Comemorações dos 18 anos do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial pela UNESCO

por Rua Direita | 2019.12.15 - 12:46

Decorreram n passado dia 14, no Museu do Vinho em S. João da Pesqueira, as comemorações dos 18 do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial pela Unesco.

Presentes os autarcas dos 19 municípios que integram a Comunidade Intermunicipal do Douro, o seu presidente, Carlos Silva Santiago, a secretária de Estado do Turismo, o presidente da CCDR-N e demais individualidades.

Do discurso do presidente da CIM Douro, Carlos Silva Santiago, transcrevemos:

Permitam-me que e à laia de introito abra com um extracto de “Roteiro Sentimental do Douro”, de Manuel Mendes, um lisboeta também ribeirinho, mas do Tejo, escritor e grande amigo de Aquilino…

“Às terras do Douro é preciso vê-las, uma só vez que seja, do nível humilde das águas, para que ante nossos olhos se levantem na verdadeira imponência e força do seu poder. O viajante que faz o trajecto pelas vias hoje mais comuns, quer pelo caminho de ferro, a espreitar à janela da carruagem do comboio, quer pela estrada, surpreende-se a cada passo com a espantosa fascinação deste rio, mas mal cuida como ele corre por entre os montes, como aqui se estrangula e além se espraia, naquela marcha acidentada e deslumbradora; como os povoados surgem das margens, à beira dos areios, que assim chamam às praiazinhas, ou como numa curva, de súbito, aparecem pendurados da escarpa, na graça pitoresca do seu casario; como de espaço a espaço ali fervilham mundos de trabalho, alguns tão humildes e primitivos que os diremos afastados milhões de léguas de tudo o que seja civilização; ou como nele navegam as frágeis barquinhas de passagem ou se quedam paradas as dos pescadores solitários…”

Assim dito…

Evocamos hoje uma data Histórica para o Douro, aqui em São João da Pesqueira, o Concelho que detém de entre todos a maior área classificada como património mundial pela Unesco.

E é a partir deste concelho, como de todos os lugares do imenso Douro, que podemos admirar aquela que é descrita como a mais admirável obra humana que se pode ver em Portugal. Uma obra monumental que colheu valor universal e que, precisamente em 2001, foi epigrafada na lista do Património Mundial da Humanidade.

É este feito de uma região que hoje homenageamos, no comum entendimento, ao fluir de cada ano, que estamos na presença de um território único e incomum, de uma riqueza natural e humana extraordinárias, respeitadas, louvadas e admiradas no País e no Mundo. Esta terra de encantos, mas também, “Terra de suor, rio e doçura”… parafraseando Miguel Torga.

No Douro de hoje, “à proa de um navio de penedos”, se presentifica um dos mais epifânicos exemplos mundiais da capacidade e determinação humana no aprimoramento dos recursos naturais, transformando acentuados declives e fraguedos em patamares de inúsita beleza, criando um torrão a partir de montes e abismais escarpas e uma paisagem que a todos surpreende e identifica, com seu dígito singular, à escala planetária. O Douro detém uma feição e índole únicas, distintas de quanto existe.

Manuel Mendes, que volto a citar, escrevia:

“O Douro, na força da sua impressionante grandeza, tem ao mesmo tempo o que quer que seja de caseiro – rio gigantesco que não deixa por isso de se mostrar familiar, chegado ao íntimo viver dos homens. Percorre-se no seu curso, em que de quando em quando se põe irado ou apenas resmungão, mas a cada passo os olhos se nos prendem em qualquer sinal de vida próxima, que se vê e ouve latejar – povoado ou quinta isolada, as curvas admiráveis que faz a estrada, o penacho de fumo e o silvo do comboio, a sombra apetitosa de uma mata, o muro grosso de um nasseiro donde os pescadores deitam a rede, perto da margem um desses humildes casais de viver, pequena barquinha de toldo em que habita gente, ou então o belo barco que passa de vela aberta, a subir o rio, levado pelo vento da barra…”

Em menos de duas décadas, a nossa região enveredou por uma via de grande projeção nacional e internacional, posicionando-se hoje como um território produtor de um dos mais qualificados vinhos mundiais, bem como um destino turístico referencial, acrescido da excecional cultura e o rico património, a toar na pedra e no tempo, a secularidade desta terra.

