VISEU . RURALIDADES – “UM ANJO CAÍDO DO CÉU”

por Alberto Correia | 2014.09.26 - 10:47

 

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)

 

Caiu do céu este pequeno anjo. Quem viria ele guardar?!… Ou desceu apenas para pousar nalgum Presépio?! Deve ter-se perdido. Talvez o vento! Ou deixou de haver luar se viajou durante a noite. Já não é o primeiro que se perde. E tanta gente que anda agora por aí sem que alguém lhe dê a mão!

A este anjo houve quem lhe desse a mão, ao pousar, talvez o anjo da guarda desse alguém tivesse reconhecido este irmão pequenino, não sei. E tivesse inspirado a ajuda.

Levaram-lhe um pão de centeio que saíra há pouco do forno, ainda está morno e sente-se aquele cheirinho bom se nos aproximarmos. Não, não cheira mal a blusita encardida que lhe vestiram e ainda não houve tempo de lavar, talvez porque não haja outra e não querem deixar nu o pequeno anjo.

Apenas cheira a ervas e à terra molhada, a roupita. O cabelo também. Podemos encostar a cabecita do anjo ao nosso colo. Podemos dar-lhe um beijo.

Carregaram-lhe a outra mão com essa pequena cornucópia e o anjo está incerto do que dentro guarda, nunca viu nenhum Natal, não sabe como se faz para abrir os presentes!…

Agora este anjo mora numa casita pobre.

Ele não se importa. Quando desceu do céu vinha nuzinho, trazia só umas pequenas asas brancas e vestiram-lhe então roupita de criança.

Agora anda por aí, nem ele, o anjo, já sabe das asas, se soubesse voava outra vez para o céu.

A blusita está rota. A saíta nem se ajusta bem à sua medida. Ninguém penteia aquele cabelito para nele nascerem caracóis que até ficariam de oiro. Ninguém lhe pôs ao pescoço um cordãozito de oiro com uma medalha de madrinha. Ou com o seu nome. Mas quem sabe o nome deste anjo?!…