| STATE OF THE ART #

por Jose Cruzio | 2015.01.09 - 16:56

Este ainda será um tomo – STATE OF THE ART que servirá mais de prefácio para a abordagem do tema do tabu.

Na literatura, na descrição pouco convencional – segundo as normas vigentes do “bom gosto” ou “condignos” – das realidades visíveis e invisíveis – autênticos mundos subterrâneos. Debaixo da pele como no fundo do inconsciente. Nas artes passavam pela “transcrição”,  através da expressão singular e cada qual através do seu meio e expressividade. O fazer desmoronar o “intocável” tinha o seu quê de jogo deliciosamente perigoso. Fazer agitar a “segurança (mortificadora) da interpretação convencionada do mundo” e observar os diferentes impactos faziam as delícias dos “agent provocateurs”.

Permitam-me fazer uma pequena viagem por vários campos artísticos. Espero que seja um diferente travelling.

Para construir este travelling irei por ínvios caminhos. Do antes para o agora.

Da “indiscrição” cinemática de temas “sensíveis”, à altura e não só, de “Intolerance“ de D. W. Griffith e “dos tempos da fome e de procura de novos horizontes “ de “The Gold Rush” de Charlie Chaplin versus o entretenimento cómico – amargo dos filmes das primeiras companhias. Da descrição do Sul húmido, pesado e claustrofóbico como do âmago das personagens de Flannery O’Connor  contra a delicodoce versão de “Gone with the Wind” de Margaret Sullivan. Como contraponto ao “gallant south”, das folhas (e não só) agitadas pela brisa da  soberba e arrepiante versão “Strange Fruit” de Billie Holliday, o romantismo das vivências e elegâncias senhoriais das fazendas dos campos de algodão da série “Norte e Sul”. Mais recentemente, nas analogias e dicotomias modernas do “Midnight at the Garden of the Good and Evil”. Se são referências  “datadas”? Talvez sejam. Deixem-me “actualizar” para outros e diferentes exemplos de visões “não convencionais” acerca do mundo que nos rodeia. Outros caminhos serão.

Das séries familiares amargamente realistas “Weeds” ou de “Breaking Bad”, num contexto de procura de novas formas de subsistência não legais mas desenrascadas – embora em contextos familiares diferentes mas semelhantes em termos de características suburbanas – para as séries mais “tradicionais” “Brothers and Sisters” ou mesmo com ambientes históricos irrepreensíveis como “Downton Abbey”,  os tabus são aflorados ao longo da narrativa. Nem que seja ao de leve.

Na Banda Desenhada, o arrojo na abordagem de um tema sensível e na metamorfose das personagens, como ratos e gatos, num retrato cruamente visionário e em tons de negrume de “MAUS” na arte de Art Spiegelman; num outro exemplo, talvez viável embora não com o mesmo culto, da série “Blacksad”, de Díaz e Guarnido, cuja visão underground dos anos 50-60 contrasta com o colorido Technicolor ou melhor, aos tons pardacentos associado às produções da época.

Serão estes exemplos mais actualizados? Espero que  sim.

Em suma, o expor o indescritível e o moralmente indizível traria novas e inquietantes leituras de um mundo que tomavam como certo. Moral e socialmente certo. Todavia, houve sempre quem tivesse uma visão oposta à convencionada. Se não fossem alguns irrequietos da chamada “gente vulgar”, eram alguns intelectuais, pensadores. Ou, mais próximos do meu labor e práticas, os artistas.

Não os que cujas obras se regulavam pelas convenções – antes de se tornarem convencionais, eram agitadores a seu tempo. Alguns, claro. Outros, permanentemente agitam as “águas”. Se bem que neste tempo e contexto, haverá que ter especial cuidado no debate e neste campo. Neste tomo, não interessa aprofundar mais aqui.

Assim estará dado um ponto de partida para um dos possíveis e  temáticos  | STATE OF THE ART.

Post-Scriptum:  A imagem que acompanha este texto será a minha singela homenagem não só às recentes vítimas de todos os fundamentalismos.

 

MAUS – Art Spiegelman: www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11733

BLACKSAD – Juan Díaz / Juanjo Guarnido: http://blacksad-gallery.blogspot.pt

Strange Fruit – Billie Holiday: https://www.youtube.com/watch?v=h4ZyuULy9zs&spfreload=10

 

 

 

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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