| STATE OF THE ART. 1

por Jose Cruzio | 2014.12.17 - 17:53

Tabus. Sempre existiram. Nas conversas do quotidiano, houve sempre assuntos que nem podiam ser aflorados. Quanto mais tocados “ao de leve”.

Segundo a versão mais curta e num pormenor, a meu ver, delicioso,  do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, na página 3497 : “1. Que é proibido em função do seu carácter sagrado.” Sim, numa edição publicada antes da vigência de um pseudo-Acordo Ortográfico…que denomina de “egípcios” os indivíduos originários do Egito. Imperfeito? Um grande erro? Muitos o dizem. E com argumentos bastante válidos. Já muito foi discutido; ainda continua a haver mais para discutir.

Volto ao tema.

Nas diferentes religiões, o tabu, invariavelmente, gira em torno do corpo, das suas representações e vivências, bem como dos seus desejos. Impulsos. Muitos deles, animalescos. Outros, no âmbito da racionalidade. O corpo acaba por ser a “máquina desejante” por excelência,  parafraseando Deleuze.

No seio das famílias, assuntos e nomes que não podiam vir à baila.

Nos meandros da politica e da economia, outros assuntos desde ainda não estivessem garantidos alguns pré-requisitos. Que, mal geridos, poderiam levar à queda estrondosa de líderes e dos seus “séquitos”. Claro está que não implica necessariamente ter ética. Pelos menos, aquela ética social e moralmente aceite. Os contextos influem bastante. Cada vez mais, são motores de influência  para decisões.

A muitos destes, atribuíram um rosto.

De esfíngico e ainda  insistindo numa mais esfíngica serenidade. Outro, com nome de um sábio da Antiguidade, mas que dava cada pinote, diziam.  Podia-se clamar que era dialético com o contexto que a isso proporcionava. Tantos contextos que os proporcionaram, é verdade. Os pinotes.  E estes também nas suas definições.

E sendo eu quem escreve este texto, devem estar a pensar em que isto deverá ter a ver com a Fotografia.

Partindo dessas perguntas, irei já desvelar o meu raciocínio. E as motivações deste assunto. Será primeiro do capítulo | STATE OF THE ART.

Na Arte ou nas várias Artes, serviu como motor para deliciosas (outras nem tanto) transgressões. Estéticas como ideológicas. Sempre no espírito de rompimento com a estéril “normalidade” e na proposição de novas visões. Sejam quais forem os lados, as perspetivas variam. E quase sempre confrontam-se. O bom disto, assumamos, é a possibilidade de discussão. Que seja rica e saudável, é o que me importa.

Se não fossem estas transgressões e espíritos inquietos, não estaríamos num plurívoco mundo.

Antes assim do que numa entendiante monotonia e panorama.

Ao longo das várias centúrias – pois há “visões” centenárias – até ao presente dia, os “tabus” foram variando. Uns, sagrados. Outros mesmo, no fim de contas, bastante corriqueiros. Enquanto assuntos ditos proibidos foram pretexto para muitas investidas. Umas discretas, outras bastante frontais. O grau de radicalidade do ato trazia diferentes graus de consequências.

Em “MUNDOS DA ARTE” (LISBOA: Livros Horizonte), Becker enuncia:

“O artista, que em certas sociedades é tomado pelos governantes como um elemento singular entre todos os desviantes e dissidentes potenciais, confronta-se com as sanções mais brutais.”  (2010, p.167)

Quem no Islão se atrevesse a representar, graficamente, um corpo humano ou animal ou mesmo adotando uma visão mais ocidentalizada como dos respetivos valores, sujeitava-se à interpretação dos governantes acerca dos ditames da  Sharia. Mesmo no Ocidente, existe uma ambivalência. Em países com religião predominante ou com facções político-ideológicas influentes,  imagens e temas acerca do corpo, de relações como de outras propostas de  interpretações acerca sagrado  têm o seu quê de tabu. E muitas condenáveis, segundo as interpretações feitas dos respetivos “Livros Sagrados”. Já nem tanto assim, no ocidente; mas que, nas diferentes épocas, abalou muitas consciências, cada vez mais letradas e influentes. Cujos abalos ainda se fazem sentir.

De uma leitura político-ideológica (seja de que nomenclatura for, têm o seu quê de deliciosamente contraditório…), evocaria Saramago e o seu “Evangelho”. Da minha juventude, retive os intensos debates e polémicas acerca da parceria Oliviero Toscani e o fabricante Benetton, num prenúncio das chamadas “indústrias criativas”. Foram exemplos.

Noutro quadrante, a presença de algo que enuncie a morte também é considerada tabu. Num mundo onde proliferam conflitos bélicos como outros a uma escala menor mesmo que intramuros e amplamente noticiados, existem reservas quanto à divulgação de imagens. Mesmo que apropriadas e recontextualizadas, num âmbito de politicas de prevenção. Um pormenor bastante curioso e num outro lado: em grupos de contestação e que dominem ferramentas mediáticas, os “pruridos” são bem menores. Se bem que vivam na mesma sociedade.

Ainda no que concerne à representação do conceito de belo, existem tabus. E muitos foram contornados. De diferentes formas.

Será ainda tema para os próximos capítulos. Uma boa e distanciada espera mal não fará. Até ao próximo | STATE OF THE ART.

 

 

 

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Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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