URGUEIRAS, TOJEIRAS E LINHOS – O impulso dos sentidos

por PN | 2014.09.10 - 23:52

 
 
aquilino 1
 

 

 

 

O universo feminino na mundivivência da infância e adolescência de Amadeu Magalhães e Libório Barradas.

 

 

 

INTRODUÇÃO

Aceitando como legítima a premissa de que Aquilino Ribeiro se projecta autobiograficamente, com pertinência de espaços e actantes, medianamente ficcionados, em número significativo das suas obras, consensual é a existência de um políptico que deve ser assim considerado:

Iº – Cinco Réis de Gente (1948);

IIº – Uma Luz ao Longe (1948);

(a evidência sequencial destas duas tábuas está clarificada na informação final da primeira obra citada: “Acabou de se imprimir este romance complemento do livro há pouco publicado Cinco Réis de Gente, pelo Natal de 1948…”)

IIIº – A Via Sinuosa (1918);

IVº – Lápides Partidas (1945).

 

Admitimos como perspectiva naturalmente válida, a teoria de não restringir, limitando, a leitura de Aquilino à rebusca da trajectória de sua vida. Porém, se naquela vislumbramos esta, ignorá-la, é desbaratar um percurso feito pela memória vívida do escritor e ignorar uma realidade, que ao invés de se anacronizar, perdendo-se na ciclicidade temporal, é hoje, cada vez mais, revisitado corpus de quantos, pelo estudo ou por deleite, se comprazem nas páginas dos grandes autores universais, mesmo quando esse universo se cinge, pontualmente, às faldas da Nave e da Lapa beiroas.

Além disso, a presença autobiográfica, nestes títulos, não desmerece nem invalida, em bom rigor, os enfoques sobrejacentes que lhe queiramos acrescentar – científicos, didácticos, pedagógicos, zoológicos, botânicos, filológicos, históricos, filosóficos, antropológicos, etnológicos, etc. –  sendo até, mais uma prova inequívoca da actualidade, universalidade e pluralidade de conteúdos da obra aquiliniana.

 

I

Isto dito, passemos ao primeiro título, do qual tenho em posse uma 1ª edição com a seguinte dedicatória autografa: Ao (…) com um abraço oferece este livro da infância o AR, Lx, 1948. Sem datações diegéticas, nele perpassa o período que corresponderá a 1885 / 1895, decorrido na aldeia de Lomba de Baixo. Aquilino é ficcionado por Amadeu; sua mãe, Mariana do Rosário por Madalena; seu pai, Joaquim Francisco por Amílcar; seu irmão Melchior pelo Quinzinho. São a família Magalhães. Os anos da primeira infância decorrem plácidos na aldeia às espaldas da Serra da Lapa, com o Santuário e o Colégio a um fogacho de trabuco, menos de légua por andurriais, mas duro e penitente caminho de cruz a calcorrear amiúde num universo próximo. Amadeu é criado, mimado e apaparicado num círculo eminentemente feminino. Sua mãe, Madalena, acolitada das duas tias solteiras, Custódia e Ana, têm nele o ai-Jesus. Até mesmo a criada, Encarnação, dele faz brinquedo de plácidas brejeirices. Para a iniciação às primeiras letras estão as duas mestras, Teolinda e Letícia, que não lhe são adversas, principalmente a primeira, fazendo mais jus ao nome que a segunda. A nível da sua faixa etária, não faltam a Maria Loia, a Silvana, a Emilinha…

É nesta sincronia que Amadeu sente os primiciais impulsos e atracções pelo sexo feminino.

Em «Cinco Réis de Gente», a pulsão dos afectos do menino Amadeu Magalhães é algo confusa. As mulheres voejam em seu redor e votam-lhe um amor festivo, o que se dedica ao filho mais querido, o varãozinho da família. E Amadeu constata-o, ternamente, em relação a todas, nomeadamente em relação a Madalena: “Minha mãe queria-me com amor plenário.” (CRG, p. 76). Mas, em simultâneo, outros afectivos olhos pousa na vizinha pobre que o atrai, e no seu desmazelo indigente, o emociona: “Maria Loia, cujos cabelos fulvos e boca ridente douravam os meus sonhos.” (CRG, p. 44). Surgindo, entretanto, com antropónimo de “fauna”: “Uma das arvéolas, linda como uma aparição (…) ainda hoje me lembro com êxtase: Silvana!” (CRG, p.83)

No entremez, olha a sua primeira mestra, D. Teolinda, como um ganapo olha uma fada: “Mas quem eu amava era a mestra, um regalo de senhora (…) Eu contemplava a jovem mestra sempre que podia fazê-lo sem que ela reparasse. O seu rosto atraía-me, como um jardim de flores nunca visto.” (CRG, p. 99). E após, surge a Emilinha, irmã do Chico da Tapada, quando em divertimentos de estudantada, entre saque de ninhos e trolha rija uns nos outros, acontecia ao serem solicitados pelas raparigas, que eram afoitas, embrenharmo-nos em folguedos, para que ressurgia do fundo caliginoso da noite romana uma alma pagã pequenina, tão amável como blandiciosa. Tanto celebrávamos a Primavera, ajoujando uma das gaiatas com prímulas e pâmpanos e rodeando-a como faunos exultantes a uma das divas de Boticelli, como improvisávamos no Chão da Cruz uma estranha colónia esponsalícia. (CRG, p. 147).

Era então que os olhos garços da Loia dardejavam seu ciúme sobre Emília, ao ver que… Bem me afagava a minha mulherzinha que era meiga, rechonchuda, e uma gatinha a miar. (…) E a Emília devia ter a noção de que eu era o mais canhestro dos galantes, encoimando-me porventura de cobarde e de lanzudo, sem lhe passar pela cabeça, é claro, que eu gostasse mais de outra. (CRG, p. 148)

Porém, esta graciosa promiscuidade entre quase cândidos miúdos arrimava-se, por vezes, à tangente da permeabilidade física. Como sucede com a constante e mais que todas presente, Maria Loia, numa mimética fraseologia e gestos aos adultos copiada:

Dei-lhe um beliscão, chamando-lhe grande bêbada, e fugi, com ela à perna, de garra aberta para me arranhar. Um atrás do outro, metemo-nos pelas urgueiras. Agarrei-a e abracei-a. Foram os meus primeiros contactos amorosos. Encheu-me de orgulho ter ousado, embora se me secasse o céu-da-boca. (CRG, p. 176/7).

O atrevimento tempera-se com o medo. É um mundo novo, desconhecido, que freme e agita Amadeu, proporcionando-lhe sentir o langor que preludia a música carnal. Não deixa, em concurso, de ter olhos arregalados de muito ver (dote que o acompanha vida afora) para o brequefesta que chega à aldeia com a trupe de saltimbancos húngaros e seu vistoso urso Mariano. Perante a inúsita e festeira novidade, o olhar de Amadeu e sua admiração:

repartia-se entre a alimária e a pequena que tinha cabelos de oiro e um rosto puríssimo de serafim. (CRG, p. 262).

E quando a inconstante e nómada trupe parte, inesperadamente, Amadeu agarra na Loia e vão, adoidejados em seu encalço. Perdendo tino e norte na noite caída, rendidos ao sobressalto e ao cansaço da aventura, abrigam-se, como os animaizinhos perdidos entrevistos nas ninhadas:

Ajeitei o Barzabu por cima dos pés e passei o braço em torno da Maria Loia, que por sua vez passou o dela em torno do meu. Ficámos assim peito contra peito, e eu sentia na boca o travor do seu hálito levemente ácido, coalho, canela, fruta verde (CRG, p. 292).

E é neste entreacto aventureiro que se lhe ouve confessar:

Sempre te digo… Ouve, Maria Loia, ouve… Gosto muito de ti… (CRG, p. 293).

E por resposta obtida, não foram as palavras da franganita que o recompensaram, mas sim a exaltante anuência de um gesto:

Agora ia jurar que o braço dela me cingia o pescoço com força. Beijei-a. Pus-lhe um só beijo na testa. Ela permaneceu onde estava, sem tugir nem dar o mais pequeno sinal de assentimento ou enfado, o rosto junto do meu, os olhos de gata fitavam-me muito quietos, parados, como bugalhos nas ramalheiras. (CRG, p. 293).

E é já de baú aprontado para o Colégio da Lapa, que à despedida vem uma Loíta muda e triste, só de olhos e presença expressiva:

esguedelhada para não fugir ao estilo. Eu estimei tê-la ali, e um momento que a surpreendi à janela, passei-lhe o braço à volta do pescoço, meio chorão: — Maria Loia, não me esqueças que eu não te esqueço! (CRG, p. 315).

