Viseu. Ruralidades – A menina da Primeira Comunhão

por Alberto Correia | 2014.02.21 - 09:12

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de arquivo de Foto Germano)

Eu não sei quem é esta menina. Minha irmã pequenina poderia ser. Mas a irmã pequenina que eu tive, já disse num livro, chamava-se Henriqueta, voou para o céu antes que eu tivesse nascido. A minha irmã não chegou a fazer a primeira comunhão.

A menina do retrato é, de certeza, hoje, uma mulher. Quem sabe se ela guardará ainda sobre a cómoda do seu quarto de dormir, emoldurado, a cor já esmaecida, o retrato do dia da primeira comunhão?! Quem sabe se algumas vezes o não tomará na mão, ao retrato, quando está sozinha, quem sabe se um sorriso leve lhe aflora então aos lábios, quem sabe se é uma lágrima o que ela limpa com a mão?! Talvez fique a lembrar, quando o olha, a leveza do tule do vestido, a coroa de rosas brancas colada ao véu, o colarzinho de pérolas, as luvas branquinhas, a bolsinha pendurada no braço, o terço que a madrinha lhe prendeu nas mãos e que ainda guarda, na caixa de madre-pérola, sobre a mesa-de-cabeceira! Terá, não sei, o olhar pousado no cabelo de ouro que a mãe lhe penteou nessa manhã, o cabelo de ouro que deixou pousar, menina de outra idade, sobre os ombros. E como hoje está branco! Ou estará a olhar para aquele rosto pequenino, os olhitos fixos no fotógrafo, entre tímida e envergonhada que ficou a menina?! Fechará os olhos, suspenso por instantes o pensamento, pousará depois o retrato sobre o pano bordado da cómoda, talvez uma neta pequena lhe volte a perguntar quem é a menina do vestido branco que está no retrato.

A menina de vestido branco está agora dentro da igreja. Entrou com ela, pela mão, a madrinha.

Está linda, na fila, ao pé das outras meninas.