1, 2, 3 uma factura de cada vez

por António Soares | 2014.02.09 - 11:19

Quando era mais novo e não podia ficar com a minha avó, era normal acompanhar o meu pai até ao seu posto de trabalho. Estamos a falar da década de 80, quando a internet era uma miragem, smartphones eram dispositivos do Star Wars, e a sigla PSP apenas remetia para Polícia de Segurança Pública, e não para PlayStation Portable.

 Nesses dias, o meu pai pedia-me para numerar uns papelinhos e para os amarrotar em forma semelhante a pequenas esferas. Posteriormente, eram misturados dentro de um pequeno saco, e extraíam-se uns quantos que, ordenadamente, eram apontados num papel. Era este o seu método de preenchimento do Totoloto. Mais que isso, era essa a forma que o meu Pai encontrava para me manter ocupado enquanto ele tratava de coisas sérias.

Por este “trabalho”, ainda era capaz de receber uma guloseima. Se por alguma eventualidade ganhasse o Totoloto, não poderia reclamar o prémio por não ter idade legal.

O “Sorteio das Facturas” do Governo é por isso, para mim, um deja vú. Quem joga sou eu, e posso até ganhar uma guloseima, mas o jackpot reverte sempre a favor do Governo! A diferença é que o meu Pai utilizaria o prémio para me dar mais qualidade de vida, o Governo não terá certamente essa preocupação. Afirmo-o com segurança, porque também nunca ouvi do meu Pai: “Não sejas piegas, faz-te homem e emigra, sai da tua zona de conforto, que isso não interessa a ninguém!”.

Outra coisa que o meu Pai nunca fez foi incentivar-me a ser bufo, precisamente aquilo que o Governo quer fazer de nós com este concurso. É só comparar o volume de negócios declarados pelos comerciantes, com o valor de facturas que os consumidores entregam et voilá, jackpot!

Mas vamos ao concurso propriamente dito.

Em 2014, inserir o número de contribuinte nas facturas pode equivaler a ganhar um carro por semana.

Este é um concurso que faz falta! Euromilhões, Totoloto, Totobola, et al, todos eles dão prémios em dinheiro, a dar carros só tínhamos o Preço Certo.

Atenção aos que já se preparam para ir entupir as caixas dos hipermercados, que o concurso não se realizará por sorteio de facturas dentro de uma tômbola, mas sim por cupões que são atribuídos mediante o valor total das facturas. Sorte para as senhoras das caixas, porque uma factura de 163 artigos, equivale ao mesmo número de cupões desses 163 artigos divididos noutro tanto número de facturas.

Ainda não se sabe muito mais sobre o concurso, mas eu sugiro que seja apresentado pela deputada Glória Araújo, agora que estão cumpridos os 6 meses sem conduzir como coima por ter sido apanhada com 2,4 gramas de álcool no sangue. Ou, dito de outra forma, algum sangue no álcool. Para assistentes, proponho as advogadas do escritório Maria de Rosário Mattos e Associados.

O que também ainda não se sabe é se, à imagem do que acontece com os prémios dos outros concursos, os contribuintes terão que pagar ao Estado 23% do valor do prémio. Se assim for, a verificar-se o rumor de que os carros são topo de gama, arrisco dizer que o Estado acumulará uma frota de prémios por reclamar. A outra hipótese é sortearem Reanult Twingo’s com mais de 15 anos de idade.

Também não se sabe se este concurso terá um daqueles júris da Santa Casa da Misericórdia, cujos jurados ninguém sabe bem quem são, mas que parecem surdos mudos a quem a Santa Casa proporciona emprego.

Desengane-se quem pensa que esta é uma ideia original do nosso Governo. O Público esclarece que esta é uma prática que tem vindo a ser experimentada em vários países da América Latina, e que na China é já comum, com raspadinhas e lotarias de facturas. Em Taiwan, por exemplo, há 63 anos que “roda a tômbola”.

Já nos tínhamos apercebido, pelo nível de vida que nos tem vindo a ser proporcionado, que são estes os países aos quais nos devemos equiparar e nos quais o Governo inspira as suas políticas socioeconómicas.

No Orçamento de Estado para 2014 está inscrita uma verba anual de 10 milhões de euros, estimando que serão realizados cerca de 60 sorteios. Apesar de tudo, é preferível gastar 10 milhões de euros a sortear carros ou enterrar um Panteão inteiro no Panteão Nacional, do que no referendo que também se fala.

Não fosse o facto deste concurso visar fazer dos  Portugueses bufos, e já tinham ganho pelo menos um espectador e um concorrente. Aliás, tornar actos de cidadania premiáveis parece-me imensamente bem. Como já tenho carro, não estou muito motivado para o “Sorteio das Facturas”, mas aguardo ansiosamente pelo concurso que premeie com apartamentos os cidadãos que não atirem lixo para o chão.