Vermelho cristalino

por Patricia Maia Noronha | 2014.05.27 - 13:44

Eram tão brilhantes e vermelhos que, quando os apontávamos contra o sol, se transformavam em pedras preciosas, amuletos mágicos ou cristais espaciais como os do super-homem. Eram também os melhores chupa-chupas que já tínhamos provado nas nossas ainda minúsculas vidas.

A avó Mana vendia os doces na praceta de Goa, no Restelo, em frente à nossa escola primária. Apesar de tantos dias que passámos com ela, nunca nenhum de nós quis saber o seu verdadeiro nome. Nem de onde era nem se tinha família. “Podem chamar-me Avó, ou avó Mana se quiserem”, disse ela um dia. E foi por isso que passou a ser a avó Mana. Os doces que nos vendia eram feitos por ela, com açúcar e corantes, provavelmente em muitas panelas fumegantes.

À primeira vista, aquela avó causava uma estranha impressão. Ou pelo menos causou-me a mim, que nunca tinha visto ninguém tão preto e sobretudo nunca tinha visto um rabo tão gordo como aquele. Um rabo que ocupava todo o banco da praceta de Goa. A primeira vez que a vi, rodeada de crianças lambuzadas a devorar cones cristalinos, não consegui desviar os olhos do rabo imenso, num sentimento de horror, que rapidamente cedeu à fascinação.

Na praceta de Goa, além dos chupas e da avó Mana, havia também imponentes árvores da amoreira. Árvores tão enormes que era impossível certificar se teriam fim. Portanto, aquele jardim era uma espécie de paraíso para nós: montes de folhas para alimentar os bichos-da-seda, espaço para correr freneticamente, esconderijos ideais para as escondidas, por serem impossíveis de detectar. Tudo isto embrulhado no sabor dos doces cristalinos a derreter na nossa boca.

Mas, mais do que uma vendedora de guloseimas, a avó Mana era uma espécie de guru espiritual, que iluminava o nosso caminho nos momentos mais escuros e difíceis… Como no dia em que os bichos-da-seda da Mariana sofreram aquele terrível acidente.

A Mariana tinha os bichos-da-seda mais sedosos e mimados de todos. Eles viviam numa caixa de veludo azul onde passeavam num tom majestoso entre folhas e pedrinhas estrategicamente colocadas. A caixa tinha uma tampa transparente de onde observávamos aquele pequeno mundo fantástico de larvas: as folhas a serem comidas, os bichos a construírem casulos perfeitos com fios de seda que vinham da própria boca, casulos de onde nasceriam terríveis borboletas, tão gordas e feias que nem sabiam voar.

Só que, no nosso pequeno paraíso havia também pequenos demónios, como o Bruno. Os principais passatempos do Bruno eram: levantar as saias das miúdas, roubar chupas que não eram dele, meter bichos em cima da língua para meter medo aos outros, entre muitas outras coisas muito nojentas.

Um dia, depois de ter cuspido um jacto de água para cima de um miúdo mais pequeno, o Bruno desatou a correr às gargalhadas enquanto apontava para o infeliz encharcado. No meio da corrida estava a caixa azul da Mariana. E foi assim que, em poucos segundos, o pequeno mundo dos bichos-da-seda ficou reduzido a um monte de papel amachucado debaixo de um pé humano. As minhocas brancas transformaram-se numa imensa mancha verde inanimada. Para nosso horror, alguns ainda mexeram a cabeça durante muito tempo.

Foi o primeiro confronto directo com a morte para a maior parte de nós. A Mariana chorava convulsivamente sem conseguir articular uma palavra nem olhar para aquele desastre. Nenhum de nós sabia o que fazer. O Bruno não sabia se havia de rir ou chorar, ou outra coisa qualquer. Também estava em estado de choque, porque apesar de todas as maldades, ele nunca teria imaginado aquele desfecho tão trágico. E também ele adorava a caixa dos bichos da Mariana.

Já a nossa avó da praceta sabia exactamente o que fazer. Sem hesitar, deu as coordenadas de cima do seu banco: “Há que salvar os bichos que sobreviveram. E enterrar os restantes numa breve cerimónia”. Enterrámos todos porque não sobreviveu nenhum.