A promessa cumpriu-se e um meio século volvido, insensada do odor de um bem-querer nostálgico, aqui está, eternizada, nestas páginas, a pequena Vénus que levou no coração. Finda-se o romance, com este remate:

À saída da Portela passámos pela Maria Loia, que não conjecturei sequer o que estava já ali a fazer, pouco antes no pátio dos Sanhudos. Depois de olharmos um para o outro, dissemo-nos adeus com um aceno de cabeça. E ela ali ficou em estátua, de olhos em nós, até nos sumirmos no côncavo do caminho.(CRG, p. 318)

Haverá mais votivo sentir, deste modo quase só falado, numa mudez onde as palavras não colhem efeito, antes sim, a constância do acto esteiado no sentimento do gesto? Maria Loia sente o afecto com a rudeza do mundo rural, copiando os homens, que copiaram dos animais os gestos eternos, rituais inefáveis e desassombrados da equivocidade do palanfrório. A candura desta fidelidade prosseguirá em «Uma Luz ao Longe». E alcança mais adiante, julgamos crer, aceitando que se prolonga na Celidónia Violas, presente nas duas tábuas seguintes, estando Maria Loia para Celidónia Violas, como Amadeu Magalhães está para Libório Barradas. A diferença residindo no tempo da escrita. Se Aquilino escreve os dois, ora citados, primeiros romances em 1948, à sábia luz serena dos seus 63 anos, escreve «A Via Sinuosa», no fulgor ardente e próximo dos seus 33 anos. Nenhum douto lente em oftalmologia, ou pessoa em olhos entendida, aceitará dizer que a uma distância de três décadas, eles permanecem os mesmos. E se os olhos não são os mesmos, também o olhar as coisas e as pessoas, naturalmente, mudará. O que não muda é o ecoar remanescente de um passado marcante. Determinante, acrescentaríamos, para uma vida inteira. E retomando o fio, esta Maria Loia, ficará, apesar de tudo, aquela que:

permanecia abrigada por detrás da fecheleira, a ponta do nariz a branquejar e o esmalte da pupila luze que luze (…) silhueta perfilhada contra a umbreira, meia dentro, meia fora, como a lua no quarto minguante (…) desarranjada, ainda com a remela da noite nos olhos, supondo compatível o termo de arranjo com quem andava sempre de saia esgualdripada e umas guedelhas tão riças que nem um tojo em Maio (CRG, 125/126)

É necessário, não perdermos de vista que esta primeira sincronia vivencial de Amadeu se situará nos finais do século XIX, representando a infância na aldeia remota, interior, com um modo de vida suspenso no tempo, semelhante ao de há três ou quatro séculos recuados, de um menino, apesar de tudo, privilegiado. Lemos as palavras do prefácio dirigidas a seu amigo António Maria Monteiro Júnior, oriundo dos Alhais, Vila Nova de Paiva:

O actual romancito exprime o retorno que efectuei sobre esse passado, embora longínquo ainda inebriador.

Nascemos na mesma serra e soprou-nos o vento do mesmo quadrante. Dado que reconheças o rapazinho que aparece aqui a representar, permito-me presumir que um foro sapiente concede ao meu trabalho alvará de correr. (CRG, Prefº, p. 8)

Privilegiado, dizíamos, por três motivos:

1º Na ficção, filho de Amílcar Magalhães e Madalena, o pai,  recebedor, que é o equivalente ao tesoureiro actual, em seu agros do Codeçal despendendo horário de funcionário público, os ócios e o bem-querer dados à terra madre, é lugar-tenente do fidalgo mais poderoso da região, o liberal D. Nicéforo da Ula Monterroso Barbadela Fernandes, da Quinta do Amparo (este onomástico do lugar é também premonitório e foi-o buscar a uma capela particular existente ao Carregal, cujo orago é Nº S. do Amparo), D. Nicéforo é padrinho e  protector de Amadeu. A mãe, doméstica com posses, tem casa rural no Pátio dos Sanhudos, em Lomba de Baixo, propriedades, teres, haveres e serviçais: a Encarnação, o Monge, mais tarde a própria Maria Loia e seu irmão Manuel.

2º Privilegiado pelo mundo dos afectos que rodeia Amadeu. Afectos femininos prodigalizados pela mãe, Madalena, as tias Custódia e Ana e a criada Encarnação, trigueira, pestanuda e requebrada moçoila na casa desperta dos vinte e poucos anos. Acerca dela, em «Uma Luz ao Longe», Amadeu estranhando o seu comportamento, na ausência de auto-percepção – quando é expulso do Colégio da Lapa – de que já não é mais o mocito de dez anos, mas sim o “fauno incipiente, com as malícias a despontar”, facto do qual Encarnação está mais que cônscia, vê-se repelido nas brincadeiras que busca, “esfomeado de carícias”, na memória e rotina dos anos recém-idos guardadas, durante os quais:

Ela tinha-se mostrado para comigo, até à data, triplicemente Diana, serva irrepreensível, aciúmadora e complacente vaca. Ia com ela para o Codeçal, rebolava com ela na palha dos estábulos; a cada passo me enroscava a ela como a hera, palpando-lhe os seios, – as amoçadelas, chamam a esta brincalhotice animada – roçando o meu rosto, que era setinoso, ao seu que era rude mas rubicundo. (ULL, p. 273)

3º Privilegiado porque Amadeu é uma criança gentil, traquina, irrequieta, vivaz, amável, delicada, sensitiva, saudável, inteligente, sã e escorreita.

Estes três vectores confluem para propiciar uma infância desassombrada, farta e feliz. E é este bucólico e jovial viver, quase adâmico, de mimos feito, que serve de total contraponto à intriga que se desenrola em «Uma Luz ao Longe».

 

II

Amadeu vai para o Colégio da Lapa. Ingressa num mundo completamente novo – se bem que ao alcance do lar de um chouto da égua Inácia – hostil, despojado de afectos, pleno de rigores e disciplina, terços e palmatoadas, alguma fome e farto frio na invernia. A escolástica jesuítica vigorante é uma matriz fundamental para a formação e deformação dos jovens discípulos, feita de um quase maniqueísmo entre o bom Pe. Leonel e o mau Pe. Mourão; o justo e sábio Pe. Santos, afável e benigno franciscano do vizinho Convento da Fraga, homem ameno, senhor duma voz doce, quase melódica, instrutor bondoso das verdades transcendentes e o injusto e ignaro, hipócrita, falso e mau prefeito Garrafão Saraiva, ingrato vizinho protegido dos pais de Amadeu, que por tudo e por nada se vingava de alguns engulhos mal tragados nas tropelias da rapaziada, aos ninhos e à fruta, capitaneados por Amadeu, no território, tão longe e tão distante, do seu paraíso perdido. E voltando ao nosso âmbito, o das primícias amorosas de Amadeu e Libório, aí vai aquele, chegado ao teso do planalto da Lapa, na Inácia, acolitado do Monge, topa-a-tudo, até de arrieiro nas suas já trôpegas pernas, quando ouve uma voz sibilada do cabo do silêncio, que nele surte enleiado efeito:

Dentro de breve, possuía-me todo, assim como uma carícia feminina que me afagasse e envolvesse (…) devia à certa ser rapariga. E bonita igualmente. (…) Com a sua ternura alada, a sua blandícia excitante, quase lenocInio, era o amor, o ignoto mas certo amor (…) que me acenava (…) era o Diabo a tentar-me (…) uma espécie de música carnal em que pela primeira vez se banhavam os meus sentidos (…) Quando os derradeiros ecos se extinguiram no ar sereno (…) exalava-se um recôndito mas pertinaz langor. (ULL, p. 17/18).

Essa “flâmula sonora desfraldando-se”, canto de sereia, feiticeira, mais o é de cisne. É o canto último que entoa a despedida, por três anos, da maviosa e amável casa de afectos, que o inexorável trupe-trupe da horsa rabona deixa para trás. O narrador, neste momento místico de quase exaltação, em catálise, questiona-se inquieto:

A vida era uma corrida para a morte, e apenas o amor, na condição de moderador plástico, nos daria a ilusão de pessoalidade. Quem é que eu ia amar com os poros todos da carne e as veras todas da alma? (ULL, p.19).

E estranhamente, numa invulgar persistência, desemboca Amadeu no arco do passadiço que liga a residência ao santuário, e logo vê, atónito, perpassar por eles:

Cabelo ao vento, sentada como uma amazona na égua em pêlo do Procurador, a Maria Loia. Raio de celenisca, deixara-a há menos de duas horas nos altos da Portela e já ali estava a picar com os calcanhares febris a poldra fogosa! Lançou-me um olhar intencional, meio amoroso, meio travesso (…) que me quiseram dizer seus olhos garços? (ULL, p. 21).

