Viseu. Ruralidades – A FEIRA DOS PUCARINHOS

por Alberto Correia | 2014.07.20 - 21:36

 

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)

17 – A FEIRA DOS PUCARINHOS *

– Então vinde, vinde beber um pucarinho de Molelos – tornou todo franco, abrindo marcha.

Aquilino Ribeiro in O Malhadinhas

Em vez do pucarinho de Molelos, de especiosa cor negra, de que fala Aquilino, de que falou também Botelho Pereira nos seus Diálogos sobre Viseu (1630), eu podia ter referido aquele pucarinho de barro vermelho, mais consentâneo com os desta tenda de feira, que Grão Vasco ou um dos seus companheiros pintou na doce representação do “Presépio” que fez para a Catedral de Viseu (1501-1505), idêntico no tamanho e no feitio aos pucarinhos da feira esse pucarinho em que o lavrador de Belém partilhou o seu vinho novo com José, enquanto Maria e a sua mulher se atarefavam a dar forma de berço à manjedoura do estábulo.

Ainda são de uso pela Beira fora pucarinhos semelhantes, hoje mais cuidados na maneira, vidrados no geral, para não sentir, bebendo, o estranho sabor do barro original que remanesce, mesmo depois de levá-los a cozer.

Ainda há quem guarde no servil do pucarinho o leite de uma cabra criada ao pé da porta, ainda há quem o reserve numa adega para encher no S. Martinho, ainda há quem nos ofereça, feita a cresta dos cortiços, num fresco pucarinho, uma sede de hidromel.

Ainda há quem vá à feira para comprar um pucarinho. Basta olhar as tendas das louceiras na velha Feira Franca de Viseu.

*- Loureiro de Silgueiros. Feira de S. Bartolomeu (24 de Agosto)