Um post sobre Manuel Alegre, hoje!

por Ana Albuquerque | 2015.05.12 - 22:54

 

Manuel Alegre faz 79 anos e publica mais um livro, hoje: Bairro Ocidental. Soa-me a Cesário! Ainda não o li, obviamente, mas quero, como tributo, deixar, hoje, aqui, uma nota para convidar-vos a ler um dos seus melhores livros, Babilónia (1983).

Se todos conhecemos os poemas, escritos clandestinamente, de Praça da Canção (1965), este ano tão recordada no meio literário, nem todos descobrimos, injustamente, ainda, a dimensão ontológica da sua poesia. Nesta coletânea, perpassa uma voz de amargura reflexiva: “Caminhámos tanto para chegar a esta desolada paisagem interior”. As questões existenciais sucedem-se sem resposta. Os deuses decretaram irremediável a morte do homem: “Quem poderá vencer a morte?/ Só os deuses que vivem eternamente junto de Shamash/ Os dias dos homens estão contados/ Façam o que fizerem passarão como o vento”.

Em muitos destes poemas, encontramos a sensação de isolamento, de diferença em relação aos demais, a consciência de ser indesejado, ausente mesmo quando presente, um exilado à deriva de um tempo que não há, que nunca é. Todo o homem é um ser estranho e estrangeiro. Estranho, porque incapaz de encontrar-se por inteiro; estrangeiro, porque eternamente incompreendido: “Este é o tempo do homem/ perdido na multidão/ Tempo do homem sentado à mesa da solidão.”

Este fatalismo inexorável, herdado dos clássicos e parafraseado de Pessoa e os seus outros, sucede-se no conjunto dos poemas: “O homem está no meio do caminho, nesta selva escura, sem bússola e sem sentido/ Sentas-te e pensas/ Quem foste é a sombra de um menino azul/ Na cadeira da infância / E esta cadeira onde te sentas/ Não é sequer o teu sítio./ Estás simplesmente de passagem.”

Continuamos a viver, outra vez e ainda, numa época de crise, de ausência e solidão. As cítaras estão quebradas. A música foi substituída pelo ruído e o poeta, eternamente insatisfeito, demanda: “Magnólias onde fica o vosso reino?/Olhai a Europa do cimento armado/Não resta mais do que uma flor de plástico.”

E, em jeito de pregação, no sugestivamente intitulado “Sermão da Montanha”, deixa um grito, afinal de esperança, que queremos partilhar, aqui, hoje:

Não é possível ficar onde se está

Despojados de luz, despojados do ser

O deus que está em Delfos mudará o oráculo

A água que fala há de falar de novo

Não é possível o homem tão perdido

Alguém há de subir de novo a uma montanha

Alguém com doze tábuas e um sentido.