VAI-SE VIVENDO!…

por Alberto Correia | 2014.07.15 - 14:27

 

Um episódico retorno aos clássicos e assim abro a minha crónica com uma pequena citação da comédia / farsa ” Persa” de Plauto, um comediógrafo romano falecido em 184 a. C., que habitualmente escolhe como personagens da sua abundante produção gente comum, tantas vezes escravos, como ilustra o seguinte fragmento:

Tóxilo (escravo):

Viva, Sagaristião! Que os deuses te ajudem!

Sagaristião (escravo):

E que te concedam o que desejas, Tóxilo! Como tens passado?

Tóxilo:

Como posso…

Sagaristião:

Que se passa?

Tóxilo:

Vai-se vivendo…

Mais de dois mil anos passaram sobre a construção deste discurso e os nossos dias, os dias de tantos como nós, assemelham-se, parece, aos inquietos dias do escravo Tóxilo que se encontrava sem dinheiro para concretizar um sonho (podia ser a compra da liberdade), ao caso era o seu sonho de amor, a compra de uma escrava, bateu a muita porta e nenhuma se lhe abriu. Habilidoso, valeu-se de um embuste, e lá conseguiu o seu intento.

Parece retrato de nossos dias, de tantos de nós, um porta-a-porta requerendo emprego, requerendo pão (basta ver quantas mãos se nos estendem na travessia de um rua das cidades que habitamos), requerendo direitos do trabalho havido (e lembro-me dos pensionistas como eu), lembro-me dos que partem, desprezados em seu saber-fazer (entre os quais está um filho meu), lembro-me dos embustes, ao jeito do que praticou aquele escravo na democrática Atenas do seu tempo, da farsa com que no-los disfarçam no palco da “polis” que habitamos.

Um amigo (na rua):

Então, como vai isso?

Eu, tu, um outro (tantos de nós):

Vai-se vivendo…

Ah!… Porque não brilha para todos este sol de um Verão português?!…