Viajo, vejo e sinto que sobre-tudo tenho que refletir…

por Amélia Santos | 2014.08.19 - 16:35

Na sua crónica semanal, no jornal Expresso do passado dia 9 de agosto, José Tolentino de Mendonça citou Jacques Lacarrière para iniciar uma reflexão sobre «a viagem». A frase citada era esta: “O verdadeiro viajante é aquele que a cada novo lugar recomeça a aventura do seu nascimento”. Esta frase ficou a fazer eco em mim, ainda mais porque regressara apenas há dois dias da Grécia, de um encontro com aquele que é denominado «o berço» da nossa cultura ocidental. Tolentino de Mendonça, singularmente profundo nas suas reflexões, chama a atenção para as mudanças interiores e de perspetiva que o contacto com outros mundos, paisagens diversas e distintas culturas operam na nossa interioridade e naquilo que ele apelida de “maturação do olhar”. Foi exatamente assim que senti esta viagem à Grécia. Sobretudo a Atenas, por ter para mim um valor altamente simbólico e estar imbuída de uma mística especial desde o meu primeiro ano na Faculdade de Letras de Lisboa, particularmente desde as aulas de Cultura Clássica.
A aventura do meu re-nascimento aconteceu mal me acerquei da Ágora, que era a praça pública da antiguidade, o espaço mais concorrido e animado da pólis. Não se sabe explicar como, mas continua a existir magia neste espaço… Pisar o mesmo solo que Sócrates, imaginá-lo ali, a dirigir-se ao seu público, debatendo grandes ideias (“Só sei que nada sei e sobre tudo tenho que refletir”), procurando explicações coerentes e racionais para a origem do mundo e para as relações do homem com o cosmos, provoca uma estranha emoção no viajante… Será a tal emoção de estarmos a entrar na aventura do novo nascimento… Não deixa de ser marcante pensar que foi ali que nasceram conceitos como a democracia e a filosofia (o amor pela sabedoria), ao mesmo tempo que se convivia com a mitologia, que se erigiam maravilhosos templos aos deuses, como é o caso do templo de Hefesto, o mais bem preservado da Grécia e que se pode observar ali mesmo neste espaço da Ágora…
As vivências culturais desencadeiam efetivamente a reflexão, a questionação do mundo e de tudo o que nos rodeia. Foi assim na Grécia Antiga. Foi assim nas grandes civilizações. Não é por acaso que tantos dos nossos governantes as desprezam e as tentam a todo o custo eliminar…
Depois de passear na Ágora, de nos sentarmos a sonhar com os tempos em que toda a atividade cívica, política, comercial, artística e religiosa encontrava ali acolhimento, nas suas diferentes fases, desde o apogeu da cidade-estado, durante os séculos VI e V, até ao domínio romano (não esquecendo que também São Paulo ali pregou), acontece-nos mais um momento especial que é o de admirar a Acrópole lá no alto…
Impõe-se ao viajante do século XXI, nesta fase, fazer uma retirada até uma das maravilhosas esplanadas do bairro de Plaka, para beber um refresco que ajude a interiorizar as vivências e a expressar algumas das emoções que vão assaltando a alma de quem sente a viagem como uma reconstrução interior. A visita à Acrópole, tal como aconselham os guias, deve deixar-se para o fim da tarde. A experiência é, sem dúvida, mais rica. O tempo passa a ser, então, o de nos imbuirmos de um espírito mais celeste, fazendo a iniciação ao culto dos deuses e preparando a nossa oferenda à deusa Atena, protetora da cidade, que observa desde o Pártenon, a nossa subida até ao alto da rocha sagrada. Antes de chegar ao cume, deve ainda visitar-se o teatro de Dionísio, situado na encosta. É emocionante para quem leu as tragédias e comédias gregas de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, saber que foi ali que se estrearam, perante um público ávido de ver representados na sua presença os dramas com que se debatiam homens e deuses, criados à sua imagem e semelhança…
A chegada ao cimo da montanha é o momento, efetivamente, alto da visita. É o contacto com o sublime. Morada de deuses. Refúgio místico do visitante, favorável à introspeção e ao encontro com o transcendente e, consequentemente, connosco próprios. Dali contemplamos a paisagem e deixamos desfilar à nossa frente as diferentes épocas de ocupação da Atenas histórica. Ali admiramos a perfeição dos edifícios e deixamo-nos envolver na harmoniosa relação entre homens e deuses, entre o mundo sensível e o mundo espiritual…
“O verdadeiro viajante é aquele que a cada novo lugar recomeça a aventura do seu nascimento.” Eu recomecei a minha!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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