DILEMAS EUROPEUS

por José Carreira | 2016.02.24 - 00:07

 

 

“Num tempo de incerteza, em que as tecnologias de comunicação nos aproximaram como nunca, levantam-se fronteiras à livre circulação, o terrorismo e as guerras fazem alastrar o medo.” (FFMS)

 

Será possível a Europa falar a uma só voz ou não passará de um conjunto de países caraterizado por arreigadas identidades nacionais, culturais e políticas?

A unidade europeia, se algum dia existiu, defronta-se hoje com diversas ameaças. Destaco, pela relevância das mesmas, quatro problemas que ameaçam a Europa: a demografia, os partidos populistas, o BREXIT e a crise dos refugiados.

A baixa taxa de natalidade provocará um problema demográfico grave, resultando da inversão da pirâmide demográfica um acentuado envelhecimento e diminuição da população do velho continente. A curva descendente, como bem observou Angela Merkel, só poderá ser compensada com os movimentos migratórios. Todavia, os países europeus não estão receptivos em aceitar uma imigração em massa. A Alemanha, com todos os problemas que não podemos escamotear, tem sido o país que mais tem trabalhado no acolhimento dos refugiados. A chanceler, correndo riscos políticos (têm subido de tom as vozes que a contestam no seu partido e nos seus adversários políticos), não enterrou a cabeça na areia, olhou o problema de frente, tomou decisões e organizou o seu país para receber milhares de refugiados em escolas, centros paroquiais, pavilhões desportivos…

Os partidos populistas da esquerda e da direita têm na União Europeia um alvo de eleição que atacam sem pudor, culpabilizando as suas instituições por todos os pecados que os europeus carregam.

A saída do Reino Unido do “Clube Europeu” pode representar a queda da primeira peça que dá início ao efeito dominó na zona euro fragilizada pela crise financeira que se faz sentir desde 2008.

Se somarmos à tensão latente entre a Rússia e a Turquia, a anexação ilegal feita pelos russos da Crimeia e a ocupação do este da Ucrânia, a bomba relógio existe e está pronta a explodir. O rastilho pode ter a origem nas tomadas de posição de ambos os países na guerra da Síria, um conflito que parece não ter fim, engrossando os movimentos pendulares de refugiados e enriquecendo as máfias que lhes prometem a chegada ao paraíso, leia-se Alemanha e Reino Unido.

O conflito sírio provocou o grande problema que, neste momento, a Europa enfrenta, a crise dos refugiados. A falta de solidariedade entres os diversos países, que têm adoptado medidas avulsas, tem sido uma constante, com vários países a fecharem as suas fronteiras e a transferirem o problema para os países vizinhos.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos brindou-nos com mais um belo exemplar (N°6) da Revista XXI, TER OPINIÃO, um número dedicado às fronteiras, à globalização e aos refugiados.

(“É mais o que nos une ou o que nos separa?)

Na Berlinale o realizador Gianfranco Rosi brilhou com o seu documentário “Fuocoammare”. O realizador esteve um ano e meio em Lampedusa e levou à tela a dura realidade de quem arrisca atravessar o Mediterrâneo.

Também na fotografia, a crise dos refugiados assumiu o primeiro plano. A melhor imagem de 2015, segundo o prémio World Press Photo, o mais prestigiado galardão de fotojornalismo mundial, retrata a crise dos refugiados. Intitulada Esperança numa nova vida, o click tem a assinatura do australiano Warren Richardson e regista o momento em que um homem entrega um bebé a outra pessoa, através de um buraco no arame farpado em Roszke, na fronteira entre a Hungria e a Sérvia.

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O fotojornalista recorda-nos: “A terra não é uma herança dos nossos pais, mas sim um empréstimo que entregaremos aos nosso filhos”.