Touro – O Enterro do “Rico Irmão”

por Alberto Correia | 2014.03.05 - 20:18

Chega-nos, de muito longe, esta farsa carnavalesca, o celebrado Enterro do Rico Irmão que acontece no Touro, Vila Nova de Paiva, ainda que o atento e erudito monógrafo das Terras do Alto Paiva (1940) não no-la descreva deixando apenas, como vagos dizeres referentes ao amplo território que descreve, que Na noite de 3.ª feira de Carnaval ouviam-se muitos tiros de espingarda: era a matar o Entrudo; e algumas vezes fingiam o seu enterro, com carpideiras.

Ontem, dia de Terça-feira Gorda, às vinte e duas horas e trinta minutos, caia uma chuva miudinha sobre o Terreiro da Capela de Santo António e acabava de chegar aos ombros dos rapazes e ao som de uma charanga a burlesca figura do Rico Irmão, um antropomorfo de palha e trapo que ali se expõe, face ao povo que enche o Adro, caindo sobre ele a suspeição de muitos crimes de que terá breve julgamento.

Da atribulada vida deste infausto anti-herói faz longa resenha o doutor juiz embrulhado na seriedade da sua toga de cor negra e, ao final de uma extensa lista de malfeitorias, sabendo quanto a justiça é cega no seu povo, o Rico Irmão ainda declara que pretende ser ilibado. Decisão que caberá ao juiz que entretanto declara: – Vai-se iniciar o julgamento !… E clama: – Levante-se o réu !… Mas eis que nesse instante chega o advogado de defesa que pretende representar o réu, o que lhe é concedido, ainda que infrutífera se torne a sua argumentação e o juiz, nesse estranho tribunal em que todo o povo é júri, questiona, como Pilatos: – Qual a sentença a aplicar ?!…  – Que seja enforcado !… Grita todo o povo. E é então que o carrasco, de rosto escondido na habitual máscara negra, corre o laço sobre o pescoço do Rico Irmão e o suspende cravando-lhe, sem piedade, um punhal no coração.

Outra vez o advogado intervém, declarando agora que o réu deixara testamento cuja leitura deverá fazer-se.

Que seja breve !… Autoriza o juiz. E advogado e juiz lêem de par as deixas de uma herança de paródia ali proclamada cujos destinatários, nem sempre ali presentes, são figuras do lugar ou de sua vizinhança e ali se causticam mercê de atitudes comportamentais que parece não terem obedecido, em rigor, a uma pretendida ortodoxia.

No final o juiz dita: – Siga o enterro !…

Armaram-se entretanto os portadores das gigantescas tochas – as lumieiras – com aquela que entre si escolhem, acendem a palha de que são feitas e ei-los na boca de um cortejo de pantomina presidido por um bispo de fantasia que lê vagos latins numa cartilha, logo seguido pelo corpo inerte do Rico Irmão transportado em braços já que desta vez não achara esquife, um povo em tardios lamentos, carpideiras, o toque remansoso da charanga no couce do enterro, o longo caminho da Rua Principal até à Ponte do Rio Covo a cujas águas se entrega o corpo do Rico Irmão sobre o qual se projecta o toco ainda aceso das lumieiras que a corrente lentamente arrastará como se corpo fosse de mítico rei de um tempo já sem memória.

O povo, redimidos os males, alegra-se agora e regressa em festa ao Terreiro da Capela de Santo António onde terá lugar o segundo acto desta auto nocturno – a celebração dos “Casamentos burlescos” de que se dará nota noutro texto.