| STATE OF THE ART 3#

por Jose Cruzio | 2015.01.15 - 14:14

TABUS II

 

Será  mais um dos  | STATE OF THE ART  com o seu quê de associação e de  ideias, que espero, inesperadas.

Assuntos ditos “proibidos” ou  do foro do que foi considerado como “sagrado” foram sempre terrenos apetecíveis de explorar. Por espíritos cada vez mais sequiosos e inquietos de irem além dos limites.

Neste texto não irei pelo campo da fotografia, para já, abordar um dos possíveis  “estados da Arte” relativamente a um dos temas – tabu. Irei por outro campo de expressão visual, o vídeo/cinema e nomearei um evento que muito contribuiu, a meu ver e para mim, para a descoberta de novas geografias e novos olhares.

O evento em si é o Shortcutz Xpress e na cidade de Viseu. E numa modalidade muitas vezes designada de “cinema curto”, à base de curtas metragens, e já nas quadragésimas sessões. Não irei menosprezar as sessões e demais oferta do ilustre Cineclube da Cidade, nos seus sessenta anos de actividade; o que é certo, mais “perto” estou eu do Shortcutz dado fazer parte. Antes já dizer isto para que não haja ideias pré-concebidas.

Um outro preâmbulo esclarecedor antes de continuar com o texto:  a ideia de “cinema” varia com a óptica e concepção de cada um, havendo interpretações díspares. Umas, válidas; outras, inconsequentes.

Se os grandes mestres da arte cinematográfica passaram por um período de experimentalismos e, muitas vezes, num formato “curto”, então esta modalidade tanto contribuiu para o seu crescimento e crescente afirmação na galáxia do Cinema. E com visões  marcantes para o imaginário colectivo. O exercício de “construir” conceptualmente e realizar uma narrativa para um tão curto espaço de tempo tem o seu mérito. E riscos.” Quem corre por gosto, não cansa!” diz a “vox populi”. Terminada esta pequena introdução, passarei a abordar um dos temas – tabu. A fim de não assustar ou dar “ideias de sinais”, farei uma abordagem pouco ortodoxa.

Em diferentes sessões de projecção de curtas-metragens, deparei-me com vários olhares, de diferentes geografias, sobre um subtexto, aparentemente, comum: a ausência, física ou mental, de alguém ou de algo. E diferentes percursos que as personagens ou as narrativas constroem acerca delas e com elas.

De uma zona da Europa abrangida pelas regiões da ex-Jugoslávia e países vizinhos, sobressaíram as ideias da guerra e consequente mortandade. Sejam elas guerras entre povos, vizinhos, ou, mesmo e singularmente, as “guerras íntimas” nas esferas pessoal e familiar. Estas provavelmente as mais “duras  e cruas” de verem. Que agitem as consciências, fazendo-nos ver um outro lado – possível mas que possa ter sido ou foi real nos contextos evocados,  melhor.

De “Heshtje”, de Bekim Guri, já falei num outro texto. (http://www.ruadireita.pt/culturalmente-solido/on-focus-3-1751.html).

Deste contexto e zona, falarei de “The Chicken”, de Una Gunjak.  Um contexto aparentemente normal de um subúrbio, uma família – na qual não vislumbramos sequer um pater familias ou seja, o pai, o irmão ou um homem – e uma galinha, a do título. Sendo o único animal no apartamento, é acarinhado como animal de estimação pela benjamim. Todavia, o contexto é de guerra, atiradores furtivos e de escassez de alimento. Pressentem-se dualidades, antevêem-se escolhas e as consequências, por momentos, assustadoras e o sacrificial. De quem ou do quê, conviria ver. Não perdem. Antes ganham uma visão de vida de um contexto que, felizmente, já lá vai. Mas que cujas razões ainda se mantêm à espreita de uma nova possibilidade. Ou seja, um alerta.

Fora da zona e noutras latitudes, duas outras curtas ainda da secção “Around The World” do mesmo evento também despertaram minha a atenção. Quer pela forma como abordavam como pela imagética, a meu ver, fabulosa. Lá está, preferências derivadas de  impressões em mim. E que me fizeram ver as coisas com outro prisma.

A primeira, “Dog Fight”, de Marcel Sarmiento (EUA), uma luta até à morte – à semelhança dos jogos de luta de galos, ilegais e clandestinas,  dos subúrbios americanos – entre homem e um cão, atiçados por uma multidão. Todavia e  no furor da luta, acontece o inesperado num impressivo momento  durante a mordida do cão no pescoço do homem. A fim de não desvelar tudo, importa dizer que a “ausência” fora notada por ambos e sendo ponto de partida para uma reavaliação e nova acção. De quê, do quê e contra o quê? Fica o desafio para verem.

Por último e não menos impressiva, refiro “Danse Macabre”, de Pedro Pires (Canadá), uma singular e poética viagem de um corpo, pela sua preparação para o seu fim segundo normas vigentes de luto. Todavia, apresenta-se-nos como uma dança – performance a  solo de um corpo sem vida.

Numa visão mais lata e a meu ver, nesta curta-metragem sobrepõem-se diferentes níveis de luto. E de ausências. Luto por uma voz celestial (de Hildegarde von Bingen), já finada, e que serve de banda-sonora; luto por um arquétipo de edifício – se palaciano, se hospitalar, se mosteiro, se câmara mortuária ou se tudo isto –  onde a vida e a morte, a luxúria e a ascese dos amplos espaços coexistiam; luto por um corpo – um alguém do qual não sabemos o nome –  de onde a vida exauriu o seu último suspiro.

Para finalizar e  se tomarmos o exemplo do  paradigma da fotografia  e o  fazer “equivaler” ao vídeo, luto por uma sequência de momentos que “já passaram”. Seja para o realizador e colectivo criador de tal curta-metragem como para o espectador, que assistiu a uma visão, assustadoramente poética mas cruamente real, do fim. Por último, um luto por  uma versão de si anterior à visualização do filme-curto.

Um | STATE OF THE ART perturbador? Talvez. Para amenizar, vou a Wilde e ao “O Fantasma de Canterville”:

“A  morte deve ser bela. Repousar debaixo de terra, com as ervas ondeando ao vento sobre o nosso corpo, ouvindo o silêncio em toda a volta. Não ter ontem nem amanhã. Esquecer o tempo, perdoar a vida, estar em paz”. (2011;201)

O surpreendente? Ver o arrojo e, melhor, a sensibilidade de outrem no tratamento destes temas embora possa não parecer, à primeira vista.

 

The Chicken – Una Gunjak (Bósnia e Herzegovina) – (trailer em  https://vimeo.com/98596158)

“Dog Fight” – Marcel Sarmiento (EUA) – ( “> )

Danse Macabre – Pedro Pires (Canada) – ( “> )

 

 

 

 

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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