Daniel Azevedo, produtor de castanha, em entrevista ao Rua Direita…

por Rua Direita | 2014.11.04 - 16:49

No decurso da Festa da Castanha, em Sernancelhe, o Rua Direita ouviu um produtor local. Daniel Azevedo, um produtor da qualidade martaínha…

 

RD: Qual a diferença entre a martaínha e, por exemplo a “judia”?

DA: A martaínha é mais doce que a judia. O tamanho é mais ou menos igual e o descasque também é bom. Mas aqui, salvo uma ou duas árvores, a martaínha é a que produzimos. A martaínha dá-se aqui melhor.

RD: Este ano, como foi a produção?

DA: Em relação ao ano anterior obtivemos cerca de uma terça parte.

RD: A que se deveu?

DA: Houve chuva na floração. Houve chuva todo o ano e frio a mais para o castanheiro.

RD: No seu concreto caso isso traduziu-se em…?

DA: Esta ano rondei as sete toneladas. No ano passado rondei as vinte… Foi um enorme prejuízo para quem tanto investe na castanha.

RD: Para onde vende a sua produção?

DA: A minha castanha é vendida para uma cooperativa da qual sou sócio, em Penela da Beira. Cerca de 40 a 50% vai para lá. A outra parte vai para o MARL (Mercado Abastecedor da Região de Lisboa).

RD: E as da Cooperativa de Penela da Beira são escoadas para onde?

DA: Para vários tipos de mercado e nomeadamente para o estrangeiro.

RD: E em Sernancelhe, há quem exporte?

DA: Sim. Temos os Soutos da Vila e a FruSantos que são empresas privadas a exportar para o Brasil, EUA, etc.

RD: E este ano, em termos de doenças?

DA: Tudo se complicou devido à humidade. A doença da tinta foi uma das que mais atacou, porque esta doença está no solo. O solo tem humidade a mais e afecta as vias radiculares do castanheiro. A tinta é a que faz morrer mais castanheiros. Também temos o “cancro”…

RD: Que medidas estão a ser tomadas com autarquia?

DA: Temos um protocolo com a Universidade de Trás os Montes e Alto Douro que nos está a dar apoio técnico com o programa SER CAST. Mas só isso não chega. O nosso Governo devia disponibilizar técnicos para trabalharem na zona prestando apoio e ajuda ao agricultor.

RD: E esta sensibilização foi transmitida ao Ministério da Agricultura?

DA: Penso que sim. Mas há outras coisas que os estão a preocupar na cidade e estamos a ser esquecidos.

RD: Ainda assim, vai continuar a investir na castanha?

DA: Sim. É o meu meio de subsistência e aquilo que eu gosto de fazer.

RD: Quantos hectares cultiva?

DA: Aproximadamente 30 ha de castanheiros.

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RD: Havia um provérbio antigo, lembrado por Aquilino, que dizia acerca do castanheiro: “300 anos para nascer; 300 para crescer; 300 anos para morrer“. Ou seja, quase um milénio. Ainda faz sentido?

DA: Hoje é diferente. O castanheiro é árvore de longa duração. O meu avô costumava dizer que plantava o castanheiro para os netos colherem o fruto. Hoje, aos 6/7 anos já dá alguma coisa, mas rendimento apenas se obtém por volta dos 10 anos.

RD: Qual a média de idades dos seus castanheiros?

DA: Têm em média 25/30 anos.

RD: Um castanheiro “bom”, que produção dá num ano ideal?

DA: Uma árvore dessa envergadura, num ano bom, pode dar entre os 50 e os 100 quilos.

RD: E têm mão-de-obra suficiente?

DA: Tenho muita mecanização e a mão-de-obra ainda vai existindo, mas muito relutante em querer fazer descontos para a Segurança Social e é necessário impormo-nos para acatarem as leis…

RD: Este evento, a Festa da Castanha, é importante para o fruto e para os seus produtores?

DA: Sim, muito importante. Há muita gente que nos vem conhecer a variedade e a qualidade. E isso é um estímulo para melhorarmos e ter cada vez mais e melhor produto.

RD: Para acabarmos. Hoje, aqui, a castanha vale quanto?

DA: Está a 3,5 euros o quilo, em média.

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