Sernancelhe, “na alba do Ano Novo” com os cantadores de Janeiras

por Rua Direita | 2019.01.07 - 14:27

 

 

Ontem, dia 7 de Janeiro, em Sernancelhe decorreu, com ânima e alegria o Cantar das Janeiras, tradição popular que a Terra não deixa perder.

No Exposalão, com mais de meio milhar de espectadores, apresentaram-se 12 “colectividades” locais e das vizinhas Moimenta da Beira e Penedono, com os seus grupos instrumentais, corais, as suas cantadeiras e cantadores e, essencialmente a sua competência, jovialidade e alegria.

Em 1945, Aquilino Ribeiro, cuja terra o Carregal também se fez representar, publicava “O Livro do Menino Deus”, dedicado “À memória de minha Mãe, humilde, boa e religiosa sem ser pelo interesse de ganhar o Céu”. O seu XIIº capítulo é dedicado às Janeiras.

“Estava um frio de rachar, dos beirais pendiam candeias de caramelo, e os rapazes, todos de pata ao léu, batiam o dente e sopravam às mãos encalidas. O mais novo, o Toninho, era o mais arreganhado, com o cabelo, cortado às escaleiras, em pé como de cão que viu lobo, sem outro agasalho além da camisa de tomentos e das calças de cotim, rachadas atrás e presas por uma alça, que para cúmulo de desgraça se rompera pela ponta e era obrigado a segurar nos dentes.”

Desta feita o Toninho também por lá andaria, transmutado no Ti Tóino do Carregal, mas os pés com boas botas e o kispo de penas, o calor aprazível do espaço e as belíssimas cantorias, fizeram esquecer as agruras de outrora, mas não as tradições do passado.

Armando Mateus, vereador da Cultura deu as boas-vindas. Seguiu-se-lhe o presidente do município, Carlos Silva Santiago.

 

Depois… os ranchos folclóricos das Arnas, de Sernancelhe, de Moimenta da Beira e o Grupo de Cantares Sincelo de Penedono, duas bandas musicais, a de Ferreirim e a Filarmónica de Sernancelhe, uma Academia de Música, o grupo coral da Paróquia de Sernancelhe e o do Carregal, um grupo de cantares e onze centros lúdicos do concelho, das freguesias de Chosendo, Cunha, Granjal, Lamosa, Macieira, Penso, Sarzeda, Seixo, Sernancelhe, Tabosa da Cunha e Vila da Ponte, deram à tarde asas e escoaram em dois tempos as três horas de primorosas actuações.

Aquilino perdurava assim cantares como este, em seu citado livro:

Senhora que lá está dentro,

Linda rosa encarnada,

Mande a moça à salgadeira

Dar-nos ‘smola avantajada,

Uma chouriça p’ra mim,

Outra p’ro mê camarada.

(…)

Se o presunto está têso

E a faca não quer cortar,

Faça-lhe ferrum-fum-fum

Nos beiços do alguidar.

Estava lançado o desafio que, quando não encontrava a devida réplica, ouvia cantares deste jeito:

Esta casa está fechada

Já não mora cá ninguém,

Morreram podres de ricos,

Não nos deixaram vintém.

Cantámos e recantámos,

Voltemos a descantar,

Estes barbas de chibarro

Não têm nada que dar!

(…)

A autarquia sernancelhense, pela sua capacidade e competência de não deixar esquecer a tradição, mantém, com esta e outras análogas iniciativas, um estreito vínculo inclusivo com os seus munícipes, a quem, com a prata da casa e o esforço de todos, proporciona nestas datas primordiais, o calor humano que faz vibrar jovens e idosos, numa grande comunidade de afectos.

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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