E a Maria Loia, a seu modo teimoso de não querer perder de vista Amadeu, no mais eloquente discurso dos ingénuos sentidos, monta e voa… de tal forma o fazendo que é centaura, porque…

no campo pode não se aprender a ler (…) pode não se encarreirar o padre-nosso, nem distinguir a mão direita da mão esquerda; lá a arte da gineta vem tão natural e espontânea como os dentes (ULL, p. 147).

A picar com os calcanhares febris a poldra fogosa… duas poldritas, no fundo, sangue fervente a tumultuar, a febre do corpo a servir-lhe de esporim no pé descalço, a Loíta insiste em despedir-se do seu homenzinho, de forma intempestiva, selvagem, intuitiva, a querer pousar o fugaz olhar verde azulado naquele que está, exactamente, diante da portaria soturna da casa que o vai fechar do mundo, com a sua

“frieza torva e imponente que se filtrava das altas paredes (e) encalia a alma para o idílio” (ULL, p.21).

Neste contexto tão ancestralmente primário da expressão do sentir, o único paralelo existente, em termos metafóricos de fidelidade, encontra-se em Barzabu, o canito de Amadeu, atravessado de séter e rafeiro, “plebeu mas fino”, esse Argos das serranias da Lapa, que não quer, a todo o transe, separar-se de seu dono. Só a brutalidade pontapeada pelo soez Garrafão Saraiva e o gesto terrenho do Monge no seu afago caricioso, levando-o ao colo urdem o afastamento:

aquele pontapé senti-o como se mo tivesse dado a mim; aquele olhar nunca mais o esquecerei nem quando as abusões do mundo me tenham gelado a alma. Sofrer sem ter a coragem de expandir o sofrimento é cobardia. Para que serve o génio do homem?! Ah, eu devia ter recebido no meu pobre Barzabu a primeira lição de desumanidade! (…) Arrasaram-se-me os olhos de lágrimas. Era aquele o meu único e grande amigo? O cãozinho não admitia por nada desta vida que eu ali ficasse sem ele. Tinha as suas razões. Realmente não valia mais que me fosse embora? Que me fizesse antes um camponês, um cavador como era aquele Monge, como seria o Loio, e vida e morte, e o amor, fiel da vida e da morte, não valiam o mesmo numa enxerga de palha ou num colchão de lã, com uma mulher rescendendo à terra ou uma madama perfumada…?! (…) O prefeito Sr. Saraiva empurrou-me para dentro do torvo moloque de granito e de sombra com uma topetada enérgica da cabeça. Vi ainda o meu cachorrinho preso por um cordel e, ao ser arrastado, saltar, especar-se nas mãos, ganir, morder, cabeça virada para trás, na porfia amorosa de não querer apartar-se de mim.” (ULL, pp. 24/25).

E “a mulher rescendendo à terra” chegará, como a “madama perfumada”, em breve, pelas páginas de «A Via Sinuosa», com a Ana Poteborneo e a fidalga Estefânia Malafaia. Mas tudo tem seu tempo, que passo a passo galgaremos. Barzabu e Maria Loia, a nível da expressão do desgosto da separação não têm par. Acresce-se-lhe a presciência da Loíta, de que é ali que vai perder o seu terno e rude afecto, no dizer de Amadeu: “a minha Loíta… sim, o meu amorzinho verdadeiro (…)

Mas Maria Loia, fraga inquebrantável, urgueira de torga funda, não desiste do seu Amadeu. Sente saudades. E no seu entender, puro e desprovido das tergiversações da urbanidade hipócrita, quem ama quer ver o amado. Não era assim, já nas Cantigas de Amigo? A romaria não ofertava na devoção o pretexto para às portas da ermida, profana, a saudade, ecoar arcas afora dos peitos? E é nas vésperas do Espírito Santo, dia de comunhão geral, que o procura, levando no bolso do seu aventalzinho de pobre chita, uma rolinha nova, que lhe vai meter na mão. Este delicado e singelo acto é prenhe de significados. A rolinha nova é Maria Loia, que assim se dá. A rolinha nova é a liberdade, que assim se transmite. A rolinha nova é a esperança, que assim se declara. A Loia é, naquele contexto de pré-comunhão espiritual, a comunhão dos afectos, o demoniozinho loiro a dar-se e a deixar recado curto e assertivo, por ser mais de actos que dada às palavras vãs: “Avia-te a estudar para te vires embora.” (ULL, p. 90). É ela a que chega no momento em que:

estava eu prostrado, esforçando-me por tornar o meu peito, mais que sarça ardente (…) quando assomou contra as grades a figura sorridente da Maria Loia. Ela, ali, naquela ocasião, o mesmo era que reconhecê-la como emissária do diabo (ULL, p. 87)

Em Amadeu, o impulso dos sentidos e a atracção pelo feminino é persistente. Já é arreeiro Manuel Loio, irmão de Maria, porque o velho criado Monge estava “atado de reumático” (a título de curiosidade, hoje, o presidente da junta de freguesia da Quintela e da Lapa é o sr. Abel Monge); a velha e temperamental horsa rabona, a Inácia, parideira todos os anos pela feira de Trancoso, para ajudar ao sustento da casa, morre, não sem rija luta, às fauces de uma alcateia, nas leiras do Codeçal, por um fim de tarde esquecida; Manuel vem à Lapa buscar Amadeu para passar o Natal no lar, traz novo cavalinho “fouveiro e arrifador”, é o Manjerico, comprado ao Luís França. Na bifurcação dos caminhos para as terras do Távora e para as aldeias altas da Nave, o poldrinho tomou-se repentino de freio aos dentes e desembestou feito Pégaso, ao cheiro e memória da madre manjedoura. São páginas da rijeza e virilidade já muito assumidas de Amadeu, que nem perde a tramontana, nem se deixa desfeitear, na sua ligeireza de quatro alqueires, pelas quatro centenas de quilos em desbocada fuga. Chegado ao patim do França, com a escuridão e a neve a mantejá-lo, recebe voz de acolhimento, e é quando dá de olhos na filha do anfitrião, de sua graça Adelaide:

rapariga de lenço vermelho e olhos grandes, cheios de mistério (…) já mamudinha (…) olhos pretos e vagarosos, ledos como a noite de presépio (…) nunca mais os vi em real presença (…) mas do fundo do espaço, a rirem-se para mim (…) jamais deixei de os ver!” (ULL, p. 154)

Amadeu e Libório nunca são imunes à graciosidade feminina. Uns olhos pestanudos; um corpo viçoso; um jarrete nu; uma cintura pura e flexível; uns seios palpadiços; um hálito com auras do monte; um requebro mais pingado de anca; um menear descuidado de quadris; uma anca de gingado flexível de fera; umas coxas maciças e tentadoras; uns lábios túrgidos e rubros… são setas de volubilidade voluptuosa que traspassam esse fauno incipiente, de nervo aceso e luxúria ateada… é a natureza esplêndida no seu vigor, na sua força, na sua harmonia, na sua cor. E porém, em «Uma Luz ao Longe», Amadeu passa incólume às espaldas do desejo masculino à solta, intramuros do “inóspito pedrigal” do Colégio, e dele sai, se bem que expulso, de corpo íntegro:

A estrada que nos havia de conduzir ao Paraíso, além de estreita, costeava bem rente aos precipícios do Inferno. Aos rapazes na adolescência tudo servia de pretexto para se roçarem aos pequenos, motetes, atracadelas felinas, trejeitos na vasta escala délico-doce. De permeio, com estas arcas encoiradas, era notório que se dissimulavam pequenos e baratos amorios (…) Como se distinguiria a alvinitente castidade sem esta espuma cor-de-rosa da luxúria? (ULL, p. 158)

Passam os meses. Há festividades na Lapa. São as solenidades do Espírito Santo. Representa-se uma teatrada regida pelo Pe. Trovisqueira – “o mais didascálico dos três” padres – e no dia, vieram todos os familiares e convidados dos pensionistas:

As lajes da Lapa reboaram ao estrépito de quantos cavalicoques, mulas e sendeiros comiam palha na vasta comarca (ULL, p. 167);

Lá estava a Emilinha mais gorducha e a tomar consciência de mulher (…) a Silvana de Barros. A propender para a mulherzinha. Na viragem da infância, já lhe não encontrei as madeixas pelas costas, pequenas, mas tão loiras que lembravam amentilhas de castanheiro. Uma penugem de maracotão revestia-lhe o canto do lábio que se me afigurou voluptuoso (…) a Silvana de amanhã apareceu-me assim uma burguesa acabada, com seios planturosos como uma vaca do Nilo. (…) A minha Silvaninha (…) Com ela e com a Emilinha comecei a compreender a mulher: instantaneidade, água limpa que vai, se a deixam, matar a sede a quem a tem, aura ligeira pouco mais que múrmura. (ULL, pp. 168 a 171)

Passante adiante o episódio quase dantesco com a Mimosa, “a Vénus nómada”, a quem os mais velhos, clandestinamente, na noite, quiseram comprar favores por a três cinco tostões, e que Amadeu, interventor, só curioso cúmplice da fuga, toma, ainda na sua candura, como “crime abominável contra a minha humanidade”, e impede, gritando na noite: “Acudam”, que o Pires Pau-Ferro, o Rosas e o Paredes se cometam com a “rameira rasca (…) podriqueira e odre de gálico.”

