Em Casa com Aquilino

por Rua Direita | 2015.09.21 - 13:30

 

 

Dia 18, por iniciativa da Câmara de Sernancelhe, a Fundação Aquilino Ribeiro (FAR), em Soutosa, animou-se para comemorar os 130 anos de nascimento do Mestre do Carregal.

E fê-lo como sempre, com uma organização minuciosa e rigorosa, onde nenhuma nota dissonante se ouviu.

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Convidado o neto do Escritor, Aquilino Ribeiro Machado, geógrafo, Alberto Correia, um fundador do Cear e Paulo Neto, director da revista literária Aquilino, o fim de tarde ameno foi de tertúlia para “FALAR AQUILINO“, dar voz a textos da sua “Geografia Sentimental“, falar dos seus tão estimados castanheiros, projectar setenta e sete imagens da sua diacronia de 77 anos e ouvir seu neto recordar memórias de seus familiares afectos.

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Sernancelhe, autarquia onde Aquilino nasceu tem sido desde há mais de duas décadas uma forte impulsionadora de eventos difusores da Vida e da Obra do escritor, em Portugal e no estrangeiro.

O RD ouviu Carlos Silva Santiago:

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“Este evento é um dos muitos que temos vindo a desenvolver em prol da divulgação do nosso ex-libris literário, orgulho de todos os sernancelhenses, que com ele tanto se identificam.

O nosso território tem a sua marca como tem a marca de um produto endógeno tão por ele sentido, o castanheiro. Têm muita simbologia em comum, as fortes raízes que os prendem à terra numa inexcedível componente telúrica, a imponência dos seu porte, a rijeza da sua constituição mas também a fecundidade produtiva e a perdurabilidade do seu durar.

Cada um a seu modo e no seu todo simbolizam a nossa Terra. Sernancelhe orgulha-se dessa riqueza e vai muito além das palavras ao consolidar esse sentimento com a concretização de actividades consistentes.

Neste dia, aqui na FAR, no biénio sob a nossa a administração, lembrámos o seu nascimento ocorrido no Carregal, às 13H00 do dia 13 de Setembro de 1885. E o recordar porfiado desta e doutras efemérides é a evidência de quanto Aquilino permanece vivo e actual para todos nós. Nesse sentido, Sernancelhe tem já em estudo várias iniciativas das quais dará conhecimento em tempo oportuno.

Hoje e aqui, ter o neto de Aquilino entre nós foi a melhor forma de dar continuidade a uma relação vigorosa e sólida já mantida com seu pai, o engenheiro Aquilino, além de um reviver emotivo de muita afectiva memória.”

A tertúlia teve a presença de sete dezenas de aquilinianos, do presidente da câmara e vereadores de Moimenta da Beira, do presidente da assembleia municipal de Sernancelhe e vereação e do deputado do PS, Acácio Pinto.

A terceira autarquia das Terras do Demo, Vila Nova de Paiva, parte integrante da FAR, como vem sendo hábito não se fez representar por ninguém, mostrando neste seu alheamento e desinteresse o vazio em que cairá a Fundação no próximo biénio de sua administração. Este destrato não augura um bom futuro, a não ser que as duas autarquias, a de Sernancelhe e de Moimenta da Beira tenham a capacidade de valer por três.

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Seguiu-se um agradável e convivial Demo de Honra, no pátio da Casa de Soutosa, em frente à janela do escritório onde tanta obra foi escrita, sob as odorosas tílias pela cuidosa mão de Aquilino plantadas, os “palácios” de seus pardais.

Parabéns à organização do evento.

O RD deixa-vos um texto extraído da obra “Geografia Sentimental” alusivo a este espaço…

 

O meu pátio não é grande como o eido das herdades lá para o Sul, onde se improvisam corridas de touros, embora nele possa manobrar à vontade a chula com duas boas dúzias de pares dançantes. Mas é acolhedor, aconchegado e aberto a quem vem. Di-lo à boqueira aquele S. Pedro em mármore de Pero Pinheiro, que ainda não despregou as chaves da ilharga para fechar o quer que seja. As tílias que o circundam e recobrem de sombras e perfume, plantei-as eu, e ano por ano as fui acalentando e a vinha virgem que revestem a casa tutelando. Por isso, quando arribo de Lisboa, recebem-me luxuriantes, sonoras das abelhas que lhes chupam o pólen, todas elas voltejantes e doiradas como as estrelas que recamam nos painéis os halos das Virgens. Também não dou licença que lhes apanhem a flor, nem para calmante de nervosos, ainda que o mundo todo se desconjunte com ataques de epilepsia.”

(…)

“Será pedantaria formular que me conhecem e me aguardam todos os anos, por altura de fins de Julho? Quando chego, o meu primeiro olhar é para a sua ramagem, o especioso. Um olhar que lhes fala: — Bons dias, bons dias! Bonitas! Depois outro para os fustes: — O que vocês cresceram! Daqui a pouco já as não posso abraçar a expandidos braços. Verdade, mais uns anos e bem de justo as não abraçarei. Receberão os abraços dos meus filhos, ao mesmo tempo que passem por cima delas em bólide ignescente os vindouros dos mantaréus que tomei sob a guarda.”    

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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