VISEU . RURALIDADES 4 – “O PÃO NOSSO DE CADA DIA”

por Alberto Correia | 2014.01.24 - 10:58

      

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)                                                                      

 

4 – “O PÃO NOSSO DE CADA DIA”

 

Existe no Museu de Grão Vasco uma pintura a óleo de título “Regresso da Horta” que José de Almeida e Silva (1864-1945), seu autor, assina, sem a datar, atribuída no entanto, em inventário, aos anos de 1940-1941.

Almeida e Silva surpreendeu os dois camponeses que regressavam das suas belgas, nas margens da aldeia, devia ser pelos meados de Setembro e ao fim da tarde, vê-se pelas récegas de sol que ilumina o quadro, pelo agasalho de que se vestem, o homem e a mulher, pelo braçado das canas de milho que o homem suspende do braço direito, sinal de que não vem de muito longe, pelos frutos que enchem a cesta de vime que a mulher ampara antes de pousá-la. O pintor suspendeu-lhes a marcha para colher o esboço no caderno que trazia e assim permanecem, aguardando o gesto que os liberte e retornem a casa que parece estar perto.

Sente-se que já lhes pesa a idade, vê-se no rosto de ambos, mais no da mulher onde as rugas se descortinam marcando-lhe as faces.

O casal que posa na fotografia é ainda jovem e a criança que a mulher segura ao colo deve ser o primeiro filho.

Aqui é o fotógrafo quem os surpreende, mas não fica seguro, do retrato, se partiam ou vinham de regresso de uma horta vizinha nessa hora que parece ser a da meia manhã de um verão entrado, a avaliar pelas hastes maduras das ervagens. Talvez que o fotógrafo, ao passar por acaso no caminho junto à casa onde moravam, a deslado da aldeia, apenas quisesse obter esse idílico registo de um clássico grupo familiar de camponeses e vá de pedir ao rapaz que pusesse a enxada ao ombro e à jovem mulher que se postasse ao lado com o filho. Mas nem um nem outro ficaram à vontade na fotografia. O rapaz cobriu displicentemente os ombros com o casaco mas não sabe o que fazer da mão liberta e abandona-a, inexpressiva, ao longo do corpo. Também não sabe para onde olhar. A mulher, apesar da sua elegante postura, espera que o acto termine para que a viveza do olhar lhe regresse e o leve rubor das faces e distraia com risos os olhos da criança que teima em seguir ao longe o estranho que se afasta.

Não sabemos o que terão feito no resto desse dia os dois membros do casal.

Talvez ele tenha ido dar uma volta pelo campo onde o milho crescia ao sol e onde as uvas começavam a pintar. A mulher apanhou a cesta que colocara no chão. Em casa havia roupa para lavar e talvez uma teia urdida no tear. E o futuro daquela criança. E outros filhos para nascer. E um sonho que ela não sabia se iria acontecer. Talvez que o seu menino não precisasse da enxada como o pai, não precisasse de lavrar. Talvez pudesse ter outro destino. Quisesse Deus fosse melhor.