Até aqui a aprendizagem do amor físico ficou-se pela teoria e fairo. A perspicácia de Amadeu congeminou e adivinhou o resto. Fecham-se dois painéis do políptico…

 

III

…Restam os dois seguintes, «A Via Sinuosa» e «Lápides Partidas», ficando este último para análise, noutra ocasião. Os próprios títulos perdem a candura e a mística dos anteriores. Algo se prenuncia neles de desconcerto ou descalabro. No fundo, a vida, nos seus ziguezagues, vicissitudes, desconchavos e mais que duras aprendizagens. Estas quatro tábuas são uma gradação crescente de um destino cujas forças foram suficientemente desafiadas, até ao dealbar de 1908, condutor de Aquilino ao seu 1º exílio, em Paris, que durará seis anos. A este tempo já Aquilino vive em Soutosa. E dá-nos como topos de «A Via Sinuosa», o Convento de São Francisco de Caria, no concelho de Moimenta da Beira. Mas não, nos seus olhos enxutos, observadores e saudosos, está todo o bem trilhado e conhecido como palma da sua mão, Convento da Nossa Senhora de Assunção, de Tabosa, que foi de Freiras Recolectas, o 12º e último dos conventos cistercienses em Portugal, e apesar de em «Geografia Sentimental» (p. 76, da 3ª ed) referir:

Dentro de breve, para memória de S. Francisco de Caria não restarão mais que as páginas da Via Sinuosa, que tem ali o seu principal teatro (…) as apuradíssimas descrições só desnortam quem não conhece um nem outro, por dentro, nos seus recônditos meandros, e são artifícios de autor consabido que, se por um lado admite que “a minha obra sou eu próprio” (se bem que mais no contexto de plurais estéticas literárias), por outro se rebela por tanto e por todo o lado, muito verem seu “eu”. Assim, o Aquilino, prestidigitador e mágico, recobre espaços com espaços, pessoas com pessoas, nessa miscibilidade entretecendo ficção e realidade, tornando-se um ferreiro hábil, em sua forja dando forma ao real, que transmuta na ilusão aqui e além mais colorida. Um exemplo: Carregal, terra onde nasceu, aparece como Lomba de Baixo, desvelando-se em «Andam faunos pelos bosques», quando escreve: “De nascente, a escalar a serra da Lapa ou as lombas do Carregal, rompiam as populações ribeirinhas do Távora.” Façam-se as possíveis deduções…

Uma nota acerca deste romance: Aquilino faz dele um esboço preparatório, como era, por vezes, de seu uso, e praticou, por exemplo, em«Filhas da Babilónia», «Humildade Gloriosa», etc. Publicou-o previamente na revista «Atlântida», dirigida pelo seu amigo João de Barros, Ano I, Nº 3 de 15 de Janeiro de 1916, com o título de «A Adolescencia mystica de Liborio Patarôxa». Miguel Malafaia é aí o conselheiro de estado, visconde de Valjoaninho. Aqui, como nas suas cinco versões do conto «Valeroso Milagre» (1921 e sgts.), o remaniement leva o corpo do texto inicial a distanciar-se do final, numa prática de insatisfeita concretização e perfeccionismo, de frequente uso no escritor.

Em «A Via Sinuosa», num curtíssimo e discreto remate, de folha final, informa, desta sequência de publicações:

  1. A Via Sinuosa
  2. Lápides Partidas
  3. Sob o Pendão Bárbaro

Ou seja, que estamos perante um tríptico. O que efectivamente não ocorre, pois este último título não será escrito, ou se o foi, nas contínuas reformulações que Aquilino faz às suas obras, arvorou-se com outro nome, o que cremos não ser a realidade. Ainda assim, está fora de conjectura pormos em causa que estes dois primeiros títulos são sequenciais, mas apenas na autobiografia, que não na diacronia autoral, pois se o primeiro vê prelo em 1918, o segundo apenas o verá em 1945, no entremeio publicando trinta títulos. Conjecturar sobre estas arrumações tão pessoais é escrever uma novela. Arte para a qual não estamos capacitados. E começando pelo título «A Via Sinuosa», logo se nos depara informante de um trilhar das agruras da vida, a montante do círculo protector dos afectos familiares, que e aqui, na figura do pai, agora Luís Barradas, e da mãe, Dª Maria José Custódio, nada têm a ver com seus antecessores Amílcar e Dª Madalena Magalhães. Luís é um figurante, todo ele negativo, Maria José, uma beata de “feitio descaroável”, em crónico litígio com Libório, nem se alteia a protagonista. O único afecto sólido é o do bom mestre Padre Ambrósio, figura tão paterna, quão filial é a dedicatória no frontispício do romance:

À memória de meu pai, Joaquim Francisco Ribeiro.

Aquilino, quando foi questionado, em entrevista radiofónica, dada a Igrejas Caeiro, a 19 de Julho de 1957, sobre qual a sua obra preferida dentre a meia grosa escrita, não titubeou para esclarecer tratar-se de «A Via Sinuosa».Esta obra é fulcral, central, dramática e intensa. É a obra da mutação entre o mundo rural e o urbano, o rusticismo aldeão e a burguesia/aristocracia provinciana. É a passagem do espaço fechado da aldeia para o mundo vetusto, mas já citadino de Lamego, o nascimento do revolucionário, já apercebido no inconformado Amadeu. Aqui, Aquilino dá-nos a sua visão do mundo, e nas palavras de Libório Barradas, protagonista-narrador, a concepção da errância que está subjacente à vida, eivada de rupturas, tão claramente expressa no seu semanticamente negativo excipit:

E pela terra rasa de neve, sem rumo, esclarecida por um vago horizonte, marchei, marchei, costas voltadas implacavelmente ao que ali ficava. (AVS, p. 337).

Mas é, determinantemente, a obra onde, pujante, irradia toda a vitalidade erótica de Libório Barradas. E eis aqui, a ponta que retomamos, só com um pormenor acrescido, Barradas é o nome do sino da Igreja do Espírito Santo, no Carregal, para lá levado, na turbulência dos tempos, do Convento de São Francisco, de Caria, ou apenas do Convento do Paaço

Este romance, no tocante às relações femininas que Libório entretece, poderia ser visto como uma axial Rosa dos Ventos, tendo no Norte a Celidónia Violas, a Oeste a primeira boieira e a Maria Folexa, a Este a Ana Poteborneo e a Sul a Estefânia Malafaia. Tal designação terá o relevo que a tolerância lhe conceder. Se os pontos cardeais horizontais são, nesta minha óptica, tão efémeros como a água e o ar, o nascente e o poente, todos os dias renovados, na linha vertical situávamos o Norte da Terra e da orientação e o Sul, lugar do fogo e da perdição. E assim, entendemos ser a fortuita aparição da primeira pastora, uma visão genesíaca onde surge como Eva, e Libório é ainda um Adão escondido:

A meus pés, a menos de tiro, passava a ribeira sobre areal e terras de paul, um cabelo de água com a estiagem, onde as rolas vinham espenujar-se ao sol poente. (…) De longe em longe uma pastora vinha para ali apascentar as vacas, e eu muito lhe admirava a cintura pura flexível e o jarrete nu sob a saia de grande roda. Não pressentindo vivalma por aquele descampado, todo o seu instinto animal se lançava à franca na natureza. Acocorando-se à beira da água, abria a saia e o colete e espulgava-se. Seu corpo era viçoso e bem entroncado, da cor do trigo quando está na eira. Catava-se, coçava-se, e com curiosidade ingénua punha-se depois a arrepelar o velo loiro e os mamilos vermelhos dos seios. E, núbil e desejosa, eu sentia-a já a embalar um berço, ao som magoado da Rosa-tirana. As vacas, tasquinhando a erva rapada até o sabugo, derramavam das campainhas lágrimas, guinadas de prata; ela, desatando as negras tranças, com um caco de pente amanhava o cabelo. Outras vezes, de saia arregaçada até às virilhas, ia chapinhando pela corrente fora atrás dos peixinhos. Maciças e tentadoras eram as coxas, mas os requebros inocentes como de pomba e descuidados como de ninfa. E porque assim era, porque seu jeito se fundia na sinceridade da natureza, minha mente vibrava daquelas inefáveis delícias do anjo, ao surpreender no toucador à Virgem Maria.

