Caminhando… e ouvindo a música calada, na mais secreta solidão sonora…

por Amélia Santos | 2015.11.06 - 19:43

 

Gosto de ler alguma literatura de viagens. Conheço alguns autores deste género literário e Bill Bryson é um deles. Foi-me dado a conhecer pela minha amiga Isabel Cruz, que, na sua singularidade, me enviou um dia pelo correio um livro dele de que me falara. Numa altura em que já quase não se usavam os correios para troca de correspondência, a Isabel presenteou-me de surpresa com um livro de um autor que ela conhecia bem e muito apreciava. Não é de estranhar, portanto, que tenha sido a Isabel a falar-me num filme que está agora no cinema e que retrata a última aventura de viagens de Bill Bryson – “Por aqui e por ali”, baseado no livro com o título homónimo – “A walk in the woods”…

O reencontro com autores de que gostamos é sempre agradável, e este, apesar de ser no cinema, não o foi menos… Levou-me inevitavelmente a pensar de novo na metáfora da viagem, que é física, mas também é interior e, talvez seja esta última a carregar todo o sentido contido nas viagens. Viajar é sair da zona de conforto e conhecer novos espaços físicos, conviver com a história desses locais e com as histórias que vamos absorvendo. É explorar o que há de singular em cada lugar e conseguir transformar em fotografias mentais aquilo que mais nos prende a atenção. E a magia acontece quando conseguimos visualizar as nossas exposições interiores e retirar delas, mesmo à posteriori, aquilo que efetivamente nos toca e que de alguma forma mexeu com os nossos sentidos e emoções. Eu descobri numa dessas visitas à minha exposição de fotografias de viagens que tenho um estranho fascínio por pontes. Há cidades magníficas que me ficaram na memória emotiva por esta particularidade, pelas suas maravilhosas pontes. Jamais esquecerei por exemplo a mágica ponte Carlos, em Praga. O que isso significa não sei… Talvez não seja só a ponte, mas o rio, a água, o movimento…o palpitar…a natureza e o homem… A sua relação ao longo dos tempos…

Mas esta última viagem de Bill Bryson é uma aventura especial, porque retrata uma caminhada no famoso trilho dos apalaches nos EUA, o mais longo trilho do mundo, com cerca de 3.500 km. Esta necessidade de Bryson empreender mais uma aventura numa fase da sua vida mais «madura», prender-se-á, segundo ele, com a urgência de recriar laços com o seu país, depois de uma longa estadia em Inglaterra. Não deixa de ser curiosa a perspetiva de criar laços com o seu país, caminhando longos km, apenas com uma mochila às costas, entre subidas íngremes, intempéries, nevões… com paisagens deslumbrantes, no seio da natureza e com tudo o que ela representa enquanto perigos e salvação…

Numa época em que estão, felizmente, na moda as caminhadas, impõe-se-me refletir um pouco sobre o seu significado mais puro, sobretudo quando elas são feitas em comunhão com a natureza, escutando os silêncios e os ruídos mais ancestrais… Caminhar assim, pode levar-nos efetivamente a um regresso à simplicidade e a compreender aquilo que de facto é essencial na vida. Basta pensar que ao escolher o que se deve colocar numa pequena mochila e que nos será o bastante para viver durante uns meses (os necessários para percorrer 1000, 2000 ou 3000 km…), estamos a despojar-nos daquilo que pode ser dispensável. Se pensarmos que no nosso dia-a-dia consumista, fazemos exatamente o contrário, enchemo-nos de coisas de que não necessitamos, completamente redundantes, percebemos que só isso já nos mostra aquilo que poderá ser o início de uma longa transformação interior. Quem somos afinal? O que valorizamos e o que queremos doravante valorizar? O que é que, de facto, é importante e o que é supérfluo?…

Caminhar e caminhar no seio da natureza, pode vir a revelar-se uma descoberta. Pode levar-nos ao autoconhecimento. Sentir os nossos passos, a nossa respiração, os nossos músculos e os nossos órgãos vitais, pode não trazer novidade nenhuma, mas pode constituir a pequena/grande tomada de consciência daquilo que é cada um. Pode vir a ser o mote para valorizar e compreender a importância das pequenas coisas, a terra, os cheiros, o silêncio. Pode ser o encontro com a harmonia, com a essência…

E, como se se tratasse de uma demanda da nossa espiritualidade, tentamos nestas caminhadas interiores, marcar um encontro secreto e íntimo entre “la música callada y la soledad sonora” (a música calada e a solidão sonora), tal como nos sugere San Juan de La Cruz, no seu belíssimo Cântico.

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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