Pusemo-nos ao trabalho. Cavámos um pequeno buraco rectangular onde colocámos a caixa-caixão, que depois foi cerimoniosamente tapada com terra. Fizemos uma cruz com dois paus dos chupas para adornar a pequena sepultura e proferimos umas palavras bonitas como gostamos muito de vocês.

“Eles agora vão para o céu onde vão ser tão felizes como foram aqui”, garantiu a avó. Ficámos descansados com aquela garantia, menos a Mariana que continuou durante vários dias a odiar o Bruno com os olhos, sem lhe dizer nada, porque nunca ninguém era capaz de dizer nada ao Bruno. Durante alguns dias, o Bruno também não chateou ninguém.

Era assim, quase à distância, que a guru dos chupas nos ia orientando nas direcções mais fixes. Num outro intervalo da praceta, havia uma criança afastada do grupo, no outro lado do jardim, a olhar para a gritaria e para o brilho vermelho nas nossas mãos.

Ninguém tinha dado pela sua presença. Mas a avó olhou para ela e chamou-a de longe, acenando para se juntar a nós. Foi aí que reparámos nela. Suspendemos o nosso entusiasmo, baixando lentamente os chupas como se fossem minúsculas espadas de brincar. Dezenas de olhinhos de criança giraram na direcção da outra miúda.

Era uma rapariga pobre, que andava na nossa escola. Ainda no dia anterior tínhamos passado um dos intervalos aos gritos: “Olha a piolhosa, olha a piolhosa”. Portanto, a sua presença entre nós era, no mínimo, embaraçante.

Um de nós gritou “Avó, ela não!”. Toda a avó Mana estremeceu como se tivesse apanhado um susto, incluindo o seu imenso rabo de geleia rija, mas fez de conta que não tinha ouvido nada e voltou a chamar a miúda. “Avó, ela tem piolhos, lêndeas e cheira mal”, insistiu uma voz infantil. A miúda, ao longe, continuava imóvel. A avó Mana percorreu-nos um a um com o olhar, lentamente, depois voltou o rosto para a criança afastada.

E uma coisa que nunca tinha sucedido aconteceu: a avó Mana levantou-se! Nem queríamos acreditar no que estava a acontecer perante os nossos olhos. Imóveis, como se assistíssemos a um milagre, acompanhámos a movimento lento e pesado do rabo a erguer-se do banco.

Eu pensava que a avó aparecia de uma maneira mágica naquele banco e que depois, por outras artes mágicas ou marciais, desaparecia e aparecia noutro banco qualquer da cidade. Nunca tinha visto nem imaginado a avó em pé e muito menos a andar. O banco e ela eram um só elemento. Até porque aquele rabo infinito desafiava as leis da gravidade, aliás, desafiava qualquer lei do universo e, para mim, seria impossível mantê-lo afastado do chão.

Apoiando-se no banco de jardim, a avó Mana levantou-se. Depois, abriu o cesto e tirou de lá um dos cones de groselha. Com o chupa na mão, atravessou a praceta, seguida pelos nossos olhos incrédulos. A cada passo seu, o chão quase estremecia. Já ao pé da outra criança, a avó Mana estendeu-lhe o chupa. A miúda hesitou por um segundo mas aceitou, esboçando um pequeno e muito tímido sorriso.

Do outro lado do jardim, estávamos com medo do que se iria passar a seguir. E se a avó Mana a trouxesse para ao pé de nós? Como a poderíamos receber? Mas não. A avó deixou a miúda entretida com a sua surpresa e voltou para o seu banco, sem pressa.

Nós continuávamos em silêncio, com as pequenas espadas viradas para o chão. Aguardávamos palavras duras mas a avó Mana disse apenas: “Mais alguém quer um chupa?” Dissemos que não. Um pouco envergonhados e confusos, voltámos a erguer as espadas e a gritaria regressou até porque, entretanto, alguém tinha encontrado a maior folha de amoreira de sempre.

Os meses seguintes passaram tranquilos entre a avó Mana, as folhas de amoreira, e os jogos do recreio. A miúda pobre continuou afastada de nós. Mas já ninguém gritava “Olha a piolhosa”, e às vezes até a convidávamos para brincar às escondidas ou à apanhada, numa espécie de redenção comunitária. Eu não ia à catequese mas sentia que era isso que tinha acontecido, era como se tivéssemos pecado e depois tivéssemos ido à missa para sermos perdoados.