No pasto pelado, sem detença de maior, as vacas moscavam; a boieira despedia atrás delas, e só então a luxúria se me ateava nos nervos, acesos pelo lume vermelho do lenço vermelho a esvoaçar. (AVS, pp.208/9)

Poucas páginas à frente, como se estas fossem preparatórias, graduais, de um processo que passa de um mero voyeurisme acidental, a uma tentativa de concretização falhada, temos, pouco após, “uma tarde de sol descompassado” e o surgimento da Maria Folexa,

que não tendo leira nem beira, andava ao rebusco da lenha carivelha pelas tapadas e das pinhas secas pelas matas. (…) Vinha da chã um rescaldo de queimada, tornando mais afogadiça a sombra dos pinheiros. A Folexa meneava-se toda descuidosa a amanhar o molho, mas porque me conhecesse de S. Francisco, onde ia às vezes, a rogo, lavar as alfaias brancas da igreja, de pronto sossegou quando deu de cara comigo.

— Então as rolinhas caem? – disse ela, num sorriso muito lampeiro, acercando-se.

E plantou-se diante de mim, boquiaberta, a admirar meu arranjo e esquipação. Estava descalça, e por baixo da saia de burel eu via-lhe a perna nua, mordida do sol e castigado do mato. Tinha uma patorra larga, cavalar, mas o porte não era desairoso. A tromba, porém, era de bruta, com o nariz esparramado, a boca muito fendida, pescoço chaveiro e pinta de cobra negra. Um magarefe da vila tinha-a montado, fazendo-lhe um filho que morrera das bexigas. Depois fora de quem a cobiçava, de padre e de leigo.

Como era uma pasmada, puxou logo ali paleio comigo, curiosa de saber quanta caça matava por dia e porque vinha para ali tão longe do convento. E lentamente, manso, manso, depois impetuoso, o desejo ateou-se em mim. (…) Os raios azuis de suas pupilas banhavam meus olhos torvados; travei-lhe do braço e ela, sem fazer força para desprender-se, exclamou baixinho:

— Ai! deixe-me!

Terçando-a  então pela ilharga, tombei-a de costas. Soltou-se o avental e ela ficou estatelada no chão, de papo muito grave e olhos imóveis, fitos em mim. Lancei-me sobre ela, quando se pôs a espadanar com as pernas nuas, grossas e desconformes como caudas de peixe. E aquele jeito e a compostura sombria do rosto causaram-me tal confusão que, aparvalhadamente, levantei-me. Ela ergueu-se, também, num salto ágil de cabra e, concertando a saia e espenujando-se toda, cacarejou:

— Sempre está um mau!

Depois que a mateira partiu, compreendi, por associação dos outros animais, que é pecha de fêmea ser esquiva para dar aciume ao macho. A Maria Folexa não voltou, e nas horas lentas de lasseira, a imagem dela, por entre os troncos, fazia-me motetes chulos de magana. (AVS, pp. 217/8/9)

Pregnantes de erotismo, estas páginas que não cuidámos em comprimir, são nítida imagem da animalidade e naturalidade deste desejo e cenário. São-no também de uma frustração de intentos, de um percurso erótico autodidacta, sem mestras, que não os modelares seres da natureza, os animais, em geral. Decerto, não ouviu Libório os conselhos rascoeiros do velho Cláudio a Inácio Mioma, nas «Terras do Demo», que se explica assim:

a mulher nasceu para ficar por baixo, o homem para ficar por riba, que é, como quem diz, o homem tem de ser forte ela fraca. Eu cá não lhes perguntava: Quereis? Tombava-as de cima de uma tojeira ou sobre a enxerga e ajustava com elas as contas que nossa mãe Eva nos ficou a dever depois de engolir a maçã. Esperneavam, gritavam, é de lei em tais cavalarias. Ao cabo de duas esticadelas, ficavam mudas e depestanas descidas a rilhar os dentes de gozo. Todo o resto é fábula. (TD, p. 212, 1ª ed.).

Mas se não o ouviu, aprendeu-o às suas custas. E doravante, prevenido para estas arteirices de fêmea desejosa, Libório está apto a prestar provas. E elas concretizar-se-ão em breve, com a Ana Poteborneo, nos povos circunvizinhos do Arcozelo ou do Mileu, durante os serões das Barrocas e da tia Songa, escoados no estábulos das vacas, quentes da palha e dos bafos misturados de bestas e humanos, ao som da viola do Caria e da petisca improvisada de um cantador:

E dlam-dlam, dlam-dlim; dlam-dlim, dlim-dlom, as danças rodopiavam. Uma atmosfera peganhosa, feita de suor, vapores de excremento, hálitos irrenovados tornava mais sensual a chula sensual. Depunha a um canto o brejoeiro e, na muda expectação de todos, punha-me a aparar o fado com a Ana Poteborneo, moça rija e desenxovalhada. E noite alta, já os galos tinham cantado pelos poleiros, saíamos do serão das Barrocas, pela quintã escura, abraçadinhos e cachondos. Fui numa dessas largadas que a Ana me deu um beijo, rápido, imprevisto, que não me deixou pregar olho toda a noite. Aguardei; e num dia que, por estar perto a alva, se decidiu pernoitar no serão e apagar a luz, ciosa mas temente, esquiva mas intimidada de abocanhar minha porfia, a Ana entregou-se. E foi aquele um abraço em que se polarizou toda a minha continência de donzel.

Dessa hora em diante a Ana Poteborneo, minha prazenteira mestra de amor, recebeu-me algumas vezes em sua cama de bancos, entre mantas de burel. (…) No campo, uma ocasião ainda, a Ana abriu-me os braços entre duas tojeiras, ao abrigo de uma giesta. (…)

Uma luxúria impetuosa, insatisfeita, estuava em meu ser até esparrinhar sobre Celidónia, a minha coelhinha loura. Mas a reserva dilatada em que medrara este amor continha-me. Celidónia fica Celidónia. (AVS, pp. 245/6)

Desta forma, exposta a iniciação de Libório às artes de Eros, cumpre agora seguirmos a linha vertical atrás referida, em cujos pólos absolutamente antagónicos encontramos a Celidónia Violas, uma continuação de Maria Loia, uma persistente recordação da qual Aquilino não quer afastar-se nem perderá da memória; e Estefânia Malafaia, a fidalga do Solar de Santa Maria das Águias (a Santa Maria de Aquilino?), lá para as bandas do Arcozelo, filha de um fidalgo arruinado e consorte de Miguel Baila Taralhão Morrafóra e Galafura de Malafaia, abastado aristocrata, deputado às Cortes, muito ausente pela capital, deixando sua esposa só e isolada na quinta da família. Estefânia, que fora educada no Sacré Coeur, em Paris, tendo vivido dois anos em Viena de Áustria, ao tempo de seu marido aí ser ministro do Reino, era uma ave rara de  deslumbrante plumagem aos olhos ávidos de Libório. Em contraponto, Celidónia continua a ser a moçoila pobre, filha dos lazarentos e parasitas Violas que vegetam, por favor, cerca adentro do mosteiro morto. Gente sem poiso, corrida a fama de pé lesto e mão leve, viviam na que fora casa da tulha, eram fartos de sol e frio, casa, água e lenha que apodrecia pelas tapadas. Mas aos olhos de Libório, Celidónia tem:

a face banhada de luz, aquela face em que primeiramente meus olhos conheceram a misteriosa ordenação dos sexos.

A Celidónia era uma franganita loira, de tez ruiva transparente, fino nariz de provocar. O seu jarrete era delgado e a anca flexível. Nunca trocáramos um beijo, nunca ela pudera suportar o meu braço no seu braço e, no recato das sombras monacais, chamava-lhe minha e ela, de olhos no chão, mal bolindo os lábios, mais cândida que a Virgem quando nos painéis primitivos aceita a mão de S. José, respondia e tu és meu! (AVS, p. 13).

