Temos que Visto?

por Rui Macário | 2014.02.23 - 12:32

Sendo muito breve, as últimas semanas estiverem recheadas de notícias indicativas de uma melhoria na situação de Portugal enquanto país, e dos portugueses enquanto cidadãos fortuitos desse país. Somos exemplares no modo como conseguimos realizar o que nos foi pedido. A todos impressionamos externamente.

Internamente, temos um aumento de investimento estrangeiro, via imobiliário e turismo, curiosamente no segmento a que a maior parte de nós não pode aceder. O “vá para fora cá dentro” de alguns anos atrás, tornou-se redundante porque em boa verdade cada vez menos podem ir para fora, sequer da sua região, já que as portagens e combustível são um luxo em si, fazendo crer que os pagamentos nas ex-SCUT são uma barreira à saída e não à entrada.

Não acredito em miserabilismos mas há dias menos confortáveis que outros e a semana transacta, diariamente preenchida com os ecos ucranianos, tornou difícil apreciar qualquer negociação de dívida pública nacional, seja a que taxa for. Menciono a Ucrânia porque Pedro Passos Coelho no Sábado (dia 22/02) a elegeu como símbolo da força de atracção que a União Europeia exerce e da qual nós precisamos (e desejamos, claro). Esqueceu-se de mencionar que a Islândia oficialmente agendou no respectivo parlamento a discussão da retirada do seu processo de adesão; que a Escócia está a ser chantageada para não “escolher” a independência no referendo de Setembro, relativamente ao Reino Unido (com avisos de que nunca poderá pertencer à União); que a Suiça reforçou os anteriores passos quanto a limitar a sua proverbial “hospitalidade” de migrantes europeus; que em Melilla há “assaltos à fronteira” por parte sobretudo de desesperados subsaarianos que nunca chegarão ao “velho continente”.

O que é que isso tem a ver com cultura? Tudo. Fundámos o Portugal actual – pós-necessidades básicas – sobre apoios comunitários, muitos dos quais dotando o país de infra-estruturas turístico-culturais que não podemos nem sabemos manter, que não queremos competentemente gerir, e que não nos interessa melhorar ou adaptar. Se se “for” a União Europeia, para onde vamos nós? Não é uma questão partidária (o diapasão é comum). Restam os tais 1% de potentados individuais (possuidores, porque os compraram, de Vistos Gold) que podem adquirir os cantinhos desta Nação a retalho e saldo, jogar golfe e “marinar”. Nós faremos narrativas do “very typical” a quem nos pagar, como os legionários ou gladiadores em torno ao Coliseu de Roma, a €5/10/15/etc. a fotografia.

O problema não está onde o não conseguimos impedir, apenas no que parece ser uma escolha não fazer. Somos muito bons em algumas coisas (o Ministro da Economia, António Pires de Lima, tem razão), nomeadamente no sector do Turismo (que requer acções ou valências ditas culturais), mas o custo não pode ou não deve ser, a negação das condições necessárias para que possamos viver com aspirações legítimas de usufruir do que nos pertence e construir para o futuro (nosso e dos nossos, bem como dos restantes a nosso lado). Sem comunidades vivas, sobram resorts fechados. Preferia que não.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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