Textos de Capricórnio, de Paulo Neto

por Ana Albuquerque | 2014.04.16 - 17:03

honro-te com o sacrifício do meu corpo não me castigues exalta-me

não há culpas e se houvesse

recorda que nem os próprios deuses castigaram os culpados

 

A abertura é um terceto e assim continua até ao fim do livro! Três versos numa folha branca, sem vírgulas nem pontos, minúsculas as letras. Todas. Os poemas numerados. Todos, um a um, 365.

Os versos, decantados, dizem a essência, o que apenas fica depois de tudo. Poesia silente, mas densa. Folheamos as páginas depressa mas, devagar, retomamos, de novo, as mesmas páginas: os três versos, simbolicamente três (“três árvores”, “três rios”, “três serpentes”). E o silêncio é um silêncio pleno, carregado de mistérios que dá gosto decifrar, segundo a hora, as nossas horas.

Pouco a pouco vamos lendo e relendo. As notas, que pareciam breves, adensam-se e encontramo-nos com as palavras supremas, os pilares da sua voz poética: um “eu” e um “tu” presentes e distantes, corpos que se entregam, corpos que lutam em silêncio (“não te juro fidelidade / com o corpo / para quê gastá-la em palavras”), espadas, punição, recusa, liberdade, cativeiro, vigílias na dor (“nas trevas regenero-me para a dor”), memórias passadas, a busca irrecuperável das manhãs claras (dos “pássaros”, da “água”, da “casa de xisto”), noites e mais noites (“velo para continuar a viver”), pássaros das trevas, a tristeza da perda, a solidão quase discreta, a serenidade apenas aparente, a recusa da fugacidade da vida (“decreto suspender o tempo”), os deuses (“cépticos”, “agrestes”, por vezes “magnânimos”), o sacrifício, e uma tristeza que perdura (perdurará) para além da escrita, (“a alvenaria do texto / não acolhe o ritmo / nem a rima dos meus sons”)…

E o silêncio das páginas, quase brancas, é aquilo que as palavras não conseguem dizer e aquilo que as mesmas palavras deixam adivinhar, quando não mentem (“menti-te / e à vida / só a mim falo verdade”). São as palavras que nos remetem para o silêncio e são elas que, pelas suas limitações, nos mostram o poder que ele tem (“não curo em te explicar / a verdade desta fala / a moralidade nada ganharia”). O silêncio é uma renúncia às palavras que caldeiam a mentira.

Na música, o silêncio é a ausência de som. Mas pode o som existir sem a ausência em que se inscreve?

E na poesia, o que diz o silêncio? “A poesia é sempre voz em luta íntima com o silêncio de onde nasce e para onde reflui uma vez nascida. É no lábil espaço entre dois silêncios, metáfora ou eco de cada existência, que a poesia existe”, diz Eduardo Lourenço.

Esta poesia não é o lugar da revelação explícita. Há um silêncio que subsiste para lá do timbre e do rosto das palavras. Elas descobrem e encobrem, revelam e ocultam. O leitor terá de partir à procura dos implícitos, onde o sujeito, onde também, às vezes, o Paulo, se encontra, (“pela bilha velha / e rubra / bebi o fio da fonte da vigária”); (“corri a noite / pelo aveloal / atrás do medo”).

Vergílio Ferreira pede-nos: “Não ouças só as palavras que ouvires, ouve-lhes também o silêncio, se o tiverem”. E as palavras do Capricórnio têm-no.

(Surpreendentes estes silêncios de Paulo Neto, para quem conhece a fluência do seu verbo!)