Na sua inocência, juntam os afectos de suas carências, num micro espaço onde voejam como tentilhões, acamaradando, cientes de que se hão-de amar um dia. Celidónia, como Loia, tem os olhos garços, de um verde azulado, cabelos loiros e os dentes alvos de cabrita. Usa saiotes sanguíneos, da cor “dos poentes, das cerejas e de meia terra de Portugal.” Por seu turno, Libório, não é ainda senão “uma alma fresca de criança, carregada de brocados de uma idade morta.” (AVS, p. 37). Entretanto, já é tempo de Libório ir prosseguir estudos para a cidade de Lamego, por ausência de posses impedido de se matricular no Colégio Roseira, vai para o Liceu – na realidade, Aquilino frequentou com êxito a afamada instituição do Pe. Alfredo, nela fazendo os seus estudos preparatórios, de 5 de Outubro de 1900, até Junho de 1902, data em que segue para Viseu, por quatro meses, a estudar filosofia com António Alves Martins, o poeta e sobrinho do célebre Bispo Alves Martins. E esta mudança é determinante para a sua mundivisão. É a cidade por oposição à rusticidade aldeã, a abrir os horizontes ao jovem Libório. Nesta fase, ainda Libório pensa ser sacerdote e a castidade é um valor supremo. E numa reflexão premonitória, promete à sua Madrinha, a Virgem Maria:

ia ser livre na cidade, e afiançava-lhe que nela seria ainda mais cativo que na cerca dolente dos franciscanos; deparar-se-me-ia a hora de ver, sentir, tocar a mulher, e jurava-lhe ser casto; a geração, que estava em marcha, convidar-me-ia à ociosidade, segundo meu bom mestre, e eu protestava ser diligente; e quando a meus ouvidos soassem as teorias demolidoras da ordem social e moral, sustentar-me-ia conservador segundo a grei e a lei antiga da minha pátria.” (AVS, p.85).

Como constatamos, esta cartilha de benévolas intenções, este rol de princípios que contratualiza com sua sagrada Madrinha é integralmente incumprido. Na cidade dará azo a seus instintos, culminando-os com a prisão por manifestação e arruaça contra o clero, diante do próprio seminário. Também, tal não o impede de trazer Celidónia no coração, é a linha em branco “na escritura rígida” das intenções. Celidónia, ela própria mudando:

Seu corpo tomara linhas de puberdade; não era já o meu tenro teixo ruivo a que candidamente me encostava; era uma mulherzinha de olhos em flor e peitos a pojar. (AVS, pp.85/6).

Ou então,

um tenro teixo ruivo, de cabeleira vaporosa e haste esbelta (…) uma pupila mimosa do pretérito e uma obra prima de feminilidade (…) uma necessidade de pureza como o arminho.

Libório admitindo:

Celidónia seria o primeiro torneio no meu romper de homem. (AVS, pp. 104/5).

E é por ela que em suas preces roga a Deus:

que em sua sabedoria infinita encontrasse a fórmula de, sem quebra de santidade, Celidónia ser minha e eu de Celidónia. Ele, que soubera descobrir um termo de conciliação entre um ventre que gerou e um ventre que permaneceu virgem, podia muito bem ordenar que Celidónia me fosse entregue, ficando eu o íntegro afilhado da Virgem Maria. Eu não desejava Celidónia como presa incondicional de senhor; cobiçava-a muito em espírito, em carne o bastante para poder tocar suas mãos, roçar sua pele, beijar, talvez, seus lábios; ter a alegria suprema do possuidor sem possui-la. (AVS, p. 113)

No entremez os Violas querem casar Celidónia com o compincha do filho Zé, o Rolim. Ela não se conforma e foge dele como da sarna. Pe. Ambrósio acha-a uma mulher sagaz. Afinal o Rolim é um facínora que matara e roubara, o que, de imediato, assim dado a saber pelo bom Mestre, em boa hora, põe fim ao intento. Celidónia permanece senhora de sua liberdade. Porém, Libório já anda enfeitiçado com a figura de Estefânia Malafaia e, em suas reflexões, a dualidade entre as realidades oferece-se-lhe com uma nitidez ofuscante:

deparava-se-me Celidónia; mas já não era esta a rapariguinha-fragrante teixo-ruivo, na minha tebaida a única e incomparável. Era a filha dos Violas, descalça, crestada do sol, de dedos sujos, embora de unhas cor de rosa, assoando-se à dobra do avental. A sombra soberba de Dª Estefânia, deitando sobre ela, apoucara-a em sua formosura selvagem. Encantadora ficava, mas sem sal, graciosa mas sem requebro. (AVS, p. 170).

E doravante, este apoucamento é constante. Que poderá contrapôr Celidónia a Estefânia? A pobreza e a riqueza, a indigência e o luxo, a criadagem e a serviçal, a nobreza senhorial e a rasteirinha plebeia, a luxúria consentida e a pureza mantida… Celidónia, que foi a companheira da solidão, no Convento, deixou de ser alternativa única e inocente para um Libório que conheceu a cidade; frequentou (saindo puro) a casa da Micas Correia, monumento de Lamego onde reunia o clero, a nobreza e o regimento 9, e se rasgava a inocência da juventude; foi preso como revolucionário; começa a privar com fidalgas a quem apetece… Este já sinuoso e acidentado percurso, porém, tem horas mortas. E nelas, nas “horas vadias” é a memória de Celidónia que as “perfuma”, ainda. E nos seus devaneios, é a ela que afaga “em seu instinto luminoso e arisco” e é a ela que beija. É a carne dela que crê não ficar inerte à libertação dos fluidos voluptuosos que a sua carne exala. Mas… já não cobiça uma sem lograr outra. E este é outro dos dilemas que povoa a cabeça de Libório, pondo em causa todas as convicções até aí granjeadas. Entrementes, os seus estudos em Lamego chegam ao fim, com aprovação. Vai agradecer a sua Madrinha, ao alto, no Santuário dos Remédios e perante ela ajoelhado, visiona um seio branco de Estefânia e sob um lenço vermelho de ramagens, é a face crestada de Celidónia que vê… De contínuo, no regresso ao velho convento, nesse plácido micro cosmos, Libório reencontra sempre Celidónia. Busca-a à noite em sua humilde casa e de compita com os Violas, é no banco, à lareira, que sente contra sua perna “seu corpo quente e confiado”. É nesse lar pobre que se acha ditoso, com os seus olhos encontrando os de Celidónia, trocando “uma longa palestra de amor” (…) “gozando o joelho de Celidónia amparado ao meu joelho” (AVS, pp. 231/2). Repudiado de casa, onde sua mãe, Maria José, lhe é oponente, a mais das vezes, refugiando-se, até para dormir, na velha biblioteca, onde a preguicieira dos frades lhe servia de “catre e de armário”, os serões em casa dos Violas tornam-se um hábito. À noite, depois de recolhidos os pais de Celidónia, quedam-se os dois num doce enleio, onde,

Celidónia, já nada esquiva, vinha a um aceno meu sentar-se no banco em que eu me sentava, e, como era acanhado, nossas carnes fundiam-se. Passava-lhe o braço na cintura e um pouco pálida, os olhos mais lentos, sua boca submissa cedia à minha boca. Não dizíamos: amo-te! Celidónia tinha a aversão das palavras e um pudor de virgem selvagem em assoalhar sentimentos. Mas entre os frémitos da desejosa, distinguia a ternura inefável. Silenciosa, delicada, instintiva, Celidónia era minha! Seria minha! E partia dali, inundado de uma consolação altiva que branqueava a noite, e depunha em minha alma uma força inesgotável de optimismo para renhir o mundo todo. (AVS, p.236)

Há nesta obra, em desmesura, uma dualidade fundamental entre a educação profundamente religiosa de Libório, o espaço sagrado que ele frequenta, e um mundo profano que o rodeia gerador de um imaginário confuso, aturdido com o eventual pecado da carne, que não cessa de o atormentar. Há uma ideia repressiva de Eros, com absurdos votos de castidade que se auto-impõe e uma natureza circundante onde o desejo se manifesta espontâneo e em todas as suas concretizações. Tudo caldeado numa noção medieva de pecado que Libório tenta superar, em vão, pela prece e auto supliciação, culminando em arroubados tresvairos místicos e beatíficas visões, mais próprios de uma recolecta Irmã do Convento da Nª Sª da Assunção, que de um fogoso e saudável rapaz, com dezasseis ou dezassete anos. A presença física de Estefânia Malafaia é precipitadora desta conflitualidade moral de Libório, que até ela, no contacto diário com Celidónia, num semi-platonismo de indefinidas meias tintas, não desperta com esta premência e violência. Verdade sendo também que, o tempo ao passar, vai libertando de dentro de Libório a verdade física do seu ser e a ávida curiosidade de toda a sua pessoa, tornando inoperante qualquer tentativa de asfixia das suas pulsões sexuais, num corpo saudável de despontado adolescente, transbordante de uma vitalidade física e espiritual inusual. E é neste axis mundi de “altares cobertos de panos quaresmais”, de preces de vésperas e matinas, com penitências de toda a hora, rodeado de catarpácios teológicos da biblioteca do convento, de ardentes imagens hagiográficas de flageladas místicas, de latão de frades entaramelado em sussurros confessionais, com retracções e contrições, que Libório vislumbra a “iluminura terrestre”, na penumbra do templo, personificada nos “pezinhos, de ajoelhada (…) nos chapins de veludo”, de Estefânia. E se ao olhar para ela,

em curtas e acicatadas rebeldias, minha imaginação pousava naquele muladar quente de fornicação (…) depressa e espavorido (…) eu volvia a minha Senhora Santa Catarina e mais divinas mulheres cujo hálito me havia bafejado o rosto, em excursão pelo reino da glória.  (AVS, pp. 56)

