Cavaquices

por Alexandre Borges | 2015.11.23 - 14:26

 

 

Depois de uma merecida, muito oportuna e longa viagem à ilha da Madeira, hoje a Presidência da República divulgou, e bem, um documento que entregou ao Secretário-Geral do Partido Socialista numa audiência que teve lugar em Belém. Nesse documento Cavaco exige conhecer um conjunto de coisas sobre um futuro governo de esquerda e quer que todos os portugueses saibam das suas preocupações. Aquando da recente indigitação de Passos Coelho e do nado morto governo tais preocupações não estiveram em cima da mesa. Nada que surpreenda em Cavaco.

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O homem da rodagem do Citröen provou, mais uma vez, que nunca pretendeu ser presidente de todos os portugueses mas apenas dos que votam no partido do qual é militante. Manifesta preocupações que julga que lhe são exclusivas a si e à coligação PàF, o que não é verdade. Cavaco diz querer “uma solução governativa estável, duradoura e credível”, mas escolheu indigitar Passos Coelho sabendo de antemão que este governo iria durar uns estáveis e credíveis 11 dias.

 

A grande novidade hoje é que Cavaco afirma que tem dúvidas. O homem que sempre nos garantiu “nunca se enganar” teve um daqueles “raros” momentos onde tudo não lhe é claro. O “providencial presidente”, que sacrificou a presença nas celebrações do Dia de Implementação da República, para estudar todos os cenários, não vislumbra o que fazer e então quer que o esclareçam sobre:

a) Aprovação de moções de confiança;
b) Aprovação dos Orçamentos do Estado, em particular o Orçamento para 2016;
c) Cumprimento das regras de disciplina orçamental aplicadas a todos os países da Zona Euro e subscritas pelo Estado Português, nomeadamente as que resultam do Pacto de Estabilidade e Crescimento, do Tratado Orçamental, do Mecanismo Europeu de Estabilidade e da participação de Portugal na União Económica e Monetária e na União Bancária;
d) Respeito pelos compromissos internacionais de Portugal no âmbito das organizações de defesa colectiva;
e) Papel do Conselho Permanente de Concertação Social, dada a relevância do seu contributo para a coesão social e o desenvolvimento do País;
f) Estabilidade do sistema financeiro, dado o seu papel fulcral no financiamento da economia portuguesa.
Tudo questões importantes, é certo, mas que estarão seguramente mais na cabeça de Costa e do Partido Socialista, do que na de Cavaco, que continua olimpicamente a ignorar o que a maioria dos portugueses escolheu e não suporta que eles tenham escolhido, com ele a Presidente, coisa diferente da sua preferência. Tudo questões que não exigiu a Passos há menos de um mês atrás. Tudo questões que, se houver má fé e uma forma manigante de agir, tão características a Cavaco, podem ser respondidas por meia dúzia de linhas cheias de nada.

Cavaco não lhe restando por culpa própria outra alternativa, engonha. Com isto aproxima-se dum final de mandato de forma miserável, a mesma com que come bolo-rei em público. Faz Portugal perder tempo e exige respeito pelos compromissos internacionais, sendo o único responsável pelo não cumprimento dos mesmos. Se hoje não há um orçamento aprovado – condição que considera fundamental para dar posse a Costa – o único responsável é ele.

Exigir clarificação sobre moções de confiança é a expressão máxima do ridículo e corresponde a querer que partidos políticos vistam um cinto de castidade ideológica para todo o sempre o que, de certo modo, os impediria de se fiscalizarem mutuamente em prol do que prometem ao eleitorado. É o primado da partidocracia sobre a democracia, tão cara ao Cavaquismo e ao seu totem.

Cavaco, sempre Cavaco e as contradições e incoerências. Hoje exige a Costa clarificação sobre a estabilidade do sistema financeiro, quando ontem promoveu e apoiou (e vamos fazer de conta que não negociou acções da SLN) gestores que deram uma machadada decisiva no que agora afirma ser fundamental que outros demonstrem.

Felizmente tudo acaba e Cavaco, por mais que esperneie, está acabado. As consequências da sua acção política irão, para nosso prejuízo, perdurar por mais uns anos.a)

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC. Virulentamente bombeiro. Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

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