Tertúlia JAC – João de Araújo Correia

por Rua Direita | 2018.12.16 - 07:43

CONTO DE NATAL

O velho, que tinha feito casa, à força de trabalho e de economia, viu abalar, sorrateiramente, para a guerra civil, os três filhos mais novos: o José, o António e o Francisco. […]

Pobres moços! Doidos de todo, lá foram para a guerra, tomando cada um o seu caminho. Vão-se matar uns aos outros.

Naquele tempo, já hoje tão remoto, só havia duas bandeiras. Havia o lábaro azul e branco, jurado pelo José, e o lábaro vermelho e verde, jurado pelo António. O Francisco, inimigo de tudo, pálido como um defunto, odiava as bandeiras. Fazia escárnio de qualquer farrapo arvorado num pau. No entanto, sem se saber porquê, morreu à sombra do pavilhão verde-rubro. Tombou no primeiro recontro. […]

Durante a guerra, o velho e a velha andavam fora de si. Que será feito daqueles três maluquinhos? Era o que perguntavam às paredes da casa.

Veio o Natal. Era o primeiro depois da guerra, que tinha começado e acabado no princípio do ano. Já a erva crescia, sobre a cova dos mortos, quando chegou o primeiro Natal.

O José e o António, que se tinham batido como duas feras, zangadas uma com a outra, tomaram cada um o seu caminho para subirem ao cume do oiteiro, onde encontrariam, habitada ou desabitada, a casa de seus pais. Subiram debaixo de um céu crivadinho de estrelas. Nem uma nuvem o escurecia.

Era Natal. Mas, os sinos ainda não tinham começado a tocar para dizer ao mundo: nasceu Cristo.

Os dois irmãos, cada um em seu caminho, cismavam na limpidez da noite, no brilho de cada estrela e no silêncio da terra. Silêncio e quietude… Não bulia uma folha, não miava um gato nem ladrava um cão. Debaixo do pálio, que era o céu estrelado, chegaram os dois, aquando e quando, a moradia paterna. Pararam no quinteiro. Viram luz numa janela e como que ouviram gemer uma guitarra. Caminharam um para o outro e disseram: olá!

Pouco mais adiantaram. Mas, erguendo a cabeça, viram-se um ao outro como nunca se tinham visto.

– Põe os olhos no céu, meu burro! Entendes que valeu a pena? O que se passa cá em baixo, comparado com aquilo, é cisco.

Disse estas palavras o António ou o José, disse-as talvez a imensidade da noite. Sabe-se ao certo que os dois irmãos, abraçados um ao outro, choraram como crianças.

O pai, descendo as escaleiras da casa, deu as boas-vindas aos filhos sem despegar da guitarra. Tocou desaustinado. Mas, às tantas, perguntou pelo filho Francisco.

– Morreu, pai!

– Morreu? Não pode ser. Vinde cear.

 

João de Araújo Correia

In OUTRO MUNDO

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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