Quando os padres do Espírito Santo, da Aldeia da Ponte, chegam ao convento com intuitos de missionar, contra a impiedade que é muita por toda a parte, vêm de toda a vizinhança os devotos para os ouvir. Até e mesmo D. Estefânia Malafaia, insuperável em seu exemplo. Mas eis que avaria o pioneiro automóvel. Tem que pernoitar em casa dos Barradas. Mais concretamente lhe é cedido o quarto de Libório, porque a palha do enxergão não está podre. Libório que chega a desoras e sobe às escuras, entra no seu quarto e:

Acendendo a luz, qual não foi o meu espanto de ver o meu leito tomado por um corpo de deslumbrantes formas. Com o calor que fazia, todo o busto se esquivara ao agasalho das roupas e, por entre as rendas da camisa, como duas pombas brancas num ninho, os peitos assomavam. Caiam-lhe os cabelos sobre as espáduas e os lábios vermelhos filtravam um hálito de saudável e voluptuoso sono. Todo o focinho tão tentador, tão doce, que dava vontade de ajoelhar e ali permanecer em adoração, a ver, a aspirar, a enlouquecer, sem lhe bolir, até a consumação dos séculos.

Este horrível marasmo deteve-me, ante tão diabólico espectáculo, o tempo de morrer, com convicção, de pecado mortal –  lembrei-me, porém, das tentações nefandas dos anacoretas e de minha ditosa madrinha e deitei a fugir. Um relâmpago de razão dizia-me que aquilo era artimanha do mafarrico, porque se aproximava a hora da minha confissão e do meu voto.

Minha mãe saiu da cozinha, estremunhada:

— Que tens?

— Está o diabo na minha cama? – exclamei de voz alterada. (AVS, p 57)

Libório é corrido para a esteira de junça no chão da cozinha. Reza a toda a corte celestial para o livrar das ciladas do pecado. Adormece entre Avé Marias e Padre Nossos. Mas no sono, a visão  daquele corpo persistia e uma voz segredava:

Queres ser padre, queres ser casto, triste moço, nunca gozarás as melhores dádivas da natureza, uma face alva de mulher roçar-se, fungando, ao teu peito felpudo de macho?! E com idênticas velhacarias levou Satanás a noite a atormentar-me. (AVS, p.58).

E desta inglória luta, num claro indício do que vai ser a precipitação da diegese, sai triunfador o instinto sobre a razão. E Libório pode, enfim dar-lhe azo:

por sobre a minha razão religiosa passou a cavalgada delirante do amor humano. Revi D. Estefânia deitada no meu catre e estudei-a minuciosamente, implacavelmente, com todos os palpites cerebrais, desde o nariz provocante à região secreta pela conquista da qual os deuses se transformavam em toiros, em chuva d’oiro e em espuma de mar. E desejei ser homem, e amar, amar até morrer, até cair no inferno. E porque minha luxúria era nova, porque os desejos se não iluminavam da acção impura, meus dentes rangeram na noite. (AVS, p.61).

Libório culpa a noite que “desaçaima as feras e o mal”. Porém, não deixa de se apresentar à comunhão, no dia seguinte. Mas tudo, irreversivelmente mudara, e a hóstia,

a sacrossanta partícula sobre a minha língua, pareceu-me esta um corpo estranho, metálico, fedendo mais que a de um pestífero. (AVS, p.61).

É, subentende-se, o sulfuroso enxofre satânico a corroer a “alma fresca de criança”, ou pelo menos daquele que deixara de o ser para entrar numa fase nova, capitosa e turbulenta do seu corpo embalado pelo sentir. E quando, mais tarde, em Lamego, Libório está encarcerado por ter atirado pedras e morras aos jesuítas, é Estefânia, a fidalga de Santa Maria das Águias que vem interceder com êxito para a sua libertação. E é aquando do regozijo de todos, que a fidalga, presente, dissimulada, passeia os olhos sobre Libório, vivazes e brilhantes como aves do paraíso, propondo-se de seguida, a conduzir ao Convento de S. Francisco o zeloso e afável Pe. Ambrósio, mais o irrequieto tutado. No carro, cobre suas pernas e as de Libório com uma manta, propiciando o início dos contactos físicos, que doravante se desenrolarão em crescendo:

Seu corpo encostara-se ao meu, mais que tudo a perna, que eu sentia quente e roliça para lá da meia subtil. O chale-manta unia-me a ela em roscas sedosas de cobra; e, não me sendo lícito nem possível esquivar-me, era-me caro o gozo que me penetrava.

À medida que o calor de sua carne se infundia em minha carne, o abrasamento trepava em mim, secando-me os lábios, fazendo-me tamborilar as meninges. Figurava-se-me que sua coxa premia a minha; mas não; mais vagaroso apenas, o sorrir dela, entreaberto, enrubescia o espelho. (AVS, p143).

E se o efeito sobre Libório é claro, em Estefânia ganha outros contornos na gradação premente do contacto, no sorriso que se torna vagaroso, esquecido do motivo e alterado pelo sentido, convidativamente entreaberto, a dar ao espelho o calor do prazer que a possui. Estefânia passa a representar para Libório a

sensual maravilha da terra com aquele brincar dos olhos, tão cometedor, os peitos altos e os cabelos loiros que nem ensopados em mel à antiga moda veneziana (…) uma lembrança voluptuosa (…) que grande amorosa deveria ser D. Estefânia com aquele rebite petulante do nariz e a tez transparente, polvilhada de fogo! Uma harpa de profundas e maviosas vibrações para um rei David voluptuário! (AVS, p.169)

Entretanto, D. Estefânia convoca Libório para se apresentar no Solar de Sª Maria das Águias. Está com ela, brevemente, por instantes, sua irmã Serafina, do Solar do Prado, como que examinadora a rogo da mana para aprovar o traga-moiros. Almoçam só os dois. A fidalga vai deixando indícios, conversa afora, de uma entrevista disponibilidade:

a gente é conduzida e não se conduz. Com muito mais a propósito poderia dizer que a mulher não é senhora dos seus destinos. Não! não! Eu casei com meu marido por casar, toda a gente o sabe… (…) Meu pai (…) José de Sande Matagatos, malbaratara a fortuna com política, jogo e uma especulação mal sucedida (AVS, pp. 179/0)

para mais adiante falar das suas preferências físicas:

a raça morena era, certamente, menos perfeita (…) o senhor é de um loiro raro e curioso. Não esse loiro derramado das raparigas, mas um loiro mate, sério, como saía da paleta de Ticiano. (AVS, p.181).

E no meio desta sugestiva conversa, a sedutora Estefânia, não cessando de fitar Libório, bebe gole sobre gole da água do copo deste, que não deixa de a alertar, cuidoso, mas vaamente. E ela insiste,

Pois esse loiro vai-lhe a matar. (…) A penugem que começa a aparecer aqui e ali está a contas, dentro em pouco, com a navalha de barba. Dou-lhe um conselho, rape a cara toda; é menos vulgar e mais espiritual. Nada mais monstruoso que o bigode para beijar. (AVS, pp.182/3.)

Libório, ignorante de urbanidades e liberalidades à mesa da fidalguia, tenta descortinar em todo este excitante jogo os motivos de suas palavras para concluir, em sua candura simples, que D. Estefânia se ressentiria de seu isolamento e carecia de expansão.E no jovem, aos poucos, vai-se alterando o comportamento, começando por uma indiferença religiosa e acabando na constatação de quão baralhado andava: “Minha alma estava cheia de escombros.”

Miguel Malafaia, a quem o tutelar Pe. Ambrósio requer intercessão para um emprego futuro que acautele a vida do jovem, acolhe a sugestão de sua mulher, posta ao corrente do jeito e conhecimento de bibliófilo de Libório, por curiosidade natural e de tanto privar com os antigos livros da biblioteca do convento:

— Mas não anda a procurar quem lhe catalogue a livraria? Tem aqui… (AVS, p.278.)

