Um livro para minha mãe

por Ana Albuquerque | 2014.05.04 - 11:08

“Na palavra dos grandes escritores, procurei sempre escutar a voz da beleza que não morre, a voz do combate pela dignidade e pela liberdade das mulheres e dos homens, a voz da piedade perante a miséria e o sofrimento da vida humana, a voz dos sonhos e das ternura contra os ódios e as violências, a voz crítica da denúncia e da condenação de todas as servidões e de todas as infâmias”. Vítor Aguiar e Silva

Comecei a ler fora da escola, antes do tempo. Naquele ano, não me deixaram entrar, só fazia seis anos em novembro. E fiquei um logo ano à espera! Via chegar as outras meninas, da rua onde morava, com as suas malas e eu, sentada no degrau da entrada, fingia que não as via chegar, mas ávida de as ver fazer os deveres.

Com uma vara apontada na parede do meu quarto, desenhava letras grandes que ensinava aos meus alunos. Sempre fui professora! Mesmo agora, quando me sinto esgotada por tantas mudanças, algumas sem nexo evidente, não sei se ainda seria capaz de ser outra coisa…

Sempre li muito. A minha mãe dizia, por graça, que eu fui feita em cima de um livro. E fui, realmente. Ela foi um dos grandes livros que li nas palavras que ela não sabia escrever. O primeiro texto que a minha mãe escreveu, quando fez a quarta classe como adulta, foi uma carta para mim, já aluna de Coimbra, quase a terminar uma licenciatura, em Letras!

O meu pai lia e escrevia muito. Tinha uma caligrafia linda, grande como a do Zé Pedro. A Ana Luísa escreveu o melhor texto da minha vida, chama-se “Pintor de domingo”. Sei que um dia hei de entrar numa livraria e comprarei um dos muitos livros que ela continua a escrever, às escondidas…

Muitas pessoas contribuíram para que eu me tornasse leitora. No Tojal, da minha infância, já devorava as coleções das patroas ou amigas da minha mãe. Era eu que abria as páginas com uma faca fininha, como num ato sagrado, para não estragar. Todo o Eça, numas férias grandes!

Muitos foram os professores que me emprestaram os seus livros, que me orientaram na leitura de muitos, todos, companheiros de uma vida, feita de retalhos do livro que hoje sou, um palimpsesto, afinal!

Se eu pudesse deixar, hoje, um livro para a minha mãe, se ela fosse capaz de o ler, na sua velhice precoce, seria Os Lusíadas. Li, para ela, em voz alta, tantas estâncias! Ela gostava da sua cadência!

Está lá tudo: o esforço, a luta, o amor, a traição, a derrota, o castigo, a glória, a solidão, a inveja e o Prémio: ela, a minha Ilha do Amor!