Costa: A Bela Adormecida

por Paulo Neto | 2015.03.30 - 09:22

De facto parece que um estranho quebranto ou feitiço se abateu sobre as hostes socialistas, não só as nacionais como as locais.

António Costa está a gerar um desânimo confrangedor no seio do partido. Ou tem uma estratégia misteriosa com cronogramas perfeitamente delineados e uma linha de acção definida para se tornar visível e com impacto a breve trecho, ou não tem nada para além de um punhado de obsoletos conselheiros lisboetas, onde não se encontram nem distintas nem referências de vulto nem de peso. Pelo contrário. Um lote de ressessos repescados.

Ontem, domingo 29, na Madeira — que não é o melhor exemplo, pois se tratou sempre de uma autocracia laranja — a meio da tarde, as previsões davam maioria absoluta para o novo líder do PSD, Miguel Albuquerque, o 2º lugar para um PS coligado e um 3º lugar para o CDS que seria, assim, o derrotado do dia. Os resultados finais devolveram a realidade, baixando o PS para 3ª e subindo o CDS para 2º. Ali, não houve penalização da governação de Coelho & Portas.

Em Viseu, depois da tomada da Federação por António Borges, o ex-autarca do Douro-sul, com entradas de leão e mangas arregaçadas até ao sovaco, mais o seu nº 2 Miguel Ginestal, de concreto mostrou um punhado de acções avulsas, inconsequentes, sem uma linha de rigor e coesão… Esperava-se mais de Borges, chegado com tanto alento. E espera-se ainda a implementação das votadas e aprovadas directas para a escolha dos deputados.

A concelhia, essa, deu há dias um levíssimo suspiro de sua graça, com um comunicado acerca de Sérgio Monteiro e da ligação Aveiro-Vilar Formoso. A seguir, entrou de novo, em letargia.

A oposição à autarquia viseense é um desairado plof. Com excepção de Rosa Monteiro, espartilhada entre dois “surdos-mudos”, é difícil achar-se nulidade maior.

O movimento dos mais jovens no qual se depositou alguma esperança hibernou, ciente da política de “eucalipto” implementada pela Federação. Talvez para o próximo decénio…

O PSD anima-se com esta apatia, com tal abulia, com tanta inércia. Parece ter perdido a oposição local e central e, apesar dos estremosos esforços de manipulação da realidade geral, começa a perceber que não há necessidade de grande empenhamento para singrar seguro por meio deste mar de sargaços e destroços.

Costa dorme seu sereno sono enfeitiçado na clareira do frondoso bosque. A IIIª República já não é a transfiguração do príncipe quebrador do filtro mágico. Os faunos e as silvinas, em redor, em funéreo silêncio queimam incenso de dia e à noite riem desbocados, às escâncaras.

Por seu turno, até as eleições legislativas foram relegadas, ou parecem ter sido relegadas, para um 2º rang de futilidades. As presidenciais, com Marcelo no palco laranja a fazer o seu número de one man show, escurecem o palco vazio do PS, sem norte nem candidato que lhe assista.

Mas, em boa verdade, a caldeirada coze em lume brando seus picantes ingredientes, os previsíveis deputados, os putativos candidatos e os ansiosos candidatos a deputados (as). Cozinha-se num tacho pequeno para tanta e tão diversificada qualidade piscícola. De tubarões a petingas, há de tudo, no lume brando da agitada impaciência futura.

Se o mês de Abril não trouxer uma clara definição nacional das fileiras rosa, uma linha de rumo clara, coesa e coerente, Costa e apaniguados estão definitivamente arrumados.