de Viriato, para se proceder à reconstrução da “Casa do Passal”. Segundo um dos seus netos, não só tendo como objetivo a criação de um Museu mas também a construção de um local onde se despertem consciências e se debatam questões ligadas aos direitos humanos. Neste momento a casa ergue-se…imponente e forte, reflexo de quem a habitou.

Devemos falar deste Homem. Não podemos deixar o seu nobre ato cair no esquecimento.Precisamos de mais Aristides de Sousa Mendes. O mundo precisa deles. Para mim foi o “Maior Português de Sempre”!

De Aristides só me resta terminar com uma frase proferida pelo próprio…

“Tenho de salvar estas pessoas, quantas eu puder. Se estou desobedecendo a ordens, prefiro estar com Deus e contra os homens, que com os homens contra Deus.”

Existem mais iniciativas, não referi todas e tenho a certeza que mais virão! Podemos acompanhá-las através do Facebook, em alguns grupos de amigos de Aristides Sousa Mendes ou na página da Fundação.