E eis, que a preceito, nesta sugestão de Afrodite, à qual Miguel Malafaia anui, se traça o futuro próximo do jovem Barradas. Iniciação e perdição na ara de Eros. Sábia Estefânia, urdidora da teia que o seu ócio congemina. Ter ali, à mão, para seu desfrute e desentediamento um jovem vigoroso, todo ele de seu aloirado tipo físico, acrescido do picante da forma bruta, a pedir polimento por seus dedos pálidos, esbeltos e nervosos.Precavido, seu mestre, Pe. Ambrósio, bem lhe dita:

“Ouve, quem manda naquela casa é a fidalga, mas não busques a sua privança. Lá diz Origenes que o demónio faz guerra aos homens por meio da mulher e hoc tripliciter, per colloquium, per aspectum, per tactum. Sendo solícito, não deixes de ser cauto.” (AVS, p.282).

Mas toda a congeminação da intriga, num crescendo solidamente esteiado, dita já quão inúteis são as palavras do bom mestre. Mesmo que Libório se refugiasse na livraria de recheio fradesco, tratados e analectos, sermonários e enciclopédias, Estefânia não lhe consentiria o recato. Por outro lado, como ordenar ao corpo estuante de energia de um adolescente, que seja cauto perante as solicitações de tão refinada Vénus? Se até alguns cartapácios apareciam, adjuvantes, com seus textos licenciosos como os «Discursos sobre a Beleza», do cavaleiro de Minut, que contava em dezassete capítulos os dezassete mimos da ardente Paula… enquanto na ausência do fidalgo por mor da governação e do vasto morgadio acontecia:

nós amávamo-nos gulosa e abundantemente com o vigor selvagem de Adão e Eva no paraíso. Estefânia, que era muito sensual, dizia-me: — Tens os rins sólidos como Aquiles! (AVS, p.297).

Aquele que também no nome traz a águia…Se até os comentários do cardeal D. Tomás, in «Commentarii loculentissimi in 4 evangelia Don Thomae A Vio Caietani, Card. D. Xisti», impressos em Lião, em 1556, pareciam sugerir, com benevolência, a continuidade, na gentileza das velhas teologias, desta tão sensual ligação, ao fazer ouvir as vozes do anjo fortalecendo a S. José: “Não tenhas receio de receber Maria como mulher”. Maria que se submetia voluntariamente ao coito com o marido, mas cujo “corpo não vibrava mais que uma rebeca sem cordas.” E os dias decorrem, calmos e langorosos. Libório é mimado, como um potro de raça que vai entrar em steeple-chase, por uma Estefânia incauta, atrevida, despudorada, até à mesa, face a face com o fidalgo seu marido. Malafaia franzia o sobrolho, perante tais expansões, enquanto sua mulher, sob a mesa, com o pé, dava a Libório o santo-e-senha. No meio deste círculo, o jovem perdia até o apetite de comer:

Meus nervos carregavam-se de uma electricidade taurina, opressiva, que me punha o sangue a escaldar. (AVS, p. 290).

O compreensivo desvario vai-se apossando de Libório, muito ingénuo e verde ainda para eximir artes de lidar com tão hábil tecedeira. E é um joguete esbraseado nas mãos de Estefânia, que confessa, incapaz da lucidez para jogar suas cartas, com serenidade e sageza:

Estava doido por aquela mulher, mas isso não me tolhia de me sentir nas garras temíveis de uma águia! (AVS, p. 300).

Não será decerto inocente esta recorrência, ou isotópica figura da águia, por onde recuamos a aquilino e a aquila, surgida já no nome do Solar de Santa Maria das Águias, ninho alcandorado nas fragas adúlteras destes amores furtivos e jucundos.Todas as transgressões cometidas a fastio, não anda o destino arredado com a factura a pagar. Mas antes do clímax que todos adivinhamos, nesta sandice da carnal paixão, comete Libório a suprema iniquidade. A de levar Estefânia a um vil vis-à-vis com Celidónia, assim, tão inocente como imolada com despejada humilhação. E serão estas as mais pungentes linhas do romance, cruéis, diria, por onde perpassa a derradeira dualidade tão patente em toda a obra, e em tão plurais domínios, que vão desde o sagrado e o profano, até ao rústico e o urbano, passando pela figura plebeia de Celidónia e a aristocrata Estefânia, até ao amor imaculado por aquela e o carnal por esta…

Fui guiando Estefânia, de parecer alegre se bem que de coração inquieto, receoso de poisar em Celidónia estes olhos que sua presença enchia de festa, chamá-la com esta voz que tanto lhe jurara amor. Ia expô-la no pelourinho e disso concebia uma secreta e funda repugnância. O meu passado não era vazio como uma fieira de túmulos à beira de um caminho. Confiava, porém, em minha hipocrisia, na fidalga altura de Estefânia, e na estóica sensibilidade de Celidónia para aquele passo me sair com honra. Acima de tudo tinha a preocupação da forma. Renegar, achincalhar a pessoa que eu fora e os valores que havia sagrado, era o menos; nos braços delirantes de Estefânia, em poucos meses adquirira uma alma de italiano.

Bati à choupana dos Violas, adormecida no silêncio.

— Quem é?

Era a voz de Celidónia de uma brancura e pureza de fonte que respondia.

— Gente!

A porta abriu-se de ímpeto e eu notei o movimento impulsivo do peito e dos braços que vinham abraçar-me. Nos olhos e nos lábios dela havia a expressão de alívio de quem muito perrou de saudades.. mas dando de cara com uma dama de tão perturbante senhoria, estacou no limiar, pasmada e sem voz.

— Passaste bem, Celidónia? – pronunciei eu, esforçando-me por dar naturalidade ao lance.

— Passei bem…

Estefânia assestara sobre ela a luneta de cabo de oiro, num gesto impudente de preciosa. Pálida, de olhos a pestanejar, apoiada à umbreira, Celidónia pelejava a peleja, que eu sentia, de seu instinto subtil com seu coração muito leal. Figurava-se-me um pouco mais franzina, mas ainda mais fragrante em seu talhe esbelto de teixo. O cabelo, muito ruivo ao sol, cobria-lhe o rosto como um capacete de cobre. E nos olhos, que a timidez dilatara, um azul franco, retinto, imenso, tão diferente da palheta anilada que dava à pupila de Estefânia um tom agudo de felino, transbordava para a face numa mancha celeste, de grande suavidade.

Celidónia trajava pobrezinho, os pés descalços numas chinelas velhas de coiro, uma blusa a estalar nos seios, sobre um avental de chita que uma queimadura tinha escantoado numa enorme bocada.

E, tendo-as ali face a face, não me pude tolher de comparar; mulher uma de enlouquecer, porque sua carne era uma harpa de inefáveis melodias, e seu espírito inquieto e misterioso como o fogo e como o mar; formosa senhora outra, de alma de tão puro quilate que nunca cofre de amor se forjara em metal mais raro. E senti orgulho, à vista de Estefânia, de ter amado Celidónia e por ela ser amado, um orgulho maior que a vaidade de me lembrar, diante de Celidónia, que Estefânia se deitava no meu leito.

— Então não se falam? – exclamou Estefânia, deixando cair a luneta num gesto seco.

Sorri parvoamente e Celidónia manteve o seu parecer grave, mais hostil apenas.

— Vá, troquem um beijo, — tornou ela em tom de ironia – eu dou licença…

Eu desejaria que o chão se abrisse sob meus pés e me tragasse, tão envergonhado estava. Apercebendo-se disso, Estefânia desatou a rir, a rir numa casquinada tão falsa e sem propósito que me horripilou. E, passando o braço sobre mim ao modo maternal e brincão de quem afaga uma criança, a rir sempre, deu-me uma dentada numa orelha. (AVS, pp. 308/9/10)

 

IV

Conclusão

Deixamos expressamente de fora a quarta tábua deste políptico, no entendimento de que «As Lápides Partidas» figuram já espaço e tempo em despropósito com o cenário beirão e a juventude/adolescência de Amadeu/Libório. Não obstante, nas páginas desta obra publicada em 1945, ambas, Celidónia e Estefânia, continuam a ter o seu destaque no coração partido de Libório Barradas.

Foi principal intento descrever o universo feminino na infância e adolescência dos protagonistas de «Cinco Réis de Gente», «Uma Luz ao Longe» e «A Via Sinuosa». A partir daí, perceber melhor os palcos onde se desenrolaram as acções, e deixar implícito um perfil dos protagonistas, movidos por vivências, educações, repressões e afectos. Enquanto percurso autobiográfico, tecido a bom permeio com os fios da ficção, deslindar ali, conjecturar além, e argamassar ilações sobre algumas possíveis facetas do Homem e do escritor, nascido no Carregal, em Sernancelhe, a 13 de Setembro de 1885.

Finalmente, agora, no 129º aniversário do seu nascimento, efeméride que o Rua Direita homenageia, foi nosso reiterado objectivo homenageá-lo também, revisitando-o, fruindo-o, analisando-o e divulgando plurais enfoques da sua leitura.