Trancoso, “Aldeia Histórica” apenas no papel?

por Amélia Santos | 2014.02.10 - 22:39

A propósito de um convite para participar numa espécie de mesa redonda onde se debateria o tema «Aldeias Históricas», em particular Trancoso, que é a minha terra, dei por mim a fazer uma pesquisa na internet sobre o programa. Desde logo, por meio do Google, encontrei o site www.aldeiashistoricas.pt e tentei conhecer o seu enquadramento e objetivos. Percebi que o programa “Aldeias Históricas”, decretado pelo governo português em 1991, incluiu inicialmente dez aldeias/vilas históricas e que, em 2003, Trancoso e Belmonte passaram a integrar o grupo. O programa é muito interessante, foi  bem  idealizado e está prenhe de boas intenções, como seja a recuperação de aglomerados que foram perdendo protagonismo ao longo dos séculos; promoção de recursos genuínos e diferenciadores, como a História; a Cultura e o Património, enquanto fatores de sustentabilidade de territórios menos competitivos em termos demográficos e económicos; refuncionalizar…

Eu, que sou uma fervorosa adepta das palavras, do património e da cultura em todas as suas vertentes, desconfio cada vez mais do discurso político palavroso, cheio de grandiloquentes ideias e chavões modernos, porque na maioria dos casos servem para distrair, para iludir e desviar a atenção do povo. Não querem dizer nada. São palavras ocas, vazias de sentido. Carecem de objetividade. Descomprometem quem as profere. Não são passíveis de verificação na prática.

Infelizmente, foi este o sentimento que me assaltou após a leitura desta declaração de boas intenções no referido programa “Aldeias Históricas”. Congratulo-me por Trancoso estar incluído neste roteiro, porque poderá ser sempre um selo de qualidade. Um chamariz. Uma forma de atrair mais pessoas. Mas, então, o que é que o aglomerado histórico de Trancoso beneficiou com este programa? Que alterações vemos nós, assim a olho nu? Eu não encontro mudanças, nem vislumbrei progresso. Os pressupostos do programa ficaram no papel? Acho que já nem os trancosenses sonham com um futuro de desenvolvimento e sustentabilidade. O que será essa tal “sustentabilidade”? Em que é que se traduz a promoção de recursos genuínos? O que representará “refuncionalizar”?…

Tentei averiguar quais os projetos que foram candidatados em Trancoso e quais os efeitos práticos dessas candidaturas…e esbarro constantemente com a falta de rigor e exigência. Com a falta de estudo e planeamento estratégico. E, por último, com a falta de fiscalização. Assistimos sempre ao oportunismo dos mais espertos e informados, daqueles que têm os amigos “certos” e que conhecem melhor que ninguém a forma de dar a volta ao sistema, de contornar algumas questões. Já não é novidade que, em Portugal, de cada vez que sai uma lei, uma norma, um enquadramento, há sempre quem se especialize em conseguir dar a volta ao sistema. E, sem desrespeitar a forma, desrespeita-se a essência, a índole, desrespeitam-se os princípios éticos e morais. Para precaver o «chicoespertismo», os técnicos deviam aperfeiçoar-se, antes de mais, na prevenção de supostos desvios, e, em segundo lugar na punição daqueles que tentam enganar o sistema e que na prática são infratores… Parece, grosso modo, que os interesses pessoais de uma elite continuam a estar à frente dos interesses da terra, do património e da cultura.

Urge ouvir os lugares. Urge ouvir as pessoas e envolve-las e inclui-las nas mudanças. Urge fazer com que cada um se aproprie do seu património e seja o seu melhor guia turístico. Quanto ao programa das Aldeias Históricas, creio que passou completamente ao lado das pessoas de Trancoso, que nem foram informadas, nem envolvidas. Creio até que continuam a querer ser uma vila medieval…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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