Os opacos biombos do fisco

por Paulo Neto | 2015.03.19 - 13:17

 

 

Quem vê caras não vê corações. É verdade. Mas quando olho para a cara de Paulo Núncio fico sempre na dúvida se estou perante um secretário de Estado da Nação ou do “salamanqueiro” Dom Hermano d’Ortega y Fermesín (de tal forma têm parecenças), um antigo e finado vendedor de banha da cobra por feiras e romarias, dos tempos de S. Francisco, Barrelas e da Lapa. Que o Divino me perdoe! Admito a cabal subjectividade deste critério na apreciação facial deste jovem fiscalista de muito mérito, licenciado em direito pela Católica e aterrado na pasta fiscal de Coelho, decerto pela sua superior competência e reconhecido dever de missão.

Aliás, cada vez se vêem mais missionários, cidadãos altruístas que abdicam da fulgurância de uma carreira privada para servir Portugal e os portugueses. Em Viseu também já temos discípulos, homens de grande valor e desprendimento, que viram ostensiva e desdenhosamente o nédio dorso a grandes carreiras empresariais que o Fado lhes concedeu, para acumularem presidências em toda a associação com mais de um sócio e meio. Em prol da filantropia, claro…

Mas Núncio, o homem do fisco, que tão linda, airosa e modelar carreira ia trilhando na peugada dos relapsos contribuintes, dos polutos devedores, dos incorrigíveis falheiros-costumeiros-e-contumazes, Núncio, o justiceiro arrecadador do cotão dos bolsos das puídas calças lusas, das esfiapadas e adelgaçadas carteiras lusíadas, sempre a ir mais longe na sua sanha tributária — claro que não falamos dos offshores, essa dor de cabeça que Núncio nem com carradas de spidifens adrega sarar — parece ter uma ligeiríssima debilidade no seio da sua estrutura pertinaz, ao serviço do Estado indigente e de muito boa gente bem cevada, como os da Brisa, da Ascendi e outros mais louvaminheiros da eficácia penhorante e arrestante deste autêntico “furão/furacão”… Núncio tem no de profundis do seu seio uma lista VIP, claro de very important people onde NINGUÉM pode entrar, ao que por aí dizem. Assim a modos como o 3º segredo de Fátima ou o Graal dos Templários. E nessa inacessível lista (que dizem as más-línguas de deformados e pérfidos sub-cidadãos  foi criptografada após aquele infra-caso da Tecnoforma, só criado para enxovalhar Coelho, o justiceiro-mor) colocou sob uma redoma de grosso e impenetrável aço mil nomes…

Claro que os nomes do Zé Silva sacristão da Misericórdia aposentado, do Tó Costa pescador de barbos do Pavia, do Tino Pereira contínuo no multiusos de Lamego, do Jó Nunes segurança do boteco das Loiras, da Licas Melro activista dos linces da Precata, da Ju da Anunciação prestimosa beata do Freixinho, da Preciosa do Dão técnica de rolhas na vinícola, da Fáfá da Prebenda semeadora de gerânios no quintal da Ti Aurora, da Lili de Fragosela criadora de coelhos australianos, da Mimi da Lageosa pedicure-calista afamada… e mais outros 990 anónimos antroponímicos de gentalha perigosa, possíveis incipientes células terroristas, metida em esquemas de duvidosa clareza, suspeitíssimos proventos nas ilhas Virgin, temíveis ziguezagues tributários, fraudulentas negociatas, inconfessáveis facilitismos, putativas corrupções e demais panóplia da suma cartilha do Jójó-carteirista, com banca há um quarteirão de anos em Santa Apolónia, claro que esta gente perigosíssima só pode estar na VIPLIST por motivos de segurança de Estado, sigilo de Justiça, averiguações da Interpol, do FBI, da Stassi e…. evidentemente, para suprema e superior protecção do Estado e dos modelares exemplos dos cidadãos cumpridores que, e a título de mero e básico exemplo integram o Governo pátrio e outros que assentam seus rechonchudos traseiros para os lados de S. Bento, devoto mártir dos desabrigados.

De resto, só um tarado-alienado-compulsivo-esquizofrénico-depressivo-com-mania-de-perseguição poderia congeminar que tal VIPLIST das 1000 inominadas criaturas poderia algum dia ser buncker dos mafiosos salteadores radicais que nos espoliam por brejos e andurriais destes nossos portugais.