Até que um dia surgiram na escola notícias perturbadoras, de que andavam a distribuir droga entre as crianças. A polícia deixou o aviso: era um grupo que oferecia autocolantes com bonecos ou rebuçados embebidos em LSD. E objectivo, diziam as autoridades, era simples: viciar as crianças para gerar dependência e depois lhes vender substâncias ilícitas. Uma história bizarra mas que gerou uma onda de medo entre pais e professores.

Um dia, estávamos nós a preparar-nos para a habitual excursão à praceta, quando a miúda pobre, que em tempos era a piolhosa,  começou a gritar que, se nós quiséssemos ficar drogados, que fôssemos “ter com a avó Mana”. Mas que ela nunca mais ia comprar aqueles chupas “porque tinham droga”.

“Droga?”, suspendemos o passo acelerado. “Sim disseram os meus pais. E foi a polícia que lhes disse”. Ela ainda sublinhou que os pais tinham amigos polícias e portanto a história era mesmo verdade. Ainda que desconfiados da piolhosa, grande parte do grupo dispersou. Mas eu e mais uns quantos ignorámos corajosamente o aviso e corremos, como sempre, em direcção a avó Mana.

À entrada do jardim, vimos que a avó não estava sozinha: à sua volta estavam uns quantos agentes policiais. Através de uns arbustos observamos a cena em silêncio. A avó abria o cesto e eles vasculhavam entre os chupas. Tinham um ar zangado. A avó, pelo seu lado, tinha o mesmo ar pacífico de sempre, o que parecia irritar ainda mais os homens de farda.

A certa altura, os homens viraram o cesto e despejaram todos os chupas em cima do banco. Dezenas e dezenas de cones cristalinos despejados em cascata sobre o banco. Alguns caíram no chão e foram pisados pelas botas dos polícias. Atrás dos arbustos, abafámos gritos de pânico.

Entretanto, soou o toque da escola. O intervalo tinha acabado mas não podíamos sair dali. Não podíamos ir embora sem saber o que seria dos chupas de groselha, o que seria da avó, o que seria do nós e daquela praceta. Em voz baixa, discutimos o que fazer e decidimos continuar ali.

Mais de meia hora depois, a cena continuava igual. A avó sentada acenava que não ou que sim. Às tantas, mostrou o velho porta-moedas onde costumava guardar as moedas. Um dos polícias despejou o conteúdo nas mãos e mostrou aos colegas intrigados. Esse mesmo polícia, que devia ser o chefe, ordenou aos outros que guardassem novamente os chupas no cesto. Suspirámos de alívio mas, logo a seguir, de temor. O cesto ficou na mão dos polícias, que não pareciam ter intenções de o devolver à avó.

Foi então que apareceu, exaltada, uma contínua da escola a perguntar se estávamos parvos e a dizer que estava tudo preocupado connosco, que o toque já tinha sido há mais de meia hora e que tínhamos de ir para as aulas. Contrariados, sob os empurrões da contínua furiosa, voltámos para a escola. As horas seguintes foram de angústia, teríamos de esperar pelo dia seguinte para saber o que se tinha passado.

Eu fui para casa cabisbaixa e quase contei tudo aos meus pais, que perguntaram mais de uma vez o que é que se passava. Não disse nada por causa da polícia e dos anúncios da droga. De noite, sonhei com montanhas vermelhas que pareciam de rebuçado mas que depois escorriam um líquido pegajoso que me impedia de caminhar.

Na manhã seguinte, o mesmo grupo reuniu à porta da escola. Marcámos encontro para, no intervalo, irmos juntos à praceta. Assim foi. Apreensivos mas optimistas corremos para o jardim. Ainda havia vestígios de chupas esmagados no chão, já cobertos por milhares formigas famintas. Mas da avó Mana não havia qualquer sinal. O banco estava agora vazio e parecia maior do que o habitual.

Durante várias semanas, continuámos a busca pela avó Mana. Até nos aventurámos pelas outras pracetas da zona, espreitando os bancos de jardim, a olhar para o chão à procura de um chupa caído, de um pauzinho branco, de uma pista. Mas nada. A avó Mana tinha desaparecido para sempre das nossas vidas.

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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