Um mutante entre os humanos

por Graça Canto Moniz | 2013.12.10 - 11:48

O caso de Bárbara Guimarães e de Manuel Carrilho despertou-me curiosidade. Não no sentido mediático, da factualidade grosseira, rude e mesquinha mas quanto à origem dos gossips amorosos. Quanto ao caso, permitam-me apenas anotar que é repugnante a ideia de que a pessoa que partilhou uma vida connosco venha, na sequência das perturbações mentais do divórcio, revelar as nossas fraquezas. Os nossos inimigos, compreende-se, sim, os nossos confidentes, compinchas, mais-que-tudo, não. A menos que as diferenças entre uns e outros sejam ténues. Será?
Voltando ao ponto, somos nós, que estamos de fora, que temos obrigação de dar o devido desconto e não ligar. Na melhor das hipóteses, para alimentar sentimentos fuinhas, recordemos o caso Nigella Lawson, mosca morta, voz passiva, figura pachorrenta, para tirar ilações sobre as energias eufóricas de Gordon Ramsay. Os trejeitos delicados com que manuseiam a farinha e o açúcar nunca me enganaram. Mas, caramba, “entre marido e mulher não se mete a colher”.
Conversei, investiguei, li e conclui: “tudo remonta ao caso Taylor versus Borton”. Encontrei a resposta num maravilhoso filme de Richard Laxton, “Burton and Taylor” (2013) que reúne Helena Bonham Carter e Dominic West. Suspiros, coração acelerado, calma: “we will always have Dominic”.
Se Cleópatra, rainha do Egipto, era ou não a mulher mais bonita do seu tempo não sabemos. É assunto controverso, tema de intensos debates entre estudiosos. O que é, afinal, a beleza? Certo é que a imagem que a modernidade tem da rainha do Egipto é a da rainha da beleza, Elizabeth Taylor, protagonista de uma beleza absoluta, clássica, intemporal, “um milagre da construção”, segundo um dos seus 7 maridos, Richard Burton, com o qual casou duas vezes, e que conheceu nas filmagens de Cleópatra. Só isto já faria correr rios e rios de tinta: um dos maiores romances da história do cinema surgiu por causa de um dos maiores romances da História tout court. Mas há mais, algo sinistro e místico ao mesmo tempo.
No início do filme, a banda sonora é sugestiva: logo a abrir “Just an illusion”, dos Imagination e, na cena seguinte, Burton avança numa festança de aniversário de Taylor, dirige-se a ela, abraçam-se e, de repente, a malha de Sylvester arrasa: «you make me feel, mighty real»; Lizzie dança, dança, euforicamente. Burton bebe, bebe, desgraçadamente. Compreende-se a soundtrack: Lizzie é meta-bela, precisa de se sentir real no meio de tanta mulher feia, de outro modo desconfia de si; a sua sobrevivência depende disso. Mas Taylor não é real; Taylor é um mutante… Eu explico: Lizzie sofria de uma mutação (sim, no sentido clínico do termo), nada monstruoso porém, respire fundo, senhor leitor. Diagnosticado ainda nos primeiros dias de vida de Lizzie, um tal de “FOXC2” era o responsável pela cor violeta-azul daquele terrível olhar. É verdade, Elizabeth Taylor, um mutante…

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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