XICULULU . Do meu avô Loureiro de Barbeita

por António Monteiro | 2014.01.25 - 13:57

Em tempos de pagode e, no Brasil, meu avô Loureiro aprendeu a tocar violão como um madraço forrozeiro; com uma viola de segunda mão, ocupava as horas vagas praticando os ritmos quentes.

(Xicululu: – Olhar de esguelha, mau-olhado, olho gordo, cobiça )

Ainda o meu avô era bem apessoado quando o que ganhava como caixeiro, gastava no pagode com Mariquinhas e outras desclassificadas. Em um sonho meu, hipnótico crepuscular, os acontecimentos encavalitavam-se aleatoriamente dentro e fora do tempo entre muitos forrobodós de intensa refega nos fins-de-semana, ora em recintos fechados ou pátios abertos aonde se soltavam foguetes ou se queimavam bombas ao romper da alvorada. Aos poucos, António Louro Loureiro, foi substituindo os tamancos da beira alta por chinelos de matuto do agreste, abertos, ventilados quanto baste para poder deslizar nos encerados dos salões da surumbanda, samba e capoeiragem com patuscada.

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Como violeiro, ganhou a alcunha de Louro Galego e era ver as morenas disputando-o ameigando-lhe os cabelos, com as macias polpas de suas mãos quentes, devorando-o, borbotando fagulhas e corações pelos olhos. Se pudesse ver a minha expressão como kianda (fantasma) hipnotizada, decerto que me veria envolto numa enternecida mágoa com profunda expressão na fisionomia. Já estou neste estado de suspensão faz tempo, mas ainda não apurei todos os fungos de surumbanda para os engomar a ferro quente esterilizando sua alma, esse lado desordeiro dele, da calaçaria; e minha avó Topeta esperando na santa terrinha, sentada no adro da capela com seu xaile negro de bolinhas brancas

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Já muito farto de apreciar as muitas noitadas de violão e dança ao relento solicitei à alma do meu avô António um encontro e, no contacto diluído falou-me de um negro desgosto que o foi comendo por dentro com tubérculos tísicos tirando-lhe a vontade para tudo que não fosse chorar; com uma respeitável preocupação de bons desejos divertimo-nos jogando à bisca e, até bebemos cerveja holandesa e, foi a respeito de projectos de felicidade que ele me disse: – Meu neto Tonito, naquele tempo sazonei-me pela fruta que me provocava insistentemente o apetite de a morder; eram demasiadas carnudas para desprezar. Ao dizer isto, as rugas de sua alma suaram salgadas gotas de ressentida alegria.

T´Chingange

Um mundo recheado de muita hipocrisia fez de mim um eremita lendo nas palavras as intenções fraudulentas, já quase, como uma premonição; presságios que me amedrontam.

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