VISEU . RURALIDADES – PAISAGEM NO CABO DO MUNDO

por Alberto Correia | 2014.09.18 - 23:01

 

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)

PAISAGEM NO CABO DO MUNDO

A acção decorre naqueles lugares onde a lenda se exprime ainda deste jeito: “Uma vez um homem travou do bordão e partiu a correr as sete partidas do Mundo. Andou, andou até que foi dar a uma terra de que ninguém faz ideia: a gente comia calhaus e ladrava como os cães.”

              Aquilino Ribeiro, in Terras do Demo, prefácio dedicado a Carlos Malheiro Dias.

Nesta paisagem de cabo do mundo quatro homens, alguns com olhar de contido espanto, senão de sofrida resignação, descansam em hora de meia-manhã que eu creio já ser de Outono, lembram-se os fuminhos de aragem que lhes fizeram vestir velhas roupas de agasalho quando saíam de casa, ao clarear do dia.

Eu julgo que são mineiros. Que isso deixa antever o gazómetro abandonado ali ao pé, o pedregulhal arrancado das entranhas da terra, a solidão de outros homens que mais longe esgravatam o chão nessa dolorosa busca dos calhaus de volfro de um avaro filão.

O Eldorado abria-se ali, a um tiro de pedra da margem dos poviléus onde o colmo era ainda cobertura de cardenhas e currais, esborralharam-se muros de pedra miúda e solta que dividiam as courelas, britaram-se outeiros onde luzia a cobiçada fita de um negro de azeviche, afundaram-se minas que engoliam uma corda de homens.

Houve quem se cobrisse de oiro, raros levantaram morada de pasmar, a aldeia, no termo, ficou pobre como sempre fora, a boca escancarada das minas que ninguém fechou clamando pelos tesouros que delas repartiram.

José Malhoa já não pôde pintar o retrato destes homens sobre os quais teria de esbanjar pinceladas do seu sol. Almeida e Silva partira na véspera. Mas eu não sei se Almeida e Silva levaria ao fim a empresa de os pintar, tocado por angustiosa comoção.