Uma fotografia gera (em mim) mil palavras…

por Amélia Santos | 2014.05.19 - 20:14

Talvez seja porque me movimento melhor no mundo da literatura. Talvez. Mas, sempre que vejo algumas fotografias, ou quadros, sou misteriosamente inundada por um mar de palavras, que se atropelam para sugerir leituras e interpretações. Para inventar histórias e a sua envolvente. Para evocar memórias vividas e ficcionadas. Enfim, para me despertar todos os sentidos…

É, particularmente, a fotografia que me motiva hoje a escrever. Eu que nada entendo desta arte, ouso penetrar nesse complexo universo apenas para deixar impressões de leiga observadora, que à maneira de Alberto Caeiro, apenas se limita a sentir…uma forma única de ver a(s) realidade(s).

Sábado, dia 12 de abril, numa breve passagem por Lisboa, eu e o Nuno levámos a Clarinha e o Alexandre, de dez e nove anos, respetivamente, a ver uma exposição de fotografia de Pieter Hugo, à Fundação Calouste Gulbenkian. A exposição chamava-se “This must be the place”, em português “Este é o lugar”. Pieter Hugo é de Joanesburgo e costuma fotografar a vida quotidiana da África do Sul e da África Subsariana.

O funcionário que nos vendeu os bilhetes avisou que haveria algumas fotografias um pouco «fortes» para as crianças, mas eu…,à minha boa maneira, acho que podemos ensinar as crianças a «ver» e a apreciar a arte, explicando e enquadrando algumas coisas que eles já conseguem entender. E, lá fomos à aventura da fotografia, aproveitando, que estávamos em… “Este é o lugar”…

Para os motivar a ver com olhos mais atentos e reflexivos, pedi-lhes que escolhessem, entre todas as fotos da exposição, aquela de que eles mais gostaram, e tentassem escrever um pequeno texto sobre elas… (Há um ano tive uma experiência riquíssima com estas duas crianças, quando visitámos uma exposição de arte contemporânea em Serralves… O que eu aprendi com eles a ver as obras do artista plástico Jorge Martins!) Bem, cada um elegeu uma fotografia diferente. Cada um sentiu a sua fotografia, captou a sua alma e discorreu sobre ela. O Alex foi tocado por uma foto, onde aparecia um homem a passear uma hiena – animal feroz, numa impensável e surpreendente parceria com o ser humano, com o insólito objetivo de se deixarem fotografar a troco de dinheiro. A Clarinha deixou-se impressionar pelo rosto «bizarro» – assim o apelidou, – de uma criança, que supostamente está com os pais. Curiosamente, uns dias mais tarde, li num livro de Cormac MacCarthy (Meridiano de Sangue) uma frase que me recordou a emoção realçada pela Clarinha, quando o narrador está a descrever um ambiente de desalento e ao deter-se numa específica personagem, diz: “Toda a história está contida naquele semblante”. É tão fértil e poderosa a frase, como o são algumas fotografias. Contam-se histórias completas, a partir de um olhar, de uma expressão, de um sorriso triste…

Também nós, adultos, fomos convocados a reagir ao que víamos e a exprimir emoções que foram desde o “Erro permanente” de civilizações e culturas que, ao invés de conseguir dialogar, vivem de costas voltadas, até à ausência de vida humana, que se encontra, inquietantemente, em fotografias que retratam o genocídio do Ruanda, volvidos dez anos. Uns a tentar superar-se naquilo a que chamam desenvolvimento. Outros a viver dos despojos, a buscar nos desperdícios da “civilização” uma forma de sobrevivência. Não deixa de ser marcante a imagem de um homem/pastor, que com um cajado procura algo, em vez de guardar… Não deixa de ser perturbador sentir a violência captada através dos vestígios da guerra, onde surge por exemplo um sapato de senhora e uma sombrinha… Quem lhe adivinhava o destino aquando do momento em que pela primeira vez os usou a sua dona?

Uma fotografia. Mil palavras. Um sem número de emoções.

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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