É hoje enfim chegado o dia de homenagearmos quantos diariamente constroem incansavelmente o Douro.

De homenagearmos os mais de 20 mil agricultores que garantem a paisagem, os vinhos e as tradições.

De exaltar e enobrecer aqueles para quem o Douro foi a inspiração: os grandes escritores do nosso País, nascidos por esta região, como Guerra Junqueiro, para quem a natureza era fonte de beleza e vida;

Ou Aquilino Ribeiro, o escritor que fez da paisagem uma das bases essenciais da sua criação literária, perpetuando retratos únicos da geografia regional e sentimental ancorada na Estrela, no Marão e no esplendente Douro;

E também como Miguel Torga, que cantou o Douro sublimado, de um excesso da natureza e da beleza absoluta, obra de “homens titânicos a subir encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir”.

Ou João de Araújo Correia, o médico escritor de Canelas;

Ou o enorme Camilo Castelo Branco da cepa dos Brocas;

Ou o Eça da “Cidade e das Serras”, escrevendo do seu solo em Tormes…

O Douro é corpo conjunto daqueles que ao longo da história o edificaram. Por mero exemplo de entre tantos, D. Antónia Ferreira e o Marquês de Pombal são dois dos mais destacados obreiros do Douro, que devemos admirar pela sua visão, sentido estratégico e capacidade obreira.

Mas o Douro constitui-se também com personalidades como o Eng.º Ricardo Magalhães, que, precisamente em 2001, era chefe de projeto da Estrutura de Missão para a Região Demarcada do Douro e que muito fez pela nossa região.

O Douro é hoje o grande embaixador de Portugal no mundo, contribuindo com mais de 40% das exportações nacionais de vinho, o que representa mais de 300 milhões de euros para a economia regional.

Tal acontece pela qualidade dos vinhos, pela capacidade que as empresas têm de promover os seus produtos, mas em grande parte porque, desde 2001, com a distinção como Património da Humanidade, o Douro foi reconhecido também pela sua excecionalidade paisagística e aptidões para a atividade turística.

Estamos, pois, perante um Douro plural nas suas vertentes, que evoluiu, que se metamorfoseou extraordinariamente e que agora nos coloca crescentes desafios distintos daqueles que eram por todos encarados antes de 2001.

A Comunidade Intermunicipal do Douro que em 2001 não existia, surge como um inquestionável organismo estratégico para a região. Representando 19 municípios, cerca de 200 mil pessoas, e englobando um território com uma extensão de mais de 4 mil quilómetros quadrados, é no seio da CIM que hoje são tomadas as magnas decisões para o presente e para o futuro do Douro e a quem é requerido definir a estratégia regional para o vindouro decénio.

Daí termos sido a única CIM do País a desenhar uma estratégia para a década 2020/2030, e a apresentá-la perante o Governo e a União Europeia. Esta linha estratégica congrega a visão dos autarcas deste imenso território, das academias, das associações, das empresas e de todas as forças vivas da região.

Dela resultam várias linhas fulcrais que associam a visão do Douro Património da Humanidade ao Douro território com futuro: para além da linha do Douro, queremos o rio Douro como uma via navegável segura e consequentemente ligada à Europa, integrando a rede Transeuropeia de Transportes.

Acreditamos que para o turismo e para o transporte de mercadorias, o projeto Douro´s Inland Waterway será determinante para a região e para todo o Norte de Portugal.

Em complemento a estes projetos, e numa visão do Douro internacional, mas primeiramente com uma ligação forte à Península Ibérica, estão duas conexões essenciais para potenciar a dinâmica económica das nossas empresas: o IC 26 e a conclusão do IP 2 – Junqueira / Pocinho.

O Douro é a única região em Portugal que reúne, na sua matricial génese, dois elementos fundamentais para o sucesso do nosso País: o turismo e a sinergia económica assente em produtos de base local.

Nesse sentido, os projetos definidos são estruturantes para que o Douro seja um território unido, interligado, atrativo, com sentido internacional, que empreende e inove, que valorize as suas gentes, o ambiente, a dinâmica económica, que disponha de instituições capacitadas, que seja potenciador de parcerias e trabalho em rede. Em suma, uma referência.

A concretização dos projetos estratégicos para o Douro depende também da nossa capacidade de nos afirmarmos como uma comunidade forte, unida e estruturada, coerente e coesa, que permaneça alinhada numa estratégia de porvir, envolvendo entidades públicas, privadas e todas as forças potenciadoras desta região.

É também por isso mesmo que as gentes do Douro têm de ser determinadas e proactivas, pois a passividade é-nos oponente,  ademais não sendo timbre e lema duriense.

Todos quantos aqui estão devem, no seu dia a dia e nas suas ações diárias, exercer, de forma inequívoca, as suas prementes responsabilidades.

E devem exigir que o poder político, detentor do poder decisório, seja eleito para defender os verdadeiros interesses da região. Só assim estarão verdadeiramente legitimados para afirmar o potencial do nosso território e corresponderem aos anseios das nossas populações.

Se o Governo tem sido empedrenido na aceitação dos nossos realistas e legítimos desideratos, se nem sempre tem o olhar alinhado com a nossa focalização de futuro, devemos todos redobrar as nossas capacidades e fomentar o nosso ânimo para lhes levar, ao Poder Central, tantas vezes tão ausente da realidade do Poder Local e dos obstáculos quotidianamente enfrentados, os anseios  para debelar tudo quanto obsta ao nosso progredir, reiterando-lhes todo o carecido apoio no desbravamento de quanto nos tolhe.

A Região do Douro, pela sua antiguidade, preciosidade, especificidade, riqueza e História merece-nos, e mais do que esse merecimento, impõe-nos e exige-nos que saiamos da nossa zona de conforto e, numa porfiada e continuada luta, fileiras cerradas, saibamos encontrar o ansiado futuro.

É por isso que entendemos ser este o momento certo para defendermos uma região onde os nossos anseios e as nossas visões do amanhã sejam ouvidas e acolhidas como estratégicas.

A regionalização é uma urgência para o território do Douro. A necessidade da coesão e da convergência do Douro com outras regiões do País e com a Europa não pode ser usada sucessivamente pelo Poder Central para conseguir fundos comunitários e depois, quando estes chegam a Portugal, desviá-los para o metro de Lisboa ou para outra obra faraónica que jamais servirá as gentes desta região.

A regionalização é a última oportunidade e a esperança de congregarmos tudo quanto ao nosso alcance esteja, no material e no imaterial, nos valores patrimoniais e nas novas tecnologias, num discurso inovador com as circunstâncias, para darmos a esta nossa região o esplendor que a Humanidade lhe reconheceu e que nós, por vezes, recusamos e tardamos  encarar como um presente temporal inadequado ao desenvolvimento que almejamos alcançar.

Hoje celebramos 18 anos da classificação do Douro como Património da Humanidade. Celebramos o território e evocamos os séculos de porfiada labuta que nos foram legados e que foram decisivas fundações para alicerçarmos um presente valioso e um futuro auspicioso e pródigo, devendo ser por todos encarados como núcleo, base e fundamento da nossa missão, uma missão que todos temos de cumprir, sem hesitações e com firmeza.

É apenas isto que nos é exigido. É isto que temos de alcançar.

O Douro, marca indelével deste espaço geográfico, na sua mais profunda raiz identitária projetou e projeta o Norte de Portugal à escala mundial, conotando-se como um pólo turístico inestimável, único pela aliança de identidade com património, de natureza e dinamismo económico, onde dezenas de milhar de pequenos e médios agricultores exercem a sua atividade vitivinícola, investidos do papel extraordinário de guardiões da memória e da riqueza de uma região que foi exemplar na construção, com suor e sacrifício, da visão do território defendida pelos grandes estrategas políticos nacionais.

Em termos económicos, o Douro Região Demarcada foi ainda fulcral nos diversos momentos da nossa História, garantindo relacionamento comercial com outros países, como imenso cluster de afirmação da Marca Portugal e servindo de embaixador privilegiado na promoção do vinho português no Mundo